O JOVEM COMPOSITOR

agosto 27, 2008 at 1:52 am (A Carne da Fábula)

O silêncio vazou devagar, abandonando entre as linhas das mãos, os papéis, e o lápis, já manchados pelos ares pesados de uma cor ausente. Na mesinha papéis amarelados encolhidos por décadas de desamparo. Na cama o velho violão, pasmo pela indiferença do olhar do dono. Na sala apenas os gritos da televisão que imaginavam uma paz solitária que nunca existira. Ao som de uma propaganda de carros a noite escutou a única lágrima caída no papel, e já dormindo na alta noite  o silêncio  vazio do rosto já vermelho de Otto  comia a própria sombra. Houve um remorso de vidro sem música na luz da janela.

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minicontos

fevereiro 7, 2008 at 4:44 pm (A Carne da Fábula)

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O preso político.

 

– Não tenho nada a dizer. Minha boca sofre de aminésia crônica como os meus olhos vadios.

Eterno amor.

 

– Se você me ama. Diga a verdade.

– Sim…eu te amo, te amo muito, mas não suporto suas meias fedorentas no quarto.

– Mas Ivone porque você não disse logo…eu já havia cortado os meus dois pés antes Ivone.

Barracos a venda

 

Procura-se uma vítima. Favor entrar sem armas.

 

A Felicidade Dói

Desarmado, com a cabeça caída para trás, a boca meio aberta, perdido de si mesmo, apresentava a imagem pungente de um abandono sem salvação.

 

Cartas de Amor

 

Estranho é pensar que tudo é mentira. E que aquelas cartas de amor não passam hoje de simples e velhos papéis sem cor nas gavetas do passado.

 

Destino

Não esquecer dos casos em que alguém ou algo nos anda a empurrar pelas costas sem que saibamos por que nem pra onde.

Na Caverna

 

Que bela cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós.

 

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A CARNE DA FÁBULA (Contos Minimos)

julho 23, 2007 at 2:19 pm (A Carne da Fábula)

          

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  Mini-contos:  

I. A Felicidade Dói

  

Desarmado, com a cabeça caída para trás, a boca meio aberta, perdido de si mesmo, apresentava a imagem pungente de um abandono sem salvação.

 

II. Rio Tietê

  

Os demônios brincavam de anjo em sua cabeça. No pulso a estranha ferida não cicatrizava. Mas um passo e ele veria na água escura do alto da ponte um mundo de pássaros perdidos.

 

III. O Líder

  

No futuro próximo serei eu – dizia, no futuro distante, serei todos.

 

IV. Tumor

  

Dois sapatos e um dedo ferido em cada janela. No armário a arma escondida, sendo  na boca malvada a lembrança da cena que nuca se apaga. Entre os dentes a carne da fábula, morte lenta.

 

V. O Cigarro

  

Olhou o quarto vazio. Esqueceu a chave na sala. Estava aberta e negra a porta como o seu pulmão. Vermelho vermelho estavam as suas mãos. Diz a canção: não há mais esperança, estamos todos mortos…

 

VI. Destino

  

Não esquecer dos casos em que alguém ou algo nos anda a empurrar pelas costas sem que saibamos por que nem pra onde.

 

 

VI. Na Caverna

 

Que bela cena descreves e que estranhos prisioneiros. São iguais a nós.

 

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