A Casa das Horas

novembro 3, 2007 at 6:50 pm (Contos)

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Era uma ilha de tempo e misericórdia; seu corpo era cercado por horas de todos os lados. As paredes antes límpidas em sua juventude, agora eram degradadas por lembranças pontuadas e partidas de morte e saudade. A solidão daquele que espera o fim e nada mais. O crepúsculo na porta. A dor em cada ponteiro parado. O espírito eterno do nada estava infiltrado na carne dos seus sentimentos. A sina da solidão, da desventura, do desespero. Os passos precisos no corredor de cadáveres sem corpo. Na janela, uma luz refletia os relógios, num mar de horas marcadas.

Otacílio faleceu aos cem anos de idade. Se antes era um homem adorado por todos, graças ao seu inigualável senso de humor, na velhice tornara-se um homem ríspido, ranzinza e solitário. Não admitia ninguém como amigo depois da morte da sua esposa, dona Nanica, apenas cumprimentava ligeiramente ao longe aqueles que um dia foram de sua inigualável estima e amor. Não foram poucas as tentativas de reaproximação dos seus ex-amigos, mas todas frustradas, a porta sempre estava fechada, em um silencio dolorido do velho deitado, muitas vezes chorando, e foi assim durante décadas, quase ninguém mais via o seu Otacílio, aquele simpático velhinho contador de piadas e causos, a não ser ás vezes quando ia comprar alguns mantimentos no mercadinho, isso quando não mandava o filho menor do vizinho comprar, este, o único a relacionar com ele.

Durante cerca de trinta anos ele acompanhou todas as mortes daqueles cuja amava, mesmo ao longe, colocando em homenagem a cada alma vencida pelo tempo e pelo destino assassino, um relógio marcando o fim de cada um. Parentes e amigos com seus retratos e seus respectivos relógios, com nomes e datas do fim, enfeitavam a Casa das Horas, como ficou conhecida a residência em toda a cidade. O nome fora dado por um literato do município, seu Abílio, sobrinho do mesmo.

Quando Otacílio morreu sua casa continha cerca de 80 relógios, todas as paredes eram desenhadas por ponteiros, marcando cada um as diferentes horas do FIM dos seus queridos amigos e familiares, escritas com o seu próprio punho, com sua letra vacilante, o maior de todos e o mais belo era justamente o da sua esposa, Dona Nanica, marcava 12h47min e em baixo a data fatídica de seu falecimento: 13 de julho de 1978. Dona Nanica foi sua musa e o seu sentido de viver. Pequenina, como o seu apelido já dizia, ela encantava a todos da cidade com o seu jeitinho risonho e feliz, sempre com um sorriso e um abraço para as visitas. Depois de morto, a noticia de tal casa saiu em todos os jornais e telejornais do país, muitos perguntavam: como poderia um individuo produzir tal cenário escabroso?. Cultuar a morte daquela maneira? Isolar-se nela e no sofrimento. Na capital vários intelectuais na ocasião pensaram inclusive comprar dos possíveis herdeiros a casa, e transforma-la numa espécie de museu do tempo e/ou da morte. Psicólogos e Antropólogos tentavam explicar tal atitude.

Sozinho, Otacílio esperava o seu fim com a angústia daqueles que a anos não viam mais sentido na existência, mergulhado nas lembranças dos entes queridos e ferido pelas conseqüências do tempo. Não via a bendita hora de marcar o seu próprio relógio e suspirar definitivamente para a eternidade e infinito, onde o tempo não carregasse a morte em seus braços de pedra. Morreu sorrindo, pois o último relógio da casa das horas foi justamente o seu. Otacílio Guilherme Pereira falecido às 15h35min, no dia: 23 de Março de 2008. Seu ultimo gesto foi seu ultimo sonho.

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1 Comentário

  1. brgaudencio said,

    relendo este conto eu percebo o quanto ele foi mau e mal escrito.
    escrever é uma tortura cotidiana para mim
    e para qualquer escritor
    principalmente para aquele que gosta de espressar

    escrever um conto é como enterrar uma faca no estômago
    ou arrancar um pequeno vidro entre a unha e a carne.

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