Blecaute: uma entrevista com Bruno Gaudêncio

janeiro 26, 2009 at 11:16 pm (Entrevistas)

Por Bruna Ferrari

Neste último mês de Dezembro fui entrevistado, como gostei bastante do resultado decide quase dois meses depois, publicar. O tema é a revista eletrônica Blecaute, que publiquei neste final de 2008. Em breve o segundo número sai por aí. Vamos à entrevista, realizada pela estudante de jornalismo Bruna Ferrari.

1-) Qual sua formação acadêmica?

Bem, sou formado em Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, pela Universidade Estadual da Paraíba. Terminei ano passado. Atualmente curso História na mesma instituição.

2-) Aonde nasceu? Idade? Trabalho em outra área?

Nasci em Campina Grande no ano de 1985, portanto tenho 23 anos de idade. Atualmente sou estagiário da FIEP (Federação das Indústrias do Estado da Paraíba), no projeto: Memória, Patrimônio e Cidadania: Arquivo Documental da FIEP, sob orientação dos professores Maria José Silva Oliveira e José Edmílson Rodrigues.

3-) Você foi o idealizador da revista blecaute?

Exatamente… Desde faculdade de jornalismo que eu pensava realizar uma revista de cultura. Todavia, não tive espaço de colocar em prática esse sonho. Neste último mês de novembro, em um destes Domingos quentes em frente ao meu computador, coloquei na cabeça que deveria fazer uma experiência neste sentido. Comecei a mandar convites através de e-mails a amigos literatos, como Janaílson Macedo e João Matias, contistas aqui da cidade, e outros mais famosos como Franklin Jorge e Ricardo Kelmer, amigos também, contudo mais conhecidos nacionalmente e de outros estados. E daí fui afinando a idéia…juntando sempre os valores locais com os mais experientes… no final estava pronto a revista.

4-) Se sim, como você conseguiu colocar sua idéia em prática??

Eu devo muito a Internet. Até o ano passado eu não tinha um computador se quer…quando foi no mês de março de 2007 meu pai comprou com muito esforço um ,e daí eu desandei a escrever, a interagir, a fazer amizades…como eu já tinha um gosto por literatura e artes fiz várias amizades nestes campos. Ganhei muitos livros. Hoje sou até conhecido no âmbito local. Por exemplo, tenho amigos como Astier Basílio, Linaldo Guedes, Amanda K, André Ricardo Aguiar, em parte graças ao orkut, na minha opinião uma bela ferramenta de comunicação…outros amigos que tenho como Franklin Jorge, Rinaldo de Fernandes e Nélson de Oliveira foram decorrência de matérias e livros que escrevi ou estou a escrever…

5-) Você conta com algum tipo de patrocínio para fazer a revista???

Nenhum… É uma atividade espontânea, meio marginal mesmo..tenho em mim que devo fazer isso sempre sabe, colocar em prática minhas idéias e não são poucas. Em breve quero publicar meus livros, produzir outras Revistas e Suportes impressos, como Almanaques… mas isso é para o futuro. A revista esta sendo bem aceita, e a nossa idéia, e quem sabe colocar uma versão impressa. É o nosso sonho.

6-) E quanto aos colaboradores? Como é o critério de seleção dos textos que vai pra revista??
O primeiro número saiu uma lista de colaboradores amigos meus como eu bem disse. Eu fui o editor chefe e Janaílson Macedo, historiador e contista, amigo meu, trabalhou um pouco a questão estética.. o visual
Na realidade a idéia da BLECAUTE nasceu do contato com outras duas revistas. A primeira é a ORPHEU, no qual o Fernando Pessoa colaborou no início do século XX em Portugal. A segunda é a GARATUJA, essa nossa, aqui de Campina grande, que contou com colaboradores do nível do Bráulio Tavares, José Antonio Assunção, meu primo Edmundo Gaudêncio e tantos outro da década de 1970. Essas revistas me influenciaram muito pela simplicidade, pelo jeito puro de expressar idéias literárias, sem arrudeios ou usos de artefatos artificiais gráficos.
Abro um espaço aqui para explicar o nome da revista. O porquê que ela se chama BLECAUTE. É uma referencia ao apagão literário que campina grande sofre nestes últimos tempos. Praticamente não temos espaços de divulgação. Não temos eventos literários. As duas faculdades de letras são inertes. A academia de letras local não sabe outra coisa a não ser relembrar seus mortos. O outro motivo é uma referencia a um romance que gosto muito chamado BLECAUTE, de Marcelo Rubens Paiva, um grande livro, e que decidi homenagear.

7-) Quantas edições a revista já teve??

Ele teve um número apenas. O segundo sai ainda esse ano, final do mês de dezembro.

😎 Na sua opinião, o que falta para o Brasil dar mais incentivo à cultura??
Somos um povo culturalmente artístico, gostamos de produzir arte. Isso se deve a nossa mistura étnica e de raça. O nosso problema é a questão da recepção, é a ausência de público, de gente que possa consumir música, cinema, literatura, etc. devido em parte pela falta de educação e refinamento estético, por outro, pela ausência de capital financeiro para consumir bens simbólicos e culturais. Mas incentivo existem, apesar de poucos, temos o FIC, FUMUC, e outros nomes esquisitos para Fundos de incentivo institucionais Nacionais…

9-) Estamos em uma área do Brasil, onde a cultura não é difundida, onde quase nunca as peças teatrais chegam e que são raros os shows de música popular brasileira. De que maneira a cultura poderia ser mais viável ao povo paraibano, especialmente o campinense??

É um problema que percebo também, na verdade todos nós que gostamos de arte percebemos esse problema, mas assim, a chamada cultura refinada, ou clássica não tem muitos consumidores aqui, mas percebo mesmo assim algumas resistências nossas que podem melhorar no futuro, como o PROJETO SEIS E MEIA, O REP/REPENTE, entre outros projetos culturais. Mas o que nos falta mesmo é uma militância artística, a organização de uma comissão de arte, a criação por parte da prefeitura de uma secretaria especifica de cultura e lazer…sinceramente acho esse governo Veneziano um dos piores em relação a cultura, apesar de ter votado nele, falta algum artista, um intelectual consciente destes problemas, a sua equipe de governo é demasiadamente simplista e antiestética, espero que nessa segunda gestão isso mude. Pelo bem cultural de Campina. Por outro lado, a oposição também não é lá muito criativa, e perceptiva a esses problemas, principalmente se percebemos o nome de João Dantas como líder cultural da cidade, fato que discordo totalmente.

10-) Você pensa em ampliar a revista, e ir para as gráficas imprimi-la?

Exatamente. É nosso sonho.

11-) Quando você começou a escrever para a revista??

Nos mais longínquos sonhos eu já esquecia nesta minha revista.

12-) Você acha que com a invasão da internet nos meiios de comunicação, vai acabar fazendo com que as editoras rumem para as revistas digitais??

Não acredito nisso, a cultura impressa é muito forte. As duas serão sempre parceiras e às vezes inimigas, mas sempre estarão juntas no mercado.

13-) Qual a sua perspectiva para o futuro da revista Blecaute:??

Ela tem um propósito vanguadistico, criar uma cultura de discussão literária e artística na cidade, ou para parte da cidade. Ser uma espécie de centro irradiador de idéias e valores culturais, tudo com muito bom gosto e sofisticação. É bom deixar claro que Todos podem participar desde que tenham boas idéias para expressar. Antes de terminar quero dizer que no próximo numero além de mim, João Matias de Oliveira (Contista e estudante de Jornalismo e Ciências Sociais) e Janaílson Macedo (Contista e estudante de História) serão os editores da revista Blecaute. Somos uma equipe agora.
Para terminar eu convido os interessados a mandarem seus textos, como contos, poemas, ensaios e artigos científicos ligados a literatura e artes para meu e-mail: gaudencio_bruno@yahoo.com.br, em breve a revista vai ter seu próprio e-mail…uma coisa eu desejo: que a revista chegue ao e-mail de vocês…rsrs

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PEQUENA ENTREVISTA AO ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO RINALDO DE FERNANDES.

fevereiro 11, 2008 at 10:10 pm (Entrevistas)

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RINALDO DE FERNADES

È doutor em Letras pela UNICAMP e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Organizador do livro “O Clarim e a Oração: cem anos de Os sertões” (São Paulo: Geração Editorial, 2002). Como pesquisador, fez os textos da antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século, organizada por José Nêumanne Pinto (São Paulo: Geração Editorial, 2001). Já teve contos publicados, entre outros suplementos, pelo “Rascunho”, de Curitiba. Autor dos livros de contos “O Caçador” (1997) e “O perfume de Roberta” . Neste último ano venceu o prêmio Nacional de Contos do Paraná, o mais importante do gênero, com o a narrativa “Beleza”.

E-mail: rinaldofernandes@uol.com.br

as perguntas que se seguem fazem parte de um questionário, já referido neste blog, sobre o panorama da literatura contemporanea brasileira.

1 – Quais são as principais dificuldades de ser um escritor no Brasil?

A primeira diz respeito ao acesso às médias e grandes editoras, que, efetivamente, distribuem o livro pelo país e possibilitam o acesso de um público mais amplo ao trabalho do escritor. As portas continuam fechadas nessas editoras (ainda muito centralizadas no eixo São Paulo-Rio) para um bom número de autores de talento. Por outro lado, o autor brasileiro sofre também com a falta de políticas de incentivo à leitura, de acesso ao livro, que em nosso país é muito caro. Recentemente houve uma pesquisa que indicou o baixo número de leitores entre os universitários brasileiros. Isso é muito triste.

2 – Quem você destacaria na atual Literatura Nacional?

Concedi, recentemente, junto com o Nelson de Oliveira, entrevista à revista Problemas Brasileiros, editada pelo SESC de São Paulo. Reproduzo aqui, resumindo, o que falei sobre autores contemporâneos brasileiros: “Hoje no Brasil há certamente bons escritores, prosadores e poetas, sendo que, até onde tenho acompanhado, o conto tem sido o gênero de destaque. Não apareceu ainda o grande romancista ou o grande poeta, aquele autor que de alguma forma desestabiliza, que traz algo de impacto, com cara de novo. Parece-me que os dois últimos grandes romances brasileiros são Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, e A Festa, de Ivan Ângelo, ambos da década de 70. […] Mas não quero dizer com isso que não tenham surgido outras obras de qualidade. Faço questão de citar alguns bons romancistas mais recentes: Miguel Sanches Neto, André Santanna, Milton Hatoum, Luiz Ruffato, Paulo Lins, Patricia Mello, Chico Buarque, Nelson de Oliveira, W. J. Solha… […] Com a poesia acontece algo parecido, mas os poetas mais velhos ainda dominam a cena. Caso especialmente de Ferreira Gullar e Manoel de Barros. Os contistas, por sua vez, estão num momento muito instigante. Nota-se uma variedade de formas no conto, que vai do minimalismo ao realismo brutal, passando pela vertente intimista (ainda nas pegadas de Clarice Lispector), pela narrativa fragmentária ou mesmo experimental. Isto pode ser comprovado nas antologias ultimamente organizadas por mim, por Nelson de Oliveira e por Luiz Ruffato. […] No que se refere ao Nordeste: o Ciclo do Romance de 30 foi, efetivamente, um acontecimento extraordinário de nossa literatura, revelando autores como Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado. Atualmente, autores nordestinos como Antônio Torres, Francisco Dantas ou mesmo Aldo Lopes de Araújo conseguem manter um diálogo rico, não raro original, com essa tradição. Outro exemplo, ainda inserido na tradição regionalista mas com soluções diferentes, é a narrativa dialógica, intertextual, de Aleilton Fonseca, que resgata o universo e a oralidade de Guimarães Rosa. Mas há autores com outros traços, a exemplo de José Nêumanne Pinto, com o romance O silêncio do delator, que retrata, de forma paródica, alguns ícones da cultura urbana e de massa da segunda metade do século XX. […] Há hoje autores nordestinos que residem na região e fazem uma literatura urbana que, de tão metropolitana, fica difícil às vezes de relacionar com o Nordeste. É o caso, por exemplo, da contista Marilia Arnaud. Ou mesmo o meu caso. Meus contos são urbanos, ficando difícil ao leitor associá-los ao Nordeste, mas eu, embora já tendo vivido em São Paulo, resido na Paraíba”.

3 – Em sua opinião, podemos afirmar que há uma temática central ou uma essência narrativa na atual Literatura Brasileira?

central, não. Mas me parece que a essência de nossa literatura continua neo?Temática naturalista. Ou seja, nossos principais prosadores aspiram ao documento, à denúncia de nossas mazelas sociais. O texto rente à realidade é um traço ainda forte, significativo, de nossa ficção.

4 – O que o faz escrever? Ou seja, qual a sua principal motivação enquanto escritor?

A minha principal motivação é marcadamente emocional. Há determinadas situações vividas que criam em mim uma necessidade, às vezes inadiável, de resposta estética. Um ambiente que vi e contemplei, um tipo humano. O ambiente exerce uma grande força no meu processo criativo. Mas, no momento de elaboração da narrativa, do conto, construo com muita atenção, amparado no que entendo de mais importante acerca de literatura, o personagem e sua situação.

5 – Cite pelo menos três referencias literárias da sua escrita?

Machado de Assis, Graciliano Ramos e Rubem Fonseca. São autores fundamentais para mim. Mas gosto ainda de alguns outros, especialmente Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Dalton Trevisan.

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Uma entrevista com Braúlio Tavares sobre a literatura brasileira contempôranea atráves do Jornal da Paraíba.

janeiro 7, 2008 at 10:42 pm (Entrevistas)

 

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Uma curiosidade sempre presente nos dias atuais nos críticos e também leitores brasileiros é a compreensão de que luzes e sombras são constituídos a atual literatura brasileira; em quê cortejo de sistemas, idéias e ilusões faz parte os nossos mais recentes escritores.

Com o intuito de compreender estas questões resolvi realizar recentemente um inquérito literário, formulando assim um pequeno questionário. As perguntas foram: O que singulariza a atual Literatura Brasileira? Quais os seus principais expoentes? O que faz um individuo ser um escritor nos dias atuais?, Quais as principais referências literárias na sua escrita? As perguntas visaram principalmente indicar e compreender o papel dos nossos novos escritores na sociedade brasileira contemporânea.

As perguntas foram enviadas via e-mail, entre os meses de julho e agosto de 2007, para 43 escritores brasileiros – todos eles, nomes destacados do cenário literário brasileiro atual, como Andréa Del Fuego, Bernardo Azenberg, Cíntia Moscovich, Cláudio Daniel, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Nicolas Behr, Nilto Maciel, Fabrício Carpinejar, entre outros, – todos eles, das mais variadas tendências formais, gêneros e lugares do País. Destes 43 escritores, infelizmente apenas 22 responderam.

Um dos questionados que mais interessantemente respondeu as minhas perguntas foi justamente o meu conterrâneo, o escritor, poeta e músico campinense Bráulio Tavares. Logo que mandei o questionário ele assim se referiu: “Obrigado pela consulta. Mas os temas que você propõe são muito amplos, muito sérios, não são coisa que possa ser respondida numa enquête, que a meu ver pressupõe respostas sintéticas, precisas. Eu precisaria escrever, no mínimo, uma das minhas colunas de jornal para responder a cada uma. E ainda assim seria pouco. Se você concordar, farei as respostas e as enviarei aos poucos. Caso você concorde com a publicação no JPB, claro”. Prontamente concordei. E assim pouco a pouco, semanalmente, vieram as respostas em sua coluna no Jornal da Paraíba. Com toda a sua pureza, sabedoria e estilo, características impecáveis da escrita deste grande intelectual paraibano.

Nascido em Campina Grande , na Paraíba, em 1950, filho do também poeta Nilo Tavares, Bráulio morou ainda em Belo Horizonte e Salvador, vivendo atualmente no Rio de Janeiro desde 1982. Poeta, escritor e compositor dos mais respeitáveis do Brasil, Bráulio Tavares é autodidata, sendo um apaixonado por cinema e literatura. È ainda pesquisador de literatura fantástica, cuja compilação sua foi a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992), é ainda colunista de jornal e roteirista de shows, cinema e televisão.

Como escritor suas principais obras são: A Espinha Dorsal da Memória. (Contos. Lisboa/ Rio de janeiro: Caminho, Rocco, 1989,1996), Mundo Fantasmo (Contos. Lisboa/ Rio de janeiro: Caminho, Rocco, 1996, 1997), Como enlouquecer um homem: as mulheres contratacam (Humor. Rio de Janeiro, Editora 34, 1993/1997) , A Máquina Voadora (Romance. Lisboa/ Rio de Janeiro: Caminho, Rocco, 1994, 1997) e ABC de Ariano Suassuna (Antologia. Rio de janeiro: José Olympio, 2007).

As bases reflexivas destes artigos citados a cima deveram fazer parte logo logo quem sabe, – assim como todas as outras entrevistas , – de um escrito, uma espécie de ensaio e inquérito literário misturado, a moda João do Rio, que será intitulado Sacudindo os sentidos do mundo: diálogos com escritores brasileiros contemporâneos.

 

Vamos aos artigos:

 

A dificuldade de escrever

(27 de setembro de 2007).

Braulio Tavares

“Quais são as principais dificuldades de ser um escritor no Brasil?” Imagino uma cena de filme em que um entrevistado ouve essa pergunta, fica em silêncio durante cinco minutos diante das câmaras, ao vivo, e depois murmura: “São muitas… são muitas… Acho melhor ir ser taxista”. Prefiro focar uma questão básica, que se coloca para muita gente que escreve: 1) Ser um escritor tempo integral, e tentar viver da literatura; 2) Ter outra fonte de renda (um emprego fixo) e escrever nas horas vagas. Cada uma tem vantagens e inconvenientes.

A segunda opção foi adotada pela grande maioria dos nossos grandes autores, que eram funcionários públicos, diplomatas, médicos, professores, jornalistas, etc., e não dependiam da vendagem dos seus livros para sobreviver. Isso dá ao autor uma certa liberdade. Ele escreve exatamente o que quer, e se o livro não vender, o prejuízo é da editora, e a pedra de tempo é do livreiro. O Escritor Nas Horas Vagas é num certo sentido um homem livre, que escreve o que lhe dá na telha; por outro lado, perde um tempo precioso de vida literária útil redigindo ofícios administrativos (como Drummond), demarcando fronteiras no meio da selva (como Guimarães Rosa) ou tratando de doentes (como Moacyr Scliar).

À primeira vista, o ideal seria o escritor viver da literatura e para ela. Já pensou, ter como único ofício o trabalho literário, 24 horas por dia, 365 dias por ano? O problema é quando a vendagem dos livros não cobre as despesas de aluguel, supermercado, contas, colégio das crianças. O escritor começa a folhear os suplementos, olhar a lista dos Mais Vendidos: “Hmmm… Parece que livros sobre os Templários estão tendo boa saída…” E aos poucos ele vai resvalando para a primeira opção de quem vive do ofício: fazer, não o que gostaria de escrever, mas o que o público está gostando de ler.

Como sempre, não é possível juntar o melhor de dois mundos. Já vi alguns autores dizerem que a melhor coisa para um escritor é exercer uma profissão que lhe exija atividade física (piloto de lancha, lenhador, etc.) e escrever nas horas vagas, porque aí a escrita vira um descanso. Para estes, passar o dia dando aulas de literatura (ou ralando numa redação de jornal) e tentar escrever à noite é suicídio.

É difícil viver de literatura no Brasil, portanto a opção de viver de outra coisa é a mais prática e a mais sensata. Para adotá-la, no entanto, é preciso ter disciplina e obrigar-se a escrever com regularidade. Escrever muito, e publicar apenas os 10% que parecerem de melhor qualidade, não importa se são vinte páginas por mês ou por ano. As principais dificuldades de ser escritor não têm nada a ver com o Brasil, ou com a China ou com o Haiti. Os problemas do escritor são parecidos no mundo inteiro e começam todos em casa, ou seja, dentro da cabeça dele. Se um escritor conseguir resolver os problemas que ele próprio se cria, já tem mais de meio caminho andado.

A literatura do presente

(3 de Outubro de 2007)

Braulio Tavares

Um entrevistador me pergunta: “Quem você destacaria na atual Literatura Nacional?”. Pergunta difícil, a começar pelo fato de que eu não considero que há uma literatura atual e outra que não o seja. Para mim, a Literatura é o conjunto de textos disponíveis. A literatura brasileira envolve desde Gregório de Matos até o jovem poeta que acaba de publicar seu primeiro livro de tentativas. Um não é mais atual do que o outro, e há muitas chances de que Gregório de Matos se mantenha atual por mais tempo do que muitos poetas que estão vivos, inclusive eu próprio.

Para mim a literatura se compõe em primeiro lugar de livros, e só depois de autores. Por isto, trato em pé de igualdade Machado de Assis e Rubem Fonseca. Não importa se um já morreu e o outro está vivo, e sim que seus livros estão lado a lado na livraria, na biblioteca, na minha estante. Os livros estão “vivos e bulindo”, e para mim é isto que constitui a atualidade da literatura.

Suponhamos, então, que a intenção da pergunta seja de recensear os autores surgidos recentemente, os que começaram a publicar há pouco tempo e que por isto podem ser vistos como novidade, renovação, algo diferente. Aí tenho de confessar algo que não pega bem para um jornalista e aspirante a crítico literário, como é o meu caso. Mas o fato é que eu não dou a menor atenção aos novos escritores que estão surgindo. Não porque julgue que são maus autores, longe disso. Penso até que estou perdendo coisas muito interessantes quando passo semanas inteiras mergulhado em livros obscuros do século passado. Mas não tenho o objetivo de me manter em dia com a produção editorial, como acontece com os jornalistas de redação, os que todo dia no jornal recebem exemplares para resenha, enviados pelas editoras. Cabe a estes dar conta ao leitor das novidades que surgem no mercado. Nada tenho contra isto, até porque sou um beneficiário direto, já que sou leitor dos cadernos literários da grande imprensa.

Só para dar uma idéia: nunca li nenhum livro de Milton Hatoum, João Paulo Cuenca, Marcelo Mirisola, Marçal Aquino, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Bernardo Carvalho, Luís Ruffato, Alberto Mussa… Estou citando autores surgidos nos últimos dez ou doze anos. Por que nunca os li? Porque acho que não são bons? Pelo contrário. Conheço pessoalmente alguns deles, e o que tenho ouvido sobre a obra de todos é, em geral, muito elogioso. Mas eu não pesquiso o momento atual da Literatura Brasileira; leio obras em torno de algo que estou escrevendo no momento. Como acabo de lançar uma antologia de contos fantásticos, nos últimos doze meses li centenas de contos de terror do século 19. Para escrever um livro sobre Ariano Suassuna, li mais algumas dúzias de livros relacionados. São leituras de trabalho, notas ao pé da página para meus próprios livros. Tem momentos na vida em que o sujeito só lê o que vai para seus próprios livros, não tem tempo de ler livros que não são seus.

O que faz escrever

(9 de outubro de2007)

Bráulio Tavares

Todo escritor se depara de vez em quando com a obcecada pergunta: “O que o faz escrever? Ou seja, qual a sua principal motivação enquanto escritor?” Se fizéssemos a pergunta equivalente a um camioneiro, a um alpinista, a um político, a um médico, talvez encontrássemos algumas das respostas que os escritores nos dão. Assim como um camioneiro, um escritor gosta de tentar reunir o máximo de duas coisas antagônicas: liberdade e responsabilidade. Ele gosta dos grandes espaços abertos (do espírito, no seu caso), do desafio constante de ir a lugares onde nunca foi, da excitação de rever lugares onde passou muito tempo atrás, e durante todo o tempo sentir-se responsável por algo muito valioso que não lhe pertence (uma tradição literária) mas da qual ele é, naquele instante do seu trabalho, o único defensor e guardião.

Assim como um alpinista, o escritor é seduzido pela possibilidade de ser O Maior, de atingir alturas que os seres humanos comuns nunca alcançaram. Ele sabe que quanto mais sobre mais seu raciocínio fica inebriado pelo ar rarefeito; que corre o risco de morrer de solidão e de frio; que um passo em falso pode precipitá-lo no abismo. Mas ele sempre acredita que pode dar mais um passo, ou seja, que pode escrever mais uma página.

Um político dirá que tem uma responsabilidade para com um grupo de pessoas que acreditam nele, acreditam na sua capacidade de fazer coisas importantes e de melhorar o mundo. Pouco importa se o mundo tem sido muito pouco melhorado, seja por políticos, seja por escritores. O importante é achar que, se há ainda muita coisa a ser feita, nada melhor do que alguém candidatar-se a fazê-la. Enfim: cada profissional tem razões múltiplas para fazer o que faz, mas ao que parece é apenas aos escritores que se faz essa pergunta. Parece que seguir qualquer profissão é algo óbvio, cuja necessidade não precisa ser explicada, mas ser escritor é uma missão misteriosa, desnecessária e que deve ser justificada tintim-por-tintim..

Talvez a melhor resposta, para qualquer profissão, seja: faço isto por que gosto, e porque é o que sei fazer melhor. Jogadores de futebol dizem isto o tempo inteiro: “Sou um sujeito de sorte, porque me pagam um bom salário para que eu faça a coisa que mais gosto”. Ninguém pergunta a um jogador por que motivo ele joga. Pressupomos que ele descobriu em si mesmo aquela habilidade, e que não viu motivo para se dedicar a outra coisa.

Com um escritor dá-se o mesmo. Ele descobriu muito cedo que 1) gosta daquilo; 2) sabe fazer aquilo bem; 3) vê naquilo a possibilidade de juntar duas coisas importantes, o útil e o agradável, ou seja, uma profissão que lhe dê sustento e uma atividade prazerosa que lhe dê algum tipo de realização pessoal. Escritores, no entanto, criam para si mesmo a imagem de alguém que sabe respostas secretas e bombásticas sobre as perguntas mais banais. Podem até saber, mas a resposta que melhor os explica é esta aqui acima, a mais banal de todas.

 

Referências literárias

(27 de Outubro de 2007)

Bráulio Tavares

“Quais as referências literárias da sua escrita?” A resposta que damos a esta pergunta revela mais sobre nossas fantasias do que sobre nossa prática. Vejo muitos poetas jovens sendo entrevistados, mercê da publicação de seu primeiro livro, e quando lhes perguntam suas referências literárias, ou os autores que os influenciaram, abrem um leque impressionante: “Fui muito influenciado por Dante, Homero, Camões, Garcia Lorca, Pablo Neruda, Rimbaud, Baudelaire, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral e Mário Quintana”. Eu tenho vontade de cair ajoelhado no chão e gritar: “Caramuru! Caramuru!”

Será possível que um único poeta consiga ter influência simultânea de tanta gente, e de gente tão diferente entre si? Duvido muito. Quando o jovem poeta confessa que leu esse pessoal está afirmando que sentiu-se emocionado e transformado pelo que leu, e que ao escrever tem a ambição íntima de causar nos seus futuros leitores o mesmo tipo de emoção e de transformação. É a isto que ele chama “influência” – o fato de que a leitura daqueles autores o modificou pra sempre.

A palavra influência nos induz a pensar em ascendência, poder. É a pressão de uma personalidade mais forte sobre uma mais fraca, dizendo-lhe o que dizer, e como. Mesmo ausente, mesmo manifestando-se apenas através da obra, a personalidade mais forte encontra pouca resistência naquele espírito geralmente jovem, ávido de experiências, ansioso para dizer algo mas sem saber o quê e como. O jovem leitor de Baudelaire torna-se um psicógrafo de Baudelaire, mesmo que o que há de Baudelaire em seus escritos seja imperceptível, ou seja redundante. O jovem cineasta defende-se das críticas com veemência: “Claro que a câmara está tremendo, e com a luz estourada! É Glauber!”

Não é Baudelaire e não é Glauber, mas não é esse o problema. O problema é que na obra também não se percebe o Fulano que fez aquilo. As influências estilísticas são as mais difíceis de domesticar, porque nos autores de origem aqueles recursos exprimiam uma visão das coisas, e na obra dos influenciados exprimem apenas a ausência de uma visão qualquer.

Quando admiramos algum aspecto técnico da obra de um artista, deveríamos nos dedicar a copiá-lo, a reproduzi-lo, até sermos capazes de dominá-lo. Mozart era capaz de imitar e parodiar qualquer compositor de sua época. Hunter Thompson decorava e datilografava textos inteiros de Hemingway, para absorver seu ritmo. A obra dos Beatles é um vasto panorama de técnicas alheias copiadas tintim por tintim. Uma influência é como um cavalo selvagem, que joga você no chão cada vez que você tentar obrigá-lo a ir para onde você quer. Mas ela pode ser domesticada, pode ser transformada em técnica, recurso, instrumento que utilizamos quando precisamos de uma voz narrativa específica, de um timbre sonoro, de um colorido, um tema. Deveríamos poder dizer algo como: “Dez por cento do que faço eu peço emprestado a Baudelaire, a Fellini, a Portinari”.

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MEU SONHO É VIVER DE LITERATURA: (Entrevista com Astier Basílio)

setembro 15, 2007 at 5:22 pm (Entrevistas)

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MEU SONHO É VIVER DE LITERATURA

Por Bruno Gaudêncio

  

Poeta, Jornalista cultural e Teatrólogo, Astier Basílio é Pernambucano, mas veio muito cedo residir em Campina Grande, – atualmente trabalha em João Pessoa nos Jornais da Paraíba, como repórter, e na revista Correio das Artes, (suplemento cultural do jornal A União), como crítico teatral. Destaque entre os autores da região suas produções estão espalhadas nos principais sites de arte e poesia do País.

 Em entrevista por E-mail diretamente de São Paulo, onde sua peça “Ariano”, parceria com Gustavo Paso, será montada depois de estar em cartaz no Rio de Janeiro, Astier, revelou que a sua poesia sempre se confundiu com a formação de sua própria identidade, que seu sonho atualmente é viver de Literatura, além de esclarecer certos aspectos de suas primeiras e ultimas publicações. Vejamos a entrevista:  

Você é filho de Tião Lima, importante poeta declamador. Nos fale um pouco de suas experiências com a Arte Poética?

A minha experiência com a poesia se confunde com a formação de minha identidade. Cresci ouvindo meu pai cantar viola pra mim e os meus irmãos. Era mágico ouví-lo tocar e cantar. Mamãe sempre cantava canções dos repentistas enquanto cuidava da casa. Meu tio, Manoel Basílio, sempre mandava folhetos de cordel pra nós. Comecei a fazer meus versos lá pelos 14 anos e sempre sonhei em ser cantador de viola profissional, coisa que não sou embora cante de improviso hoje como uma forma de divertimento e prazer.

Em uma recente entrevista sua você afirmou que nega determinadas autorias passadas suas. Ou seja, alguns livros seus publicados no inicio da carreira. Quais são as motivações para tal atitude?
 

Vou tentar esclarecer isso pra que não fiquem mal entendidos. Hoje em dia acredito que exista uma grande diferença entre publicar e escrever. Antes não pensava assim. Os meus primeiros livros retratavam meu conhecimento de mundo, minha emoção e refletiam a técnica que eu conhecia que era das escolas antigas, do romantismo, parnasianismo e do simbolismo. Não me arrependo de os ter publicado, mas não há que negar que foram exercícios, caminhos de um percurso que eu ainda estou empreendendo, com menos afoiteza e com mais equilíbrio e auto-crítica.

  

Poeta, jornalista, teatrólogo e agora também Critico de teatro na revista Correio das Artes. Você tem um desejo de se aventurar em outros gêneros Literários? Talvez o Romance?
 

Sim. O teatro me abriu as possibilidades da narrativa. Teatro é narrativa. Já estou com um trabalho na área de contos e enveredar pelo romance é um desafio que pretendo encarar em muito breve.  A prosa tem tramas e ritmos que estão para ser descobertos por mim. Espero que eu os encontre. Acho que tenho muito que dizer com a prosa.

Suas posições enquanto Articulista e Critico cultural são algumas vezes  Polêmicas. A que se deve esta tendência? Você acredita assim como Paulo  Francis que “todo intelectual deve ser livre e imprevisível”?

  

Acredito no seguinte: é preferível cometer um equívoco em nome de uma verdade particular a se omitir e ludibriar os leitores. É mais do que possível a quem exerce o ofício público do jornalismo opinativo cometer erros. Mas, eu tenho o compromisso ético de dizer a minha verdade e de expressar a minha opinião. Onde estiver um texto assinado com meu nome abaixo estará a minha verdade, passível de contestações e de críticas – claro, como toda e qualquer opinião. O que eu não posso fazer é ver uma peça, ler um livro, que são ruins e no momento em que for escrever sobre os mesmos trazer no meu texto dubiedades ou não deixar claro o que penso. É anti-ético com um leitor que talvez procure no jornal, que é um veículo público, uma referência. 

Você lançou um livro de poemas primeiramente através do seu blog (Mais Veneno do que paisagem). Em sua opinião este meio é a tendência do futuro?

Foi um processo muito rico, o de poder contar com a opinião de alguns amigos e de alguns leitores enquanto o livro foi sendo construído. Não foi bem um lançamento, mas uma espécie – mal comparando – de “big brother” literário. Foi muito bom mesmo. Os comentários eram valiosos. Mas, sou de “venetas”. Desativei os blogs. Este livro, “Eu Sou Mais Veneno Que Paisagem”, está muito mudado. Vários poemas foram alterados, muitos outros foram compostos. Não sei o que deu em mim, pois, de uns tempos pra cá, passei a valorizar a minha solidão, o exercício solitário da escrita. Isso também tem sua riqueza e seu valor.

 

 

Recentemente você lançou, juntamente com Gustavo Paso, no Rio de Janeiro uma peça sobre Ariano Suassuna. Podemos afirmar que esta sua obra é ou será  aporta aberta para sua ida ao Sul do país?

  

Acabei de ver a montagem da nova temporada da peça em São Paulo, de onde escrevo. Acabei de ver há poucas horas mesmo. Houve algumas mudanças no elenco, o diretor me solicitou algumas mexidas em trechos e cenas. Fiquei apreensivo quanto ao resultado, mas fui arrebatado pelo que aconteceu no palco do Centro Cultural Banco do Brasil, onde a peça está em cartaz. Bom, sou suspeito – aliás, suspeito não, culpado – pra falar. Não sei até que ponto o sucesso – acho que não é falsa modéstia dizer isso, até porque muito dele se deve à riqueza do universo ficcional de Ariano Suassuna – dessa peça poderia estar vinculado a uma ida minha ao Sul, como você fala, sei sim que é uma porta aberta para muitas outras, trabalhos vários. A peça “Ariano” sela definitivamente meu caminho no teatro. Já estou trabalhando em outro projeto com teatro, do qual não posso revelar muito agora, mas com perspectiva de montagem também no Rio de Janeiro. O que eu mais sonho – e é até mais importante do que uma transferência geográfica – é poder viver de literatura. Seria a minha completa realização. Estou lutando pra isso.

  

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