O corpo da solidão.

agosto 31, 2008 at 10:19 pm (Contos)

Em mais um relatório de movimentações do Banco Nacional, Ricardo Assunção encontrou em meio à relação dos maiores investidores o nome de uma senhora riquíssima que a cerca de quatro anos não movimentava a sua conta. Achara estranha tão atitude. Nunca em sua história de bancário soubera de ninguém, absolutamente ninguém que passara tantos anos sem uma única movimentação de dinheiro, quanto mais uma quantia tão elevada como aquela, cerca de 800 mil reais, e o mais estranho ainda, sem nunca ter inclusive se dirigido ou ligado ao Banco para se informar por ventura o que a instituição estava a fazer com a sua pomposa fortuna.

Decidiu Ricardo então investigar. Pegou o maior número possível de informações sobre a senhora desaparecida. Nome, endereço, históricos das movimentações, tudo, (menos  telefones, que mais estranho não havia), – fez cópia dos poucos saques de cinco anos atrás, – e cada vez mais achava “estranha aquela história.” Decidiu então chamar seu fiel escudeiro no banco, o amigo de longa data, conhecido em toda a cidade por Seu Odílio Pessoa. Um homem forte e determinado, que com certeza não se negaria a lhe ajudar nesta tarefa de investigador.

Os dois entraram juntos no Banco há cerca de 20 anos atrás. Cresceram na profissão, ainda jovens, na década de 1980. Hoje, um é Gerente administrativo, o outro Gerente geral, que é o caso de Ricardo. Ambos com carreiras de prestígios no mercado financeiro. Ricardo contou minuciosamente toda a história ao amigo, nos mínimos detalhes, inclusive mostrando algumas faturas copiadas. As desconfianças e as possibilidades de um “bom negócio” surgiram naquele momento, e tornaram-se cada vez mais objeto de uma enorme curiosidade. Odílio também achou bastante curioso “aquela história”, e então decidiram juntos investigar. Além do mais, o “Banco deve se importar com seus clientes”- dizia Odílio, “principalmente aqueles que têm uma bela quantia em suas contas”– respondeu Ricardo, rindo.

A senhora, de nome Severina Maciel, residiria de acordo com o último endereço do cadastro em um bairro na saída da capital paulista, num apartamento luxuoso, na Avenida Sul, 440, a cerca de dois quilômetros da Agência do Banco onde trabalhavam. Decidiram então irem juntos à hora do almoço procurar sentidos para aquela história que muito os intrigavam. Viram a possibilidade inclusive de convencê-la, – quem sabe, – a investir mais dinheiro em outros programas do Banco, além da conta-poupança, da qual era titular, e que de maneira geral trazia não muitos lucros para ambos. Chegando ao bairro determinado, saíram perguntando em alguns lugares próximos, entre bancas de revista e restaurantes, onde se encontrava o residencial Vale Brazil. Encontrado o local. Desceram do carro, e foram em direção ao guichê de segurança. Lá encontraram um homem bem vestido. Um negro alto de fisionomia séria, como boa parte dos seguranças destes residenciais de luxo.

– Bom dia rapaz, nós gostaríamos de falar com a senhora Severina Luísa Maciel, por favor. Falou Ricardo.

– Só um momento, respondeu de dentro do guichê o segurança.

Depois de alguns minutos folheando papéis que estavam em cima de uma pequena mesa dentro do guichê, o segurança começou a ficar visivelmente preocupado, demonstrando em uma fisionomia algo de nervoso. Fez uma cara estranha, pensou alguns minutos, e se voltou novamente para os dois homens distintos para dizer:

– Olhe, veja bem… Aqui ta dizendo que essa senhora mora realmente aqui neste Residencial, mas assim, eu trabalho aqui a cerca de três anos, mas eu nunca a vi em minha vida. Parece que ela nunca sai de casa, do apartamento dela, que fica no segundo andar, não tem parentes, nem amigos, e o mais estranho ainda, ela não recebe visitas. Nunca vi ninguém procurar ela por aqui. Vocês foram os primeiros. Na verdade eu havia até esquecido dela… Vocês são parentes?

Mais perplexo ainda Odílio respondeu, olhando com a sobrancelha levantada para seu amigo Ricardo.

– Sim… Que dizer, não. Somos amigos. Apenas amigos.

Foi então que o segurança perguntou:

– Vocês querem subir?

– Claro, respondeu os dois quase em uníssono.

Foi então que o segurança tentou ligar para o apartamento de Dona Severina. Enquanto isso Odílio continuava olhando com a sobrancelha levantada para Ricardo, bastante desconfiado. Mas durante dois minutos ninguém atendeu.

– Rapazes… Acho que teremos que subir juntos, acredito eu que aconteceu alguma coisa com a senhora Severina, ela não atende ao interfone. Preciso saber se ela esta bem. Vamos lá?

Foi então que os três subiram juntos no elevador do edifício, todos calados, sem olhar um para o outro, imaginando o que deveria ter acontecido. Chegando ao apartamento de número 203, o segurança começou a bater na porta chamando:

– Dona Severina! Dona Severina! A senhora está ai?? Tudo bem com a senhora? Temos visitas aqui…

Mais nada saia de lá de dentro, nem um sussurro, nem um grunido que fosse. Apenas um silêncio…um silêncio…

Não deu um minuto, e abruptamente o Segurança com um chute forte abriu a porta do apartamento. E lá estava… um corpo já ressecado pelo tempo de uma velhinha no sofá. As mãos jogadas, a cabeça a direita colocada. Parecia sorrir embrulhada em um suéter de lã cor aparentemente verde. A casa estava totalmente imunda cheirando a mofo, mas ainda mantinha certo requinte. Havia castiçais por toda parte, alguns pareciam ter sido acessos há vários anos. Pelo jeito aquela senhora havia morrido a cerca de quatro anos, justamente quando parou de movimentar sua conta, de pegar mensalmente seu rico dinheiro no Banco.

Ricardo, Odílio e o segurança ficaram perplexos, parados na frente do corpo. Quando os três se aproximaram do cadáver bem devagar, Ricardo encontrara entre os dedos finos e comidos da velhinha um bilhete. Lento ele abriu o papel, enquanto Odílio observa um quarto da casa, próxima da sala…Foi quando o choro veio nos olhos de Ricardo, e auto, visivelmente alterado e sensibilizado o mesmo leu: “estou só como nunca se viu, não desejo morrer assim, sozinha, unutil, preciso de alguém…como dói este vazio que habita meu velho peito” Chorando, desta vez com sussurros descontrolados, e consolado por Odílio, sobre o olhar triste do segurança, Ricardo sentiu pela primeira vez a dor de ter perdido alguém que nunca havia conhecido.

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O PASSAGEIRO

julho 13, 2008 at 10:14 pm (Contos)

SEMPRE FOI TRISTE o menino Anselmo. Andava abatido com seu rostinho pálido olhando apenas o chão. Um sorriso? Quase nunca dava. Não tinha apetite algum, por isso era magrinho como um espeto. Não possuía nenhuma disposição para brincar com outros garotos de sua idade na rua ou na escola. Era introspectivo, solitário e extramente ausente. Seu olhar era sempre afastado, cheio de uma atmosfera de morte, cujas pálpebras transpareciam um sono infinito e sua boca um riso tristemente infeliz.

Quando estava prestes há completar quatorze anos, Anselmo decidiu de maneira drástica acabar com sua própria vida. Para muitos parecerá estranho tal pensamento para um garoto, mas para Anselmo era a vitória necessária que ele desejava no mundo. Não agüentava mais a sua trajetória existencial marcada pela tristeza, pela angústia e pela depressão, em uma cidadezinha infeliz do interior do mais interior do Brasil; não suportava a presença tosca e insensível de sua mãe, sempre ausente de carinho e amor, com sua ignorância e grosseria absurda em palavras e ações, e de seu padrasto, um traste que não fazia outra coisa a não ser beber, beber, beber.

Todavia, apesar de seguro de sua atitude o menino Anselmo possuía várias dúvidas quanto à forma de seu suicídio. Resolveu pesquisar na velha biblioteca municipal, que ficava em sua rua. Lá encontrou em alguns livros e enciclopédias alguns dados para ele muito relevantes. Sempre teve grande interesse pelo tema, sobre as maneiras e principalmente sobre os sujeitos que tiveram a coragem de ser matar. Tinha especial afinidade pela história de vida do ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas, não por suas ações de governo, como seu falecido avô tinha, mas sim por sua coragem diante da morte naquele julho de 1954. Outro personagem na qual gostava bastante, porém escondia de todos na escola era o sanguinário Adolf Hitler. Achava fabulosa toda a história do imperador nazista e de seu fim tão “digno” durante o termino da segunda guerra mundial.

Começou a avaliar as maneiras mais interessantes que poderia dá cabo da própria vida em sua pequena cidade. Entretanto, algo que não escondia nem de si mesmo era o terrível medo que nutria da própria dor; sabia que deveria sentir dor, talvez muita dor, daquelas mais insuportáveis e temíveis, já que ia se matar, porém, queria a qualquer custo encontrar uma maneira mais rápida e se possível menos dolorosa para o seu suicídio.

Começou então a escrever em um velho caderninho o universo de possibilidades para o seu ato destruidor. Depois de duas semanas de pesquisa foi colocando em cada folha do caderno as possíveis formas de se matar. Não achava interessante ingerir veneno, pois ele sabia que “doía muito por dentro”. Não suportaria morrer daquela forma de tão inigualável sofrimento. Aconteceu há algum tempo atrás com o cachorrinho do seu vizinho, e ele viu assustado toda a dor do bichano. “Ele cuspia muito sangue e virava os olhos”, escreveu no velho caderno o garoto. Revólver – “nem pensar!”, foi enfático o menino, “pois faria barulho”, e, além disso, em sua casa não havia armas de fogo, e seria um imenso trabalho para conseguir pela vizinhança. Pular de um edifício? – pensou; “de maneira nenhuma”, em sua cidadezinha os prédios não passavam de dois andares, “eu poderia sobreviver e ser motivo de chacota de todos durante meses, talvez anos”. Afogado? Pensava o garoto, não. Na época suportava-se com muita dificuldade uma estiagem das brabas, e o Rio que abastecia o município estava demasiadamente seco, e “ açude cheio só a léguas de distância”.

Passado já dois meses de seu aniversario, mais angustiado e triste do que nunca, o menino Anselmo decidiu rapidamente o seu fim: Deveria morrer esmagado. Isso mesmo esmagado. Era rápido e todos pensariam que fora um acidente. Além disso, ele gostaria que seu corpo se desestruturasse, se quebrasse em pedaços; não agüentava mais ver sua palidez e magreza no espelho, de sentir o sorriso irônico de todos de sua cidade a rirem de sua feiúra. Anselmo não gostava de si mesmo e ele percebia claramente que todos também não gostavam, inclusive sua família, em especial sua mãe.

A mais ou menos um quilômetro da sua casa passava diariamente às nove horas da noite um trem. Era uma grande Maria Fumaça, que com seu som estridente assuntava a todos da região; não trazia passageiros e sim várias cargas de algodão para a capital. No dia marcado lá foi Anselmo para o seu destino de morte. Era uma quarta-feira, fria e calma, com nuvens ausentes e uma lua linda, clara e redonda. Saiu devagar pelos fundos da casa, sem que sua mãe notasse e com apenas a roupa do corpo. Seu padrasto dormia mais uma vez bêbado no sofá.

Lá chegando ao lugar marcado, cerca de meia hora depois de passear pelas avenidas de arvores secas e pedras vermelhas do sertão, Anselmo sentara em um lugar estratégico onde com certeza o trem não daria tempo de frear, caso o foguista o visse, em uma curva ìmgrime, ao lado de uma pequena serra, conhecida por Serra Vermelha. E chegou uma hora antes do tempo, caso o trem se adiantasse. Sentou paciente, sentindo um pouco de frio, escutou ruídos nos matos, pareciam vacas Deu noves horas, horário no qual o trem sempre passava naquele lugar. E o trem não passou. Dez horas. E o trem não passou. Anselmo decidiu esperar a hora em que o trem viria, seja ela qual fosse. Continuou deitado, com o frio no seu corpo que vinha entre os trilhos feitos de aço, as costelas pareciam já congeladas. Decidiu dormir, sonhando com a vinda triunfal da máquina que lhe levaria para o céu. No outro dia o trem também não passou. E ele continuava lá, persistente, deitado, agora com uma fome e uma dor dilacerante que parecia comer todo o seu corpinho. Anselmo estava determinado por um próprio fim trágico. Seria uma vergonha voltar para sua cidade e sua família. Tinha que morrer a todo custo. Nem que seja de fome e de frio.

Passara uma semana, e o trem não chegou.

Por conta da sede e da fome o menino Anselmo fora encontrado morto deitado nos trilhos, assim como desejara nos últimos momentos de consciência. Seu rosto estava sorrindo como nunca sorriu. Os pássaros brincavam ao ser redor, quando um jovem desconhecido encontrou seu corpo caído e completamente nu, e no fundo atrás do ângulo de visão do menino a placa que dizia: “estão encerradas as atividades ferroviárias nesta região”, e desde deste dia o trem nunca mais passou próximo à cidade…

PRE

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A carne dos sentimentos.

dezembro 21, 2007 at 10:08 pm (Contos)

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Há tempos as dúvidas não reinavam tão profundamente em meu espírito. A dor das incertezas, ou das falsas certezas, desanima-me. Um profundo oco habita o meu peito como se uma pedra de lágrimas tentasse sair dos meus olhos vadios, como se um céu escuro vivesse eternamente nas minhas lembranças perpétuas, em um formato de montanhas longínquas. Precipícios de palavras serias. Princípios de um subterrâneo vazio. Um vazio, um vazio imenso que não há tamanho. Nada me faz existir além das minhas vergonhas, além da carne dos meus sentimentos fadigados por tantos desesperos contínuos e por uma variedade incrível de radicalismo imbecil. Estas variedades me comem. Mastigam-me todo, a cada suor e lágrimas. Por que existir? Sendo a existência um fato tão incerto e sem sentido. Que Deus? Nunca vi a cara de Deus, se Deus existisse posso jurar que ele não passaria de uma entidade fabularia cuja ideologia estaria centrada nos pensamentos de um mero ateu, pois seria indigno, penso eu, este ser superior, criador de seres fracassados como eu, de acreditar em um ser superior a ele próprio. Há tempos minha cabeça revoluciona certos pássaros soltos em livros malvados. A literatura moderna não faz mais do que produzir loucos desesperados e revoltados como eu. Dostoievski, Wilde, Kafka, Huxley, Woolf, Pessoa, Joyce. Estes malditos panfletários do demônio não fazem outra coisa a não ser desequilibrar a alma de muitos sujeitos. Destruir espíritos. Eles em nada acreditam, são maquinas de cepticismos, niilismos e barbárie. Não há civilização, Deus, cidade, Amor ou tecnologia que me faça sorrir para o futuro, cantar neste presente, ou comemorar os importantes fatos do passado. Tudo me desqualifica. Tudo é nada. É absurdo, é poema trágico de uma culta melancolia, tudo é um conto, tudo é dinheiro, tudo é história, nada é história. Tudo culpa do meu pai, que me fez acreditar nestes malditos, nestes seres superiores que me distruiram: Proust, Hemigway, Pound, Sábato, isso só para citar os literatos. E os filósofos e sociólogos? Schopenhauer, Nietsche, Freud, Jung, Marx, Foucault, Deleuze. Destruidores de fé. De almas, máquinas de construção de seres infelizes. Tudo culpa de meu pai, e sua biblioteca grandiosa e única. Cada volume me escondia a escuridão eterna entres as estantes abarrotados de ódio à humanidade. Pai… Devo ser um louco em pensar assim, em me desesperar desta forma, em gritar o teu nome, e de ti culpar por toda a desgraça que me toma agora. Devo queimar-me juntamente com seus filhos pútridos, eles pedem, imploram, em cinto dentro do meu juízo louco, no meu corpo destroçado, que eles querem não existir, pelo bem da humanidade, e de mim.

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A Casa das Horas

novembro 3, 2007 at 6:50 pm (Contos)

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Era uma ilha de tempo e misericórdia; seu corpo era cercado por horas de todos os lados. As paredes antes límpidas em sua juventude, agora eram degradadas por lembranças pontuadas e partidas de morte e saudade. A solidão daquele que espera o fim e nada mais. O crepúsculo na porta. A dor em cada ponteiro parado. O espírito eterno do nada estava infiltrado na carne dos seus sentimentos. A sina da solidão, da desventura, do desespero. Os passos precisos no corredor de cadáveres sem corpo. Na janela, uma luz refletia os relógios, num mar de horas marcadas.

Otacílio faleceu aos cem anos de idade. Se antes era um homem adorado por todos, graças ao seu inigualável senso de humor, na velhice tornara-se um homem ríspido, ranzinza e solitário. Não admitia ninguém como amigo depois da morte da sua esposa, dona Nanica, apenas cumprimentava ligeiramente ao longe aqueles que um dia foram de sua inigualável estima e amor. Não foram poucas as tentativas de reaproximação dos seus ex-amigos, mas todas frustradas, a porta sempre estava fechada, em um silencio dolorido do velho deitado, muitas vezes chorando, e foi assim durante décadas, quase ninguém mais via o seu Otacílio, aquele simpático velhinho contador de piadas e causos, a não ser ás vezes quando ia comprar alguns mantimentos no mercadinho, isso quando não mandava o filho menor do vizinho comprar, este, o único a relacionar com ele.

Durante cerca de trinta anos ele acompanhou todas as mortes daqueles cuja amava, mesmo ao longe, colocando em homenagem a cada alma vencida pelo tempo e pelo destino assassino, um relógio marcando o fim de cada um. Parentes e amigos com seus retratos e seus respectivos relógios, com nomes e datas do fim, enfeitavam a Casa das Horas, como ficou conhecida a residência em toda a cidade. O nome fora dado por um literato do município, seu Abílio, sobrinho do mesmo.

Quando Otacílio morreu sua casa continha cerca de 80 relógios, todas as paredes eram desenhadas por ponteiros, marcando cada um as diferentes horas do FIM dos seus queridos amigos e familiares, escritas com o seu próprio punho, com sua letra vacilante, o maior de todos e o mais belo era justamente o da sua esposa, Dona Nanica, marcava 12h47min e em baixo a data fatídica de seu falecimento: 13 de julho de 1978. Dona Nanica foi sua musa e o seu sentido de viver. Pequenina, como o seu apelido já dizia, ela encantava a todos da cidade com o seu jeitinho risonho e feliz, sempre com um sorriso e um abraço para as visitas. Depois de morto, a noticia de tal casa saiu em todos os jornais e telejornais do país, muitos perguntavam: como poderia um individuo produzir tal cenário escabroso?. Cultuar a morte daquela maneira? Isolar-se nela e no sofrimento. Na capital vários intelectuais na ocasião pensaram inclusive comprar dos possíveis herdeiros a casa, e transforma-la numa espécie de museu do tempo e/ou da morte. Psicólogos e Antropólogos tentavam explicar tal atitude.

Sozinho, Otacílio esperava o seu fim com a angústia daqueles que a anos não viam mais sentido na existência, mergulhado nas lembranças dos entes queridos e ferido pelas conseqüências do tempo. Não via a bendita hora de marcar o seu próprio relógio e suspirar definitivamente para a eternidade e infinito, onde o tempo não carregasse a morte em seus braços de pedra. Morreu sorrindo, pois o último relógio da casa das horas foi justamente o seu. Otacílio Guilherme Pereira falecido às 15h35min, no dia: 23 de Março de 2008. Seu ultimo gesto foi seu ultimo sonho.

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O LAVADOR DE CADÁVERES

julho 25, 2007 at 3:47 pm (Contos)

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HÁ QUASE VINTE ANOS Aderaldo lavava cadáveres no Instituto Médico Legal de Salvador, Bahia. Profissão difícil para muitos, não para Aderaldo, um sujeito simpático, amigo de todos, e que dizia não ter medo de nada, muito menos da morte. “Mau mesmo só quem faz é gente viva. Morto só faz apodrecer” – repetia sempre aos seus amigos e conhecidos.

          A limpeza dos corpos era sempre realizada com o maior carinho e cuidado, independente do estado do cadáver, da comoção social ou gral de parentesco do individuo morto. Muita gente famosa ele já havia lavado. Políticos, artistas, jogadores de futebol. Mais a maioria dos cadáveres eram sempre constituídos de assassinos, prostitutas, mendigos ou homossexuais, da zona baixa da cidade, vítimas normalmente de tiros ou facadas em brigas e assaltos.

           Era um fim de tarde quando Osório – seu chefe de repartição mandou-lhe um corpo vitima de bala perdida que havia chegado a poucos minutos do fim do seu horário de trabalho, e que deveria ser enterrado imediatamente, antes do anoitecer. Aderaldo achou estranho tal pedido, mas logo deu inicio os primeiros atos do seu serviço – como escolher as toalhas e os sabões, limpar a mesa, e retirar o corpo cuidadosamente da geladeira – o morto parecia à primeira vista já ter sido examinado pelo legista. Quando Aderaldo retirou a capa que encobria o corpo, e este teve um grande susto: o cadáver que estava a sua frente tinha a sua face.

           Cabeça grande, bigode ralo, olhos ligeiramente puxados, pele morena e, além disso, estava com a mesma roupa que ele vestia. Calça jeans, camisa branca com o logotipo do IML, sapato de couro escuro. O susto foi tão forte que Aderaldo na mesma hora caiu para trás, pálido. Minutos depois, logo após o mal estar, levantou-se devagar. Olhou a ficha do defunto, que estava bem próximo ao tiro que o dito levara (no abdômen), e a sua surpresa foi ainda maior. O nome do morto era o mesmo que o seu: Aderaldo Miguel Pereira. A mesma idade: cinqüenta e um anos.

           Começou a pensar que estava ficando louco, vendo o próprio corpo morto assim a luz dos seus próprios olhos. Nervoso, largou tudo ás pressas e saiu correndo desesperado a sua casa, logo que chega a sua rua encontra Luciene a sua mulher, ela lhe perguntou o que havia acontecido e a qual seria o motivo de tal palidez e nervosismo no rosto e nas palavras. Aderaldo ainda assustado contou toda história a sua mulher. Visivelmente estranha, com um olhar enigmático, Luciene se levantou da cadeira onde escutara a maior parte da historia e foi até o quarto do casal onde juntou todas as coisas do marido e as colocou na calçada dizendo:

            – Aqui você não mora mais, não durmo com um homem morto.

             Duas semanas após o fato no IML falece Aderaldo vitima de um tiro no abdômen em uma briga de bar, o assassino supostamente fora o amante de sua mulher.

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MÁ LEMBRANÇA (Diário de João)

julho 6, 2007 at 5:06 pm (Contos)

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“Julgamento é sempre defeituoso, porque agente julga é o passado.”

Guimarães Rosa.

“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.” Guimarães Rosa

*****

DIZEM QUE QUANDO criança eu matei meu irmão com uma espingarda do meu pai. A arma tava escondida por detrás da cama velha do quarto de coisa usada. Não me alembro não. Mas penso que é verdade. Tia Rose não mente. Que eu saiba não. Luis era moleque brabo, isso era. Daqueles que nem carinho gostava. Mas isso não era motivação pra matá-lo, quanto mais sendo meu irmão. Quando ele morreu tinha cinco anos e eu seis de idade. Eu gostava dele, dos seus olhinhos de pitomba, seu cabelo alourado feito o de tio Renato e principalmente do seu sorriso maroto.Tenho a certeza que ele também gostava deu. Não gostava de brincar comigo. Isso era verdade. Sei porque? Adorava mesmo era assistir televisão, principalmente desenho animado. Pica-pau, perna-longa, estes desenho antigo e de jogar peda em passarinho no quintal. Sempre sozinho. Era o jeito dele, calado, trombudo. No dia que eu tava no quarto das coisa usada procurando um pneu de carroça velho pra fazer balanço novo, o Luis tava no banheiro tomando banho com mamãe. Contam que Luis foi me procurar pra mostrar perfume cheiroso que ele tinha ganhado de tia Rute no sábado, quando eu, com medo que fosse papai, atirei no susto com a arma descoberta. Era uma espingarda velha de caçar. Luis caiu de vez sem respirar com um buraco no peito. Fiquei paralisado bem dez dia – disse tia Rose. Chorei muito e andava desmaiado pelos canto da casa feito moça adoentada. Em casa quase ninguém olhava mais pra mim, inclusive mamãe. Não sei com certeza o que aconteceu de verdade. Às vezes penso que é tudo invenção da cabeça de tia Rute ou imaginação da minha.Que pena eu ter matado meu irmãozinho querido! , se hoje tivesse vivo, tava com dezessete anos de idade. Acho que é melhor mermo eu não lembrar direito do acontecido, faz mal a alma. Escrever às vezes faz mal também, porque é exercício de lembrança e deixa qualquer homem triste como o diabo.

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NOITE DE AGONIA

julho 4, 2007 at 3:36 pm (Contos)

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EM UMA NOITE CLARA, a lua dispensava as lamparinas e candelabros da casa. Meninos e animais estavam assustados com tal luminosidade excessiva. Era inicio de noite. O gado mugia desesperado. Cachorros rosnavam alucinados. Bodes nas serras berravam e pareciam que pediam ajuda em forma de um coral de lamurias. Galinhas, que todos os dias adormeciam em seus poleiros logo cedo, não conseguiam subir cacarejando suplicas indecifráveis. Tudo parecia descontrolado. Cercado de mistério e de absurdo. A lua grande e luminosa.

Aldo, meu irmão mais novo, que sofria dos nervos, percebendo os sons e a luz estranha, correu rápido para cama. Percebíamos claramente que ele estava chorando no quarto. Papai logo depois mandou-nos dormir também. Deitamos todos. Mas ninguém conseguia pregar o olho. Os sons desesperados dos animais não deixavam. A luminosidade excessiva da lua não deixava. Os choros repentinos de Aldo no quarto não deixavam. Papai vagava nos corredores não sabendo o que fazer. Deitou novamente e escutei quando ele disse à mamãe que o melhor era esperar ao amanhecer, sua saúde não deixaria reparar direito o que estava acontecendo. Há tempos papai sofria com algumas feridas nas pernas.     

O dia nascia quando pouco a pouco fomos nos levantando, não havia mais nenhum som dos animais, muito menos a claridade da lua. Parecia que todos os bichos descansavam quietos depois de uma noite de agonia. O sol se mostrava heróico e luminoso. Aldo até que fim ressonava no quarto.              

A primeira a se levantar foi mamãe que imediatamente se dirigiu ao banheiro, logo depois papai saiu da cama com o seu arrastando característico de sandálias mal calçadas nos pés, abrindo abruptamente a janela central da frente da casa. Um grito forte saiu da sua garganta assustando a todos nós. Inclusive Aldo que estava dormindo. Corremos para socorrer papai, pensando que ele havia caído na calçada ou coisa assim. Mas não, o que víamos não poderíamos compreender, todos os animais estavam mortos, tudo estava sujo de sangue, as calçadas, os terreiros, o curral, as árvores e as pedras. Não havia um só lugar fora da casa sem um animal morto. Cachorros, galinhas, bois, vacas e bodes. Aldo saiu gritando mais desesperado do que nunca. Gritava alto em nossos ouvidos, dizia palavras que ninguém entendia e chorava dando muros nas portas e janelas. Tivemos que segurá-lo e trancá-lo no quarto, onde lá quebrou tudo. Papai exigiu que juntássemos nossas coisas, pois deveríamos sair imediatamente daquela casa. Ninguém nos explicava o que havia acontecido.  

Amontoamos nossos pertences na velha carroça no terreiro e já estávamos saindo quando escutei baixinho Aldo dizer algo olhando fixamente para o céu: “na cidade grande, os animais desta vez iriam morrer dentro de nossa casa”. Perguntei que animais eram esses. Ele respondeu sério: “seremos nós mesmos, escravos de grades e portões”. Foi a única coisa sensata que Aldo falou em sua vida.

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