MÁ LEMBRANÇA (Diário de João)

julho 6, 2007 at 5:06 pm (Contos)

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“Julgamento é sempre defeituoso, porque agente julga é o passado.”

Guimarães Rosa.

“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero.” Guimarães Rosa

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DIZEM QUE QUANDO criança eu matei meu irmão com uma espingarda do meu pai. A arma tava escondida por detrás da cama velha do quarto de coisa usada. Não me alembro não. Mas penso que é verdade. Tia Rose não mente. Que eu saiba não. Luis era moleque brabo, isso era. Daqueles que nem carinho gostava. Mas isso não era motivação pra matá-lo, quanto mais sendo meu irmão. Quando ele morreu tinha cinco anos e eu seis de idade. Eu gostava dele, dos seus olhinhos de pitomba, seu cabelo alourado feito o de tio Renato e principalmente do seu sorriso maroto.Tenho a certeza que ele também gostava deu. Não gostava de brincar comigo. Isso era verdade. Sei porque? Adorava mesmo era assistir televisão, principalmente desenho animado. Pica-pau, perna-longa, estes desenho antigo e de jogar peda em passarinho no quintal. Sempre sozinho. Era o jeito dele, calado, trombudo. No dia que eu tava no quarto das coisa usada procurando um pneu de carroça velho pra fazer balanço novo, o Luis tava no banheiro tomando banho com mamãe. Contam que Luis foi me procurar pra mostrar perfume cheiroso que ele tinha ganhado de tia Rute no sábado, quando eu, com medo que fosse papai, atirei no susto com a arma descoberta. Era uma espingarda velha de caçar. Luis caiu de vez sem respirar com um buraco no peito. Fiquei paralisado bem dez dia – disse tia Rose. Chorei muito e andava desmaiado pelos canto da casa feito moça adoentada. Em casa quase ninguém olhava mais pra mim, inclusive mamãe. Não sei com certeza o que aconteceu de verdade. Às vezes penso que é tudo invenção da cabeça de tia Rute ou imaginação da minha.Que pena eu ter matado meu irmãozinho querido! , se hoje tivesse vivo, tava com dezessete anos de idade. Acho que é melhor mermo eu não lembrar direito do acontecido, faz mal a alma. Escrever às vezes faz mal também, porque é exercício de lembrança e deixa qualquer homem triste como o diabo.

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