A carne dos sentimentos.

dezembro 21, 2007 at 10:08 pm (Contos)

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Há tempos as dúvidas não reinavam tão profundamente em meu espírito. A dor das incertezas, ou das falsas certezas, desanima-me. Um profundo oco habita o meu peito como se uma pedra de lágrimas tentasse sair dos meus olhos vadios, como se um céu escuro vivesse eternamente nas minhas lembranças perpétuas, em um formato de montanhas longínquas. Precipícios de palavras serias. Princípios de um subterrâneo vazio. Um vazio, um vazio imenso que não há tamanho. Nada me faz existir além das minhas vergonhas, além da carne dos meus sentimentos fadigados por tantos desesperos contínuos e por uma variedade incrível de radicalismo imbecil. Estas variedades me comem. Mastigam-me todo, a cada suor e lágrimas. Por que existir? Sendo a existência um fato tão incerto e sem sentido. Que Deus? Nunca vi a cara de Deus, se Deus existisse posso jurar que ele não passaria de uma entidade fabularia cuja ideologia estaria centrada nos pensamentos de um mero ateu, pois seria indigno, penso eu, este ser superior, criador de seres fracassados como eu, de acreditar em um ser superior a ele próprio. Há tempos minha cabeça revoluciona certos pássaros soltos em livros malvados. A literatura moderna não faz mais do que produzir loucos desesperados e revoltados como eu. Dostoievski, Wilde, Kafka, Huxley, Woolf, Pessoa, Joyce. Estes malditos panfletários do demônio não fazem outra coisa a não ser desequilibrar a alma de muitos sujeitos. Destruir espíritos. Eles em nada acreditam, são maquinas de cepticismos, niilismos e barbárie. Não há civilização, Deus, cidade, Amor ou tecnologia que me faça sorrir para o futuro, cantar neste presente, ou comemorar os importantes fatos do passado. Tudo me desqualifica. Tudo é nada. É absurdo, é poema trágico de uma culta melancolia, tudo é um conto, tudo é dinheiro, tudo é história, nada é história. Tudo culpa do meu pai, que me fez acreditar nestes malditos, nestes seres superiores que me distruiram: Proust, Hemigway, Pound, Sábato, isso só para citar os literatos. E os filósofos e sociólogos? Schopenhauer, Nietsche, Freud, Jung, Marx, Foucault, Deleuze. Destruidores de fé. De almas, máquinas de construção de seres infelizes. Tudo culpa de meu pai, e sua biblioteca grandiosa e única. Cada volume me escondia a escuridão eterna entres as estantes abarrotados de ódio à humanidade. Pai… Devo ser um louco em pensar assim, em me desesperar desta forma, em gritar o teu nome, e de ti culpar por toda a desgraça que me toma agora. Devo queimar-me juntamente com seus filhos pútridos, eles pedem, imploram, em cinto dentro do meu juízo louco, no meu corpo destroçado, que eles querem não existir, pelo bem da humanidade, e de mim.

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3 Comentários

  1. João Aguiar said,

    A ignorância é um bálsamo… talvez porque ela nos permita, vez por outra, acreditar em fábulas, crer em contos de fadas ou em prodígios divinos. A ignorância é paz… talvez porque nos permita desfrutar de uma conversa sem métrica com o cara do botequim desprovido de qualquer cabedal teórico sobre aquilo do que se fala. A ignorância é loucura… talvez porque nos faça tomar de assalto o coração da mulher de nosso melhor amigo mesmo sabendo que pode ser este nosso último ato. Enfim, a ignorância é uma dádiva divina. O conhecimento – este pecado original – só veio, quando muito, nos roubar o sono. Nos fazer descrer do amanhã. Nos atormentar com dúvidas e releituras sobre tudo. Sim… o conhecimento, assim como narra Gênesis, tem um preço… um alto preço; A SOLIDÃO, O CETICISMO, A DEPRESSÃO, A LOUCURA… preço muito alto e deveras insuficiente para nos fazer perder o que a vida nos oferece; A COMUNHÃO, A FÉ, A ALEGRIA, O AMOR… creio que possamos, vez por outra, sermos “ignorantes felizes” e nos permitirmos sonhar, crer, amar, viver, sentir e compreender as minúcias da alma humana. Eu ainda sou este ignorante. Ainda creio em prodígios. Ainda falo com minha alma – que cá pra nós, ainda não deixei filósofo ou pensador nenhum apartar de mim. Ainda admiro o cair da tarde, mesmo que com nostalgia. Ainda acredito em coisas incríveis, talvez porque ainda acredite, no fundo no fundo, nesta tão mal fadada RAÇA HUMANA. Os livros? Tenho-os nas prateleiras, nunca no coração ou na alma… A fé?… aprendi a resgatá-la todos os dias… porque viver é assim, dia após outro… devagar, paulatinamente, como a respiração de um moribundo. Sem pressa de sair ou de chegar. E VIVA A VIDA BRUNO… E VIVA O AMOR… E VIVA, SIMPLESMENTE…

  2. brgaudencio said,

    João

    Suas palavras foram brilhantes, repletas de sensibilidade e sabedoria, todavia devo comunicar-lhe que o texto por mim escrito acima é apenas um conto, portanto uma ficção. O ser que fala na narrativa é mero personagem, uma invenção da carne de meus sentimentos. Evidente que algumas de suas reflexões também são minhas, ou foram minhas, porém, posso te afirmar categoricamente que minha alma, as vezes é poluida por esses infelizes, porem meu coração é banhado por uma linda espuma de amor e carinho a humanidade. A Minha feliz ilusão, aquilo que me faz sorrir e sentir a existencia é ainda a arte, não a fé em um Deus, nem na politica, e sim a arte. È ela que me faz sentir os sorrisos da amada, escutar os cantos dos passaros, abrassar a minha mãe com todo prazer, declamar poemas em prantos de felicidade; é a arte, sempre a arte que me faz crer na arte de viver.
    obriagado joão pelas belicimas palavras…

  3. João Aguiar said,

    A vida – realmente – imita a arte não achas? Pois que esse seu personagem ficcional poderia, sem sombra de dúvidas, lembrar tempos outrora passados de um certo Bruno que conheci – risos… mas, o amor… este sentimento invisível e intenso tem este dom de modificar, aperfeiçoar e, em última instância, recriar… e fico feliz por isto, muito feliz mesmo… espero que outros vejam, também, a beleza que sua escrita transmite e a magnitude de suas palavras, sempre tão poéticas e impregnadas de sensibilidade e paixão… um grande abraço…

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