NOITE DE AGONIA

julho 4, 2007 at 3:36 pm (Contos)

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EM UMA NOITE CLARA, a lua dispensava as lamparinas e candelabros da casa. Meninos e animais estavam assustados com tal luminosidade excessiva. Era inicio de noite. O gado mugia desesperado. Cachorros rosnavam alucinados. Bodes nas serras berravam e pareciam que pediam ajuda em forma de um coral de lamurias. Galinhas, que todos os dias adormeciam em seus poleiros logo cedo, não conseguiam subir cacarejando suplicas indecifráveis. Tudo parecia descontrolado. Cercado de mistério e de absurdo. A lua grande e luminosa.

Aldo, meu irmão mais novo, que sofria dos nervos, percebendo os sons e a luz estranha, correu rápido para cama. Percebíamos claramente que ele estava chorando no quarto. Papai logo depois mandou-nos dormir também. Deitamos todos. Mas ninguém conseguia pregar o olho. Os sons desesperados dos animais não deixavam. A luminosidade excessiva da lua não deixava. Os choros repentinos de Aldo no quarto não deixavam. Papai vagava nos corredores não sabendo o que fazer. Deitou novamente e escutei quando ele disse à mamãe que o melhor era esperar ao amanhecer, sua saúde não deixaria reparar direito o que estava acontecendo. Há tempos papai sofria com algumas feridas nas pernas.     

O dia nascia quando pouco a pouco fomos nos levantando, não havia mais nenhum som dos animais, muito menos a claridade da lua. Parecia que todos os bichos descansavam quietos depois de uma noite de agonia. O sol se mostrava heróico e luminoso. Aldo até que fim ressonava no quarto.              

A primeira a se levantar foi mamãe que imediatamente se dirigiu ao banheiro, logo depois papai saiu da cama com o seu arrastando característico de sandálias mal calçadas nos pés, abrindo abruptamente a janela central da frente da casa. Um grito forte saiu da sua garganta assustando a todos nós. Inclusive Aldo que estava dormindo. Corremos para socorrer papai, pensando que ele havia caído na calçada ou coisa assim. Mas não, o que víamos não poderíamos compreender, todos os animais estavam mortos, tudo estava sujo de sangue, as calçadas, os terreiros, o curral, as árvores e as pedras. Não havia um só lugar fora da casa sem um animal morto. Cachorros, galinhas, bois, vacas e bodes. Aldo saiu gritando mais desesperado do que nunca. Gritava alto em nossos ouvidos, dizia palavras que ninguém entendia e chorava dando muros nas portas e janelas. Tivemos que segurá-lo e trancá-lo no quarto, onde lá quebrou tudo. Papai exigiu que juntássemos nossas coisas, pois deveríamos sair imediatamente daquela casa. Ninguém nos explicava o que havia acontecido.  

Amontoamos nossos pertences na velha carroça no terreiro e já estávamos saindo quando escutei baixinho Aldo dizer algo olhando fixamente para o céu: “na cidade grande, os animais desta vez iriam morrer dentro de nossa casa”. Perguntei que animais eram esses. Ele respondeu sério: “seremos nós mesmos, escravos de grades e portões”. Foi a única coisa sensata que Aldo falou em sua vida.

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