O PASSAGEIRO

julho 13, 2008 at 10:14 pm (Contos)

SEMPRE FOI TRISTE o menino Anselmo. Andava abatido com seu rostinho pálido olhando apenas o chão. Um sorriso? Quase nunca dava. Não tinha apetite algum, por isso era magrinho como um espeto. Não possuía nenhuma disposição para brincar com outros garotos de sua idade na rua ou na escola. Era introspectivo, solitário e extramente ausente. Seu olhar era sempre afastado, cheio de uma atmosfera de morte, cujas pálpebras transpareciam um sono infinito e sua boca um riso tristemente infeliz.

Quando estava prestes há completar quatorze anos, Anselmo decidiu de maneira drástica acabar com sua própria vida. Para muitos parecerá estranho tal pensamento para um garoto, mas para Anselmo era a vitória necessária que ele desejava no mundo. Não agüentava mais a sua trajetória existencial marcada pela tristeza, pela angústia e pela depressão, em uma cidadezinha infeliz do interior do mais interior do Brasil; não suportava a presença tosca e insensível de sua mãe, sempre ausente de carinho e amor, com sua ignorância e grosseria absurda em palavras e ações, e de seu padrasto, um traste que não fazia outra coisa a não ser beber, beber, beber.

Todavia, apesar de seguro de sua atitude o menino Anselmo possuía várias dúvidas quanto à forma de seu suicídio. Resolveu pesquisar na velha biblioteca municipal, que ficava em sua rua. Lá encontrou em alguns livros e enciclopédias alguns dados para ele muito relevantes. Sempre teve grande interesse pelo tema, sobre as maneiras e principalmente sobre os sujeitos que tiveram a coragem de ser matar. Tinha especial afinidade pela história de vida do ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas, não por suas ações de governo, como seu falecido avô tinha, mas sim por sua coragem diante da morte naquele julho de 1954. Outro personagem na qual gostava bastante, porém escondia de todos na escola era o sanguinário Adolf Hitler. Achava fabulosa toda a história do imperador nazista e de seu fim tão “digno” durante o termino da segunda guerra mundial.

Começou a avaliar as maneiras mais interessantes que poderia dá cabo da própria vida em sua pequena cidade. Entretanto, algo que não escondia nem de si mesmo era o terrível medo que nutria da própria dor; sabia que deveria sentir dor, talvez muita dor, daquelas mais insuportáveis e temíveis, já que ia se matar, porém, queria a qualquer custo encontrar uma maneira mais rápida e se possível menos dolorosa para o seu suicídio.

Começou então a escrever em um velho caderninho o universo de possibilidades para o seu ato destruidor. Depois de duas semanas de pesquisa foi colocando em cada folha do caderno as possíveis formas de se matar. Não achava interessante ingerir veneno, pois ele sabia que “doía muito por dentro”. Não suportaria morrer daquela forma de tão inigualável sofrimento. Aconteceu há algum tempo atrás com o cachorrinho do seu vizinho, e ele viu assustado toda a dor do bichano. “Ele cuspia muito sangue e virava os olhos”, escreveu no velho caderno o garoto. Revólver – “nem pensar!”, foi enfático o menino, “pois faria barulho”, e, além disso, em sua casa não havia armas de fogo, e seria um imenso trabalho para conseguir pela vizinhança. Pular de um edifício? – pensou; “de maneira nenhuma”, em sua cidadezinha os prédios não passavam de dois andares, “eu poderia sobreviver e ser motivo de chacota de todos durante meses, talvez anos”. Afogado? Pensava o garoto, não. Na época suportava-se com muita dificuldade uma estiagem das brabas, e o Rio que abastecia o município estava demasiadamente seco, e “ açude cheio só a léguas de distância”.

Passado já dois meses de seu aniversario, mais angustiado e triste do que nunca, o menino Anselmo decidiu rapidamente o seu fim: Deveria morrer esmagado. Isso mesmo esmagado. Era rápido e todos pensariam que fora um acidente. Além disso, ele gostaria que seu corpo se desestruturasse, se quebrasse em pedaços; não agüentava mais ver sua palidez e magreza no espelho, de sentir o sorriso irônico de todos de sua cidade a rirem de sua feiúra. Anselmo não gostava de si mesmo e ele percebia claramente que todos também não gostavam, inclusive sua família, em especial sua mãe.

A mais ou menos um quilômetro da sua casa passava diariamente às nove horas da noite um trem. Era uma grande Maria Fumaça, que com seu som estridente assuntava a todos da região; não trazia passageiros e sim várias cargas de algodão para a capital. No dia marcado lá foi Anselmo para o seu destino de morte. Era uma quarta-feira, fria e calma, com nuvens ausentes e uma lua linda, clara e redonda. Saiu devagar pelos fundos da casa, sem que sua mãe notasse e com apenas a roupa do corpo. Seu padrasto dormia mais uma vez bêbado no sofá.

Lá chegando ao lugar marcado, cerca de meia hora depois de passear pelas avenidas de arvores secas e pedras vermelhas do sertão, Anselmo sentara em um lugar estratégico onde com certeza o trem não daria tempo de frear, caso o foguista o visse, em uma curva ìmgrime, ao lado de uma pequena serra, conhecida por Serra Vermelha. E chegou uma hora antes do tempo, caso o trem se adiantasse. Sentou paciente, sentindo um pouco de frio, escutou ruídos nos matos, pareciam vacas Deu noves horas, horário no qual o trem sempre passava naquele lugar. E o trem não passou. Dez horas. E o trem não passou. Anselmo decidiu esperar a hora em que o trem viria, seja ela qual fosse. Continuou deitado, com o frio no seu corpo que vinha entre os trilhos feitos de aço, as costelas pareciam já congeladas. Decidiu dormir, sonhando com a vinda triunfal da máquina que lhe levaria para o céu. No outro dia o trem também não passou. E ele continuava lá, persistente, deitado, agora com uma fome e uma dor dilacerante que parecia comer todo o seu corpinho. Anselmo estava determinado por um próprio fim trágico. Seria uma vergonha voltar para sua cidade e sua família. Tinha que morrer a todo custo. Nem que seja de fome e de frio.

Passara uma semana, e o trem não chegou.

Por conta da sede e da fome o menino Anselmo fora encontrado morto deitado nos trilhos, assim como desejara nos últimos momentos de consciência. Seu rosto estava sorrindo como nunca sorriu. Os pássaros brincavam ao ser redor, quando um jovem desconhecido encontrou seu corpo caído e completamente nu, e no fundo atrás do ângulo de visão do menino a placa que dizia: “estão encerradas as atividades ferroviárias nesta região”, e desde deste dia o trem nunca mais passou próximo à cidade…

PRE

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2 Comentários

  1. João Aguiar said,

    Anselmo… às vezes, ficava na escola observando os outros garotos. Eram mais fortes, mais bonitos, mais apreciados pelos olhares das garotas… eram, sobretudo, mais que eu… isto me causava verdadeira agonia. Pensava em quanto minha pequenez se agigantava todos os dias. E, quase sempre no cair da tarde, conjecturava o quanto eu poderia ser mais forte, mais bonito, mais atraente. E sempre, obtinha a mesma resposta; NUNCA… foi aí que descobri – SOZINHO – que a vida é muito mais que a força, que a beleza e que a sedução… descobri que a vida é a superação das adversidades e a instauração de novos limites. Descobri, também, outras pessoas que comungavam de minha pequenez e, outras tantas, que eram – verdadeiramente – gigantes. O que me aconteceu? Descobri belas pessoas. Convivi com almas nobres. Amei lindas mulheres. Fui amado por pessoas que tinham na pele, a sensibilidade do espírito. O trem? Nunca precisei de um. A morte? Nunca me passou pela cabeça. Talvez tenhamos, lá dentro de nossos corações, um pouquinho de Anselmo. Talvez queiramos, alguns dias de nossa vida, um trem desgovernado em nossa direção. Talvez… o certo, isto sim, é que a vida é muito, muito mais que nossas impossibilidades. E, por vezes, deixamos esta centelha apagar-se sem antes admirarmos a bela luz que dela se propaga…

  2. juliana lira said,

    angustiante e inspirador

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