Frases de Amor e Amizade.

janeiro 21, 2008 at 3:28 pm (Relicário de Frases)

 

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AMOR

 

Amar é a coisa mais alegre. Amar é a coisa mais triste. Amar é a coisa que mais quero.

Adélia Prado (1935-) Poeta Mineira (Poesia Reunida).

 

O verdadeiro amor é aquele que nos abrange e nos vence como um vício.

Antonio Maria (1921-1964) Compositor e Jornalista Pernambucano (Com Vocês Antonio Maria).

O amor que se propala é apenas uma miserável história; o amor que se esconde foi um admirável poema.

Artur Azevedo (1855-1908) Dramaturgo e Jornalista Maranhense (Os melhores contos de Artur Azevedo).

 

Amar é dar algo que a gente não sabia que tinha a uma pessoa que não sabia que precisava.

Bráulio Tavares (1950-) Escritor e Compositor Paraibano (Extraído em Artigo no Jornal da Paraíba).

 

O amor é breve e incerto como a vida da rosa.

Cecília Meirelles (1901-1964) Poeta e Cronista Carioca (Poesias Completas).

Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?

Clarice Lispector (1925-1977) escritora Ucraniana radicada no Brasil (A Descoberta do Mundo).

 

Amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa.

Guimarães Rosa (1908-1967) Escritor mineiro (Ave, palavra).

O Amor é sede depois de se ter bebido.

Guimarães Rosa (1908-1967) Escritor Mineiro (Grande Sertão: Veredas).

 

O amor? Pássaro que põe ovos de ferro.

Guimarães Rosa (1908-1967) Escritor Mineiro (Grande Sertão: Veredas).

 

O amor não faz as pessoas. São as pessoas que fazem o amor.

Marina Colasanti (1937-) Escritora e jornalista Egípcia radicada no Brasil (E Por Falar em Amor).

 

Amor-chama, e, depois, fumaça…

Manuel Bandeira (1886-1968) Poeta Pernambucano (A Cinza das Horas).

 

A gente sabe que o amor existe graças aos crimes passionais que a imprensa registra diariamente.

Mario da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta Paulista (Desaforismos).

 

Senhora, eu vos amo tanto / que até por vosso marido / me dá um certo quebranto.

Mário Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Esconderijo do Tempo).

 

A embriaguez do amor como a do vinho impele a iguais desatinos.

Marquês de Maricá (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas Reflexões e Pensamentos).

 

Esta vida é um punhal com dois gumes fatais: não amar, é sofrer; amar, é sofrer mais!

Menotti Del Picchia (1892-1988) Poeta e Escritor Paulista (Juca Mulato).

 

Por mais puro que seja o amor presente, / emerge o sonho de um amor distante, / por nossa tentação inconseqüente/ de amar e não amar no mesmo instante.

Miguel Reale (1910-2006) Jurista e Filósofo Paulista (Sonetos da Verdade).

 

Amar é uma conquista de reciprocidades trabalhadas, é o olhar de um encontrando-se com o olhar do outro numa visão-de-mundo que os transcende em perspectivas continuamente e projetadas em comum.

Moacyr Fêlix (1926-2005) Poeta Carioca (Prefácio do Livro: Ênio Silveira: Arquiteto das Liberdades).

 

Todo amor é eterno. Se não é eterno, não é amor.

Nelson Rodrigues (1912-1980) Dramaturgo e Jornalista Pernambucano (Flor da Obsessão).

Amamos as pessoas não pela beleza que existe nelas, mas pela beleza nossa que nelas aparece refletida.

Rubem Alves (1933-) Psicanalista e Escritor Mineiro (O Retorno e o Terno).

Contigo aprendi que o amor reparte mas sobretudo acrescenta.

Thiago de Mello (1926-) Poeta Amazonense (A Festa Aberta).

AMIZADE

 

Entre os indivíduos, não há nada mais relativo do que a amizade. Raramente existe. E quando existe, desaparece logo diante do interesse.

Alcântara Machado (1901-1935) Escritor e Jornalista Paulista (Prosa preparatória & Cavaquinho e saxofone).

 

Amo os meus amigos por causa das minhas imperfeições.

Ascendino Leite (1915-) Escritor Paraibano (Passado Indefinido).

Eu olho para os meus amigos com a mesma naturalidade com que vejo meu rosto no espelho.

Ascendino Leite (1915-) Escritor Paraibano (O Lucro de Deus).

Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada.

Carlos Drummund de Andrade (1902-1987) Poeta e Cronista Mineiro (O Avesso das Coisas).

 

A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas.

Carlos Drummund de Andrade (1902-1987) Poeta e Cronista Mineiro (O Avesso das Coisas).

 

Cada amigo é um inimigo intimo.

Carlos Nejar (1939-) Poeta Gaúcho (O Túnel Perfeito)

 

Só tenho três amigos/ Meu eco, minha imagem, / Minha sombra.

Cassiano Ricardo (1895-1974) Poeta Paulista (O Sangue das Horas).

Lembre-se de que os amigos deve-se fazer como os bancos: recadastrar periodicamente: as pessoas mudam, e às vezes para pior.

Danuza Leão (1933-) Jornalista e Escritora Capixaba (Na Sala com Danuza).

 

Quem possui um amigo pode dizer que possui duas almas.

Graça Aranha (1868-1931) Escritor e Diplomata Maranhense (Extraído do Livro Coletânea de Pensamentos da Sabedoria Universal, de José da Silva Martins).

 

A verdadeira amizade é tão preciosa, que só a um reduzido número de pessoas a devemos conceder.

José da Silva Martins (1898-Coletânea Universal da Sabedoria Universal).

 

A amizade verdadeira é a afeição desinteressada.

Josué Montello (1917-2006) Escritor Maranhense (Diário do Entardecer).

 

Só os amigos atraiçoam.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta Paulista (Desaforismos).

 

Certos amigos nos dispensam de ter inimigo.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta Paulista (O Fantasma do Castelo).

 

Que melancólico é o encontro de velhos bons amigos que há anos não se vêem e que, agora, nada mais tem a dizer um ao outro.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta Paulista (A Cartola Mágica).

 

Porque será que a gente vive chorando os amigos mortos e não agüenta os que continuam vivos?

Mário Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Caderno H)

A aquisição de um amigo leal e constante não é difícil, quando o buscamos na raça dos cães.

Marquês de Maricá (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas Reflexões e Pensamentos).

 

A amizade de alguns é mais funesta e danosa do que o ódio ou aversão.

Marquês de Maricá (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas Reflexões e Pensamentos).

 

A coisa mais comum do mundo é confundir convivência com amizade.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos)

 

O ruim das amizades eternas são os rompimentos definitivos.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos).

 

Amigos profundos só temos na nossa geração.

Paulo Francis (1930-1997) Escritor e Jornalista Carioca (Waaal: o Dicionário da Corte de Paulo Francis).

Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga.

Rubem Alves (1933-) Escritor e Psicanalista Mineiro (O Retorno e o Terno)

 

A amizade é coisa que só cresce da solidão: ela é o encontro de duas solidões.

Rubem Alves (1933-) Escritor e Psicanalista Mineiro (As Cores do Crepúsculo)

 

O verdadeiro amigo não é solidário na desgraça, mas o que suporta o seu sucesso.

Vera Loyola (1947-) Socialaite Carioca (Extraído do Livro: Inveja, Mal Secreto, de Zuenir Ventura).

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Saber Noturno, Vidas Errantes.

janeiro 20, 2008 at 2:39 pm (Ensaios)

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“Saber noturno: uma Antologia de Vidas Errantes” é uma Tese de Doutorado apresentado em 2004 na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pelo historiador paranaense Tony Hara¹. A pesquisa, que teve como orientadora a professora Doutora Margareth Rago, é uma narrativa histórica enredada em torno de seis personagens que se rebelaram em diferentes épocas e lugares contra a lógica do pensamento sistemático – pensamento este, que separou as noções de arte, vida e conhecimento. São estes os personagens : os filósofos Frederich Nietzsche e Walter Benjamim, os poetas Charles Baudalaire, Cruz e Sousa e Paulo Leminski, além do cronista João do Rio.

Segundo Tony Hara estes personagens conheceram o subterrâneo, o lado terrível e noturno da vida, recalcado pelos ideais iluministas, e elaboraram novas possibilidades de existência.

O texto foi constituído em torno de varias definições que foram minuciosamente camuflados em uma narrativa histórica, que se assemelha muitas vezes a uma narrativa literária. E é por esta razão que a finalidade deste artigo é compreender os principais conceitos utilizados por Tony Hara, bem como indica a sustentação teórica e metodológica da pesquisa.

Tony Hara desenvolve uma narrativa cujo os personagens são apresentados através dos dados biográficos e seus respectivos pensamentos filosóficos e artísticos. O autor da pesquisa descreve e interpreta as idéias de cada pensador selecionado, e os definiu como sendo-os Pensadores noturnos. Seres “que estimulam um pensamento bêbado (…), que solicitam as vertigens e repudiam o terreno seguro das verdades instituídas e celebradas pela tradição religiosa ou por racionalidade mórbida guiada pela flecha do progresso.”²

Nietzsche, Benjamim, Baudelaire, Cruz e Sousa, Paulo Leminski e João do Rio, são personagens noturnos por praticarem um estilo de vida que foge da normalidade. Por pensarem e defenderem modelos alternativos de existência. A noite representaria este modelo, esta nova possibilidade de existência. Para estes pensadores “todo ser vivo precisa não de luz para ver, como também da escuridão para sonhar”³

A noite é o lugar dos vícios; é o território do difuso, dos contornos imprecisos, dos sentidos inquietos e aguçados. A noite foi a arma necessária para os espíritos e para os corpos destas vidas errantes. Errantes, por acreditarem que a vida deve ser sentida intensamente; errantes por acreditarem que o erro é uma necessidade sempre presente a existência. E é justamente na noite, palco para as existências errantes, que estes pensadores noturnos desenvolveram o que Tony Hara chama de Saber Noturno.

O saber Noturno é caracterizado como sendo um saber que não tenta romper os vínculos entre arte, a vida e o conhecimento, e aproxima a noção de ciência, com a noção de poesia. Ou seja, o “sábio noturno” é justamente aquele que não ver limites entre o conhecimento cientifico e a arte, e que confunde a sua própria vida, com sua obra intelectual artística.

É importante pensarmos que estas junções vão de encontro com as imposições do chamado sistemático da modernidade. Um pensamento racional, organizado, cientifico que entende que há limites entre a arte e a ciência. Os pensadores noturnos são aqueles que se rebelaram contra esta lógica, tão insensível e de certo modo desumano. Para eles a existência só se justifica como fenômenos estéticos.

Segundo o filosofo francês Alain Touraine “a concepção clássica da modernidade é antes de tudo a construção de uma imagem racionalista do mundo”4 cujo “o ser humano não é mais uma criatura feita por Deus à sua imagem, mas um ator social definido por papeis, isto é, pelas condutas ligadas a status e que devem contribuir para o bm funcionamento do sistema social”5

De acordo com Tony Hara o saber noturno é característico de um corpo que sofre porque quer se expandir; um corpo que luta em sua individualidade contra o poder disciplinar, que aprisiona e constitui os sujeitos. Nesta ótica, percebemos claramente a influencia foucaultiana na obra.

Para Foucault “o corpo esta no centro do dispositivo do poder” e é efeito “a peça principal do cerimonial do castigo público”6 ao longo da história. O pensador noturno é um corpo que se expande,e que sofre, ano pelas punições do Estado, mas pela angustia em ver o mundo constituído de seres de “corpos dóceis” ou seja, sujeitos economicamente produtivos, mas politicamente submissos.

O pensador noturno experimenta seus corpos no arrebatamento da embriaguez. Daí a famosa frase de Baudelaire: “embriagar-se, sem cessar é preciso, mas de quê?”7 Para compreender esta visão Hedonista construída nestes seis pensadores, o autor da tese, Tony Hara, foi buscar nas reflexões do filosofo francês Michel Onfray, que formulou na década de 1990, no século XX, a sua famosa Teoria do Hedonismo ético, em que ele defende o direito do ser humano ao prazer.

O prazer é a busca do poeta, do filosofo, do pensador, que se sente feliz em interagir com os desejos da noite e os seus seres marginais, ou simplesmente sozinho refletindo sobre a vida e sobre si mesmo.

Portanto, o que compreendemos desta pesquisa é que ela é uma narrativa histórica enquadrada no campo da nova história cultural, pois de acordo com Peter Burke “o terreno comum dos historiadores culturais pode ser descrito como a preocupação com o símbolo e suas interpretações”8. E é justamente o que busca Tony Hara ao lançar-se em analogias com as “formas de pensar” o mundo de determinados pensadores–artistas, uma simbologia do pensamento moderno, de uma filosofia anti-iluminista.

O que Tony Hara realiza em sua tese de Doutorado é na verdade uma história do pensamento alternativo, o que ele chamou de “saber noturno”, se apropriando de conceitos e discursos de muitos pensadores. Principalmente dos filósofos franceses Michel de Foucault (formas de exclusão, usos do corpo) e Michel Onfray (Hedonismo e rebeldia), além dos seus personagens enredados, com destaque para Nietzsche Benjamim.

 

 

Referencias Bibliográficas

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Florianópolis; Ed. Da UFSC, 1988.

BURKE, Peter. O que é História cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

DOSSE, François. Foucault e a desconstrução da história. In.: História do Estruturalismo. Volume 2; O canto do cisne de 1967 aos nossos dias. São Paulo: UNICAMP, 1994.

HARA, Tony. Saber noturno: Uma antologia de vidas errantes. Campinas. Tese de Doutorado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, 2004.

TOURAINE, Alain, critica da modernidade. Rio de Janeiro: vozes, 1997.

 

Notas:

1 Professor titular da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

2 HARA, Tony. Saber noturno: Uma antologia de vidas errantes. Campinas. Tese de Doutorado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, 2004. (p. 12)

4 TOURAINE, Alain, critica da modernidade. Rio de Janeiro: vozes, 1997.

3 Idem (p. 23)

5 Idem

6 DOSSE, François. Foucault e a desconstrução da história. In.: História do Estruturalismo. Volume 2; O canto do cisne de 1967 aos nossos dias. São Paulo: UNICAMP, 1994. (p. 286)

7 BAUDELAIRE. Charles. Pequenos poemas em prosa. Florianópolis; Ed. Da UFSC, 1988. (p. 37)

8 BURKE, Peter. O que é História cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005. (p. 10)

 

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Frases sobre Livros e Leituras.

janeiro 15, 2008 at 11:20 pm (Relicário de Frases)

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LIVROS

Quando você quiser saber algo que ignora, não pergunte aos sábios ou aos amigos: pergunte aos livros.

Afrânio Peixoto (1876-1947) Romancista e Ensaísta Bahiano(Citado por Josué Montello no livro Diário de uma Noite Iluminada).

 

O melhor livro é aquele que, violentando a sensibilidade e os hábitos mentais do leitor, perturba-lhe por algum tempo o equilíbrio interno e restabelece depois em plano e clima diferentes.

Aníbal Machado (1894-1964) Escritor Mineiro (Cadernos de João).

A ausência total de livros nos descompromete de maneira definitiva com a cultura.

Antonio Maria (1921-1964) Compositor e Jornalista Pernambucano (Com Vocês Antonio Maria).

 

Um livro pode ser nosso sem nos pertencer.Só um livro lido nos pertence realmente.

Eno Teodoro Wanke (1929-2001) Poeta Paranaense (Quando a Cadabra se abriu).

Quando um livro é hermético, convém conservar a intenção do autor, e deixá-lo hermeticamente fechado.

Guilherme Figueiredo (1915-1997) Dramaturgo e Contista Paulista (Cobras e Lagartos).

 

Um livro pode constituir uma obra, vinte podem não fazê-la.

José Veríssimo (1857-1916) Crítico e Historiador Literário Paraense (Prefácio a História da Literatura Brasileira).

 

Uns livros são grossos; outros, finos; poucos, os profundos.

Júlio Camargo (1930-2007) Jornalista e Aforista Pernambucano (A Arte de Sofismar).

Não há melhor fragata que um livro a levarmos a terras distantes.

Marina Colasanti (1937-) Escritora Egípcia Radicada no Brasil (Fragatas para Terras Distantes)

 

Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.

Mário Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Caderno H)

 

Livros trazem a vantagem de podermos estar sós e acompanhados.

Mário Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Caderno H).

 

A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

Marquês se Marica (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas, Reflexões e Pensamentos)

 

Um país se faz com homens e livros.

Monteiro Lobato (1882-1948) Escritor Paulista (América).

Um livro é um cartão de visita que se remete à prosperidade; mas poucos são os que a posteridade manda entrar.

Olívio Montenegro (1896-1962) Crítico Literário e Ensaísta Paraibano (Folhas ao Vento).

 

Há livros que aparecem cedo demais e não interessam ainda, e há os que chegam tarde e já não interessam mais. É preciso chegar na hora certa e dizer o que esperam seja dito.

Sérgio Milliet (1898-1966) Crítico Literário e Ensaísta Paulista (Diário Crítico, Volume 10).

LEITURA

O leitor perfeito é um autor em gestação.

Autran Dourado (1926-) Escritor Mineiro (O Meu Mestre Imaginário).

Sempre tive a sensação de que ler era conversar com um mestre que mora longe, não me conhece, mas está disposto a me ensinar tudo que sabe.

Bráulio Tavares (1950-) Escritor e Compositor Paraibano (Extraído em artigo do Jornal da Paraíba).

È minha doutrina que o saber ajuda a viver e que ler livro dá felicidade.

Gilberto Amado (1887-1969) Escritor Sergipano (Depois da Política).

 

O meu leitor não é o que me lê. È o que me relê (caso exista). Um autor lido unicamente uma vez não tem leitores, por mais retumbante que seja o seu sucesso.

Ledo Ivo (1924-) Poeta e Romancista Alagoano (Confissões de um Poeta).

 

Leitor: co-autor do texto.

Ledo Ivo (1924-) Poeta e Romancista Alagoano (Confissões de um Poeta).

 

Ler bem é ouvir em silencio.

Josué Montello (1917-2006) Romancista Maranhense (Diário de uma Noite Iluminada).

 

Ler sem refletir é como comer sem digerir.

Marques de Marica (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas, Reflexões e Pensamentos)

 

Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê.

Monteiro Lobato (1882-1948) Escritor Paulista (Extraído do livro Dicas da Dad, De Dad Squarisi).

 

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O Jornalismo no Romance “Ilusões Perdidas” de Honoré de Balzac.

janeiro 14, 2008 at 7:57 pm (Ensaios)

 

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I. Honoré de Balzac: uma trajetória literária.

Honoré de Balzac nasceu em Tours, França, em 1799. Filho de Bernard François Balzac, administrador do hospício da cidade, e de Anna Charlotte Sallambier, sendo o primeiro de três crianças (Laure, Laurence e Henry). Após os estudos elementares, foi interno entre os anos de 1807 e 1813 no colégio oratoriano de Vendôme, um estabelecimento de rígida disciplina. Mudando-se a família para Paris em 1814, terminou os estudos, formando-se em Direito em 1819. Durante os estudos estagiou três anos como advogado sem se distinguir; cansado dos processos, e enojado do papel do dinheiro no andamento da justiça, abandona a profissão e decide abrir caminho como escritor.

A família combateu seu projeto literário. A mãe sonhava com um futuro grandioso para o filho advogado. Todavia, ao mudar-se para cidade mais modesta, seus pais concordaram em mantê-lo em Paris por dois anos. Balzac viveu em repúblicas estudantis da cidade e ali escreveu sua primeira obra, a tragédia Cromwell, de 1819, um fracasso de crítica e público, segundo a própria família.

Apesar de o pai lhe cortar a mesada, não desanimou. Mudou de gênero e começou escrever romances sentimentais pra ganhar a vida. Para não prejudicar o seu nome, assinava os dramalhões com pseudônimos. A mãe o criticava por não voltar à advocacia e ninguém acreditava em seu talento. Um dia Balzac encontrou-se com Laure de Berny, mulher casada, inteligente e doce que lhe deu não só carinho e afeto, mas sociedade comercial. Com ela montou uma impressora. Sua esperada independência econômica não se concretizou pois a empresa faliu pouco tempo depois devido a muitas dividas, e o caso amoroso com Laure acabou em escândalo.

Seguindo o exemplo de Walter Scott, que conquistara fama escrevendo romances históricos, Balzac, após pesquisar no próprio local da ação, publicou, em 1829, Os Chouans, romance sobre uma insurreição monarquista na Bretanha. A obra, a primeira a levar a sua assinatura, foi bem recebida pelos críticos. Pouco depois escrevia A Fisiologia do Casamento, um conjunto de reflexões sobre a vida conjugal, também como bastante sucesso. O autor começa a ser citado nas rodas literárias e nos salões aristocráticos e assinar mais e mais contratos com editoras e livreiros. A intensa atividade (em 1830 escreveu 19 romances) somava uma agitada vida social, tentando em 1830, sem êxito, a carreira política.

Entre a composição de uma obra e o pagamento dos inúmeros credores ás custas dos quais mantinha vida faustosa, Balzac enfrentou durante dezoito anos os tormentos de uma paixão adúltera, que só se transformaram em casamento no início de 1850. Mas a 18 de agosto desse mesmo ano veio a falecer.

O conjunto de sua obra Balzac deu o nome de Comédia Humana (1842), em oposição á Divina Comédia Humana, de Dante. Sob esse nome alinha-se toda a produção do escritor, exceto os dramalhões anteriores a Os Chouans. Os romances distribuem-se em três partes: a primeira, de “estudos de costumes”, compreende seis grupos de “cenas’: “da vida privada”, da “vida da província”, “da vida Parisiense”, “da vida política”, “da vida militar”, e “ da vida no campo”. È a parte mais extensa, com um total de 63 títulos, entre os quais: A mulher de Trinta anos (um dos seus maiores sucessos) e o nosso objeto de analise, Ilusões Perdidas. A segunda parte da Comédia Humana enfeixa “estudos filosóficos”, como A Pele de Onagro (1831). A terceira, a dos “estudos analíticos”, deveria conter cinco obras, e restrigiu-se á Fisiologia do casamento (1829). A Comédia Humana abriria uma nova fase na história francesa e introduziria Balzac entre os maiores romancistas de todos os tempos.

 

II. Características da obra de Balzac.

 

Muitos até hoje são admiradores da obra Balzaquiana justamente pelo seu realismo. Não é difícil encontrar em antologias ou diários de leituras elogios clássicos enfatizando a extrema beleza de suas alusões e a clara descrição de seus personagens. Segundo Perrone (2000) Balzac viveu num período de agitação política e grandes transformações sociais, “registrando tudo ‘ao vivo’ em sua obra, como um super-repórter. Diferentemente de seus contemporâneos românticos, ele não buscou nenhuma evasão temporal ou especial, mas fez do que via e vivia a matéria de seus romances. (Perrone, 2000,p.47)”. E mais à frente a estudiosa relata “ nascido no ano do 18 Brumário (ascensão de Napoleão ao poder), e falecido logo após a Revolução de 1848, ele transformou o império, a restauração da monarquia e a revolução de 1830, que efetuou um pacto entre a monarquia formal e a burguesia reinante de fato.” (idem)

Este lado político da história da França durante a sua trajetória, pois ele viveu em um período conturbado, está muito presente em seus escritos, principalmente em seus romances de natureza histórica, onde personagens verdadeiros contracenavam com personagens criados por sua imaginação. Aliás, seus personagens são o seu forte enquanto escritor. Sabe-se que Balzac criou, só em sua Comédia Humana, cerca de 30.000 personagens, distribuídas em vários contos, novelas e romances.

Um aspecto destacado por Perrone (2000) é o lado maniqueísta de seus personagens. Segunda a autora a imensa maioria das histórias do escritor francês termina com a vitória dos maus, dos mais fortes e mais espertos, e a conseqüente derrota dos personagens bons e honestos. Pristeley (1968) também se refere a este aspecto:

 

Elas tendem a ser inteiramente boas ou inteiramente más, os bons tendem a ser tolos, e se deixam mui facilmente sacrificar, e os maus tendem a tornarem-se deliberadamente perversas, cheirando um pouco a enxofre. As moças virtuosas geralmente não têm caráter e são como as heroínas do começo do cinema fotografadas através da gaze. Os jovens são os melhores, principalmente se forem ambiciosos, mas incertos, meio inteligentes, meio tolos. Mas melhores de todos são os de meia idades e velhacos, de ambos os sexos, que são vitimas de algum monstruoso apetite, de laguma paixão dominante, alguma mania, por que o romântico unilateral em Balzac tem uma simpatia instintiva para com tais personagens, embora possa fingir desaprova-los e, assim, cria maior que o natural e empresta-lhes uma terrível energia. (Pristeley,1968, p.158).

Estes fatores característicos da Balzaquiana demonstram alguns certos limites de sua produção literária, entretanto, não diminuem sua força criativa e estética, ao construir personagens complexos (mesmo com maniqueísmo) como são as próprias relações humanas, visto que suas criações personificam, mesmo assim, as contradições de caráter, os idealismos, as perfídias, contrastes de sentimentos nos homens. Para Perrone (2000)

Ninguém põe em dúvida a afirmação de Marx e Engels de que ele viu e fixou, melhor do que ninguém, a sociedade resultante da Revolução Francesa, a cidade grande na quais os indivíduos travariam uma luta feroz e amoral sobrevivência, a passagem do mundo rural, para o mundo industrializado, o novo poder constituído do jornalismo, o naufrago dos valores do Ancién Regime e o predomínio absoluto do dinheiro na nova sociedade Burguesa. (Perrone, 2000, p.49/50).

 

O que a crítica tem revisto na verdade são os limites do famoso realismo de Balzac. Nos dias atuais uma noção que se tem é que o realismo balzaquiano não é simplesmente documental, ou seja, um realismo de representação e reflexo, mas um realismo que intui as razões ocultas dos fatos, em uma certeza de pintor expressionista, que exagera nos traços para arrancar a possível verdade íntima dos seres. (Perrone, 2000, p.50).

Estes aspectos tocam naquilo que nós nos referimos no primeiro capítulo, em que a arte, como as demais formas de conhecimento, constrói representações da realidade que não devem ser compreendidas como espelho ou retrato da realidade na medida em que guardam uma distancia desta. Pois o artista pode, de acordo com suas circunstâncias: exagerar, diminuir, denegrir, omitir.

 

III. Desilusões Humanas

Das obras de Balzac o romance Ilusões Perdidas, tem um lugar privilegiado em sua Comédia Humana. Para muitos críticos, este romance é uma das obras mais trabalhadas do romancista, – quase todos eles enfatizam a qualidade criativa, a estrutura narrativa, bem como a construção dos seus personagens e o caráter crítico das temáticas que o cercam. Escrito entre os anos de 1835 e 1843, o romance foi dividido em três partes, publicadas sucessivamente nos anos de 1836 (intitulada “os dois poetas”), 1839 (“Um Grande homem da província em Paris”) e 1843 (“os sofrimentos do inventor”). A obra trata dos esplendores e misérias de um poeta de província, Lucien de Rubempré, que faz carreira em Paris, obtendo sucesso fulgurante e meteórico quando entra para o jornalismo, e caindo em desgraça em boa parte pelos próprios poderes ambivalentes da imprensa.

Em toda a primeira parte, batizada de “Dois poetas”, Balzac descreve a vida na pacata Angoulême, colocando sua lente de aumento na vida de um sonhador Lucien que almeja fazer sucesso em Paris como poeta; de seu melhor amigo, David Séchard, que passa a tocar a ultrapassada tipografia de seu pai (um velho avarento, que não dá ponto sem nó); de Ève, irmã de Lucien, por quem David se apaixona; e o núcleo aristocrático comandado pela senhora de Bargeton, que será amante de Lucien e, como ele, sonha com os esplendores da capital. Na verdade Luciano de Rubempré é uma das criações mais completas de Balzac. Pinta um indivíduo caracteristicamente romântico. Encarna um tipo universal do talento provinciano seduzido pelo brilho da capital, mas também é a personagem característica de determinada sociedade e época. Na segunda parte, “Um grande homem de província em Paris”, ele pinta (para usar uma expressão do próprio autor) os costumes íntimos da vida parisiense, com a chegada da senhora de Bargeton e Lucién. Nesse capítulo, o maior do livro, o escritor flagra com ironia a vida cultural da grande cidade, principalmente o meio corrompido do jornalismo e do espetáculo teatral. Na última parte, “Os sofrimentos do inventor”, Balzac volta-se ao cotidiano de Angoulême, retratando as dificuldades de David Séchard com sua gráfica e o retorno de Lucien, após a experiência vivida na metrópole.

Segundo Rónai (1978), que assina o a nota introdutória da primeira tradução do Brasil 1, “A parte mais importante do livro é o segundo episódio, as vicissitudes de Luciano em Paris, onde ele passa por uma serie de ambientes. O dos jornalistas é aquele que leva Balzac a usar traços mais incisivos e as cores mais fortes, e lhe transforma as paginas numa sátira virulenta.” (Rónai, 1978, p.9) . O romance focaliza o jornal em estado nascente, e traça uma espécie de anatomia financeira da indústria editorial, bem como do fenômeno da grande imprensa e das ficções de massas. Segundo Wisnik (1994, p.321), em seu brilhante estudo sobre a obra, Ilusões Perdidas “flagra uma série de situações típicas ou situações-limite da vida jornalística que, surpreendidas em seu impacto originário, matem uma extraordinária força analítica.(idem)).

Rónai (1978) define na nota introdutória

 

Os costumes do jornal constituem um desses assuntos imensos que exigem mais de um livro e de um prefácio. Aqui o autor pintou os começos da doença, que atingiu nos dias de hoje o seu complexo desenvolvimento. Em 1821, o jornal encontrava-se em suas vestes de inocência comparado com o que é em 1839. se, porém, o autor não pode abraçar a chaga em toda a extensão, te-la-á, pelo menos, enfrentado sem medo.(Rónai, 1978, p.9)

 

Além dos jornalistas, chamados de “negociantes de frases” e “espadachins das idéias e das reputações” há uma descrição rigorosa no livro de vários tipos de livreiros, contratos, tráficos de influência, sistemas de benesses e modos de oscilação dos preços do prestígio pessoal, da folha de papel, dos gêneros literários e das posições políticas. Entretanto a imprensa parece ser o assunto principal e tratado de uma forma extremante crítica e sarcástica, sendo Balzac se ocupando largamente durante a narrativa dos tráficos de influencia e da corrupção. É como o próprio Rónai (1978, p.9) se referiu “…há nessa atitude uma convicção quase mística de que o jornalismo é uma verdadeira doença, que infecciona fortemente todos os que nele se metem”.

Antes de compreendermos as motivações, os seja, as chamadas condições de possibilidade e as circunstancias de enunciação de tal discurso crítico em relação à imprensa vamos pintar um quadro da situação do jornalismo da época de Balzac.

 

IV. A imprensa francesa no início do século XIX.

No início do século XIX Paris já era a capital cultural da Europa, mas antes disso, sua influencia já estava presente no campo político, não só da Europa, mas do mundo inteiro, graças aos famosos ideais de luta da Revolução de 1789: igualdade, liberdade e fraternidade. No que se refere ao jornalismo, à impressa teve um papel preponderante na circulação destas idéias, e nas discussões sobre os novos rumos de um país que ainda vivia em estado de guerra e em um cenário intenso de instabilidade política. Segundo Traquina (2004) as crescentes tiragens dos jornais corresponderam á intensa comercialização da imprensa durante o século XIX. “Embora houvesse pessoas que, por exemplo, fizeram negócio com a venda de jornais durante a revolução francesa no fim do século XVIII, os jornais eram ainda, e, sobretudo armas na luta política”( Traquina, 2004, p.34) , mas sem um caráter tipicamente mercadológico. É no século XIX que o novo jornalismo, chamado por Traquina (2004) de penny press, será encarado como um negócio que pode render muitos lucros, apontando com objetivo fundamental o aumento das tiragens.

Para o estudioso português o surgimento do jornalismo enquanto atividade remunerada está ligada á emergência dum dispositivo tecnológico, a Mass Media, a imprensa. Podemos verificar a expansão vertiginosa da imprensa com dados estatísticos com o aumento do numero de jornais franceses o e aumento das tiragens: – número de jornais circulando – aumento de 49 em 1830, para 73 em 1867, para 220 em 1881, e 322 na véspera da primeira guerra mundial, em 1914. As tiragens dos jornais também sofreram um aumento notável durante o século: 34.000 em 1815, 1.000 em 1867, 2.500.000 em 1880, e 9.500.000 em 1904. Schiller, 1979:46 (Schiller, 1979 opud Traquina, 2004)

O mesmo Traquina (2004) enumera os fatores que fizeram o século XIX, segundo ele, a “época de ouro da imprensa”:

1) a evolução do sistema econômico; 2) os avanços tecnológicos; 3) Fatores sociais; 4) a evolução do sistema político no reconhecimento da liberdade no rumo á democracia. Foi o século XIX que a escolarização de massas, com a instituição de escolas públicas, permitiu que um número crescente de pessoas apreenderam a ler, embora de forma rudimentar. (Traquina, 2004, p.35).

Na época de Balzac a imprensa estava em estado nascente, em que o mercado e a mídia iniciava um processo de influencia no cotidiano das pessoas. O capitalismo financeiro assim começava o seu processo de desenvolvimento e expansão, com o apoio massivo da imprensa, juntamente com os governos dos estados nacionais.

Voltando mais especificamente ao papel da imprensa na época de Balzac, Briggs e Burke (2004), em Uma História Social da Mídia, concentram a atenção sobre as mudanças ocorridas nos meios de comunicação nos últimos séculos e enfatizam os contextos sociais em que se deram, trançando assim uma história da comunicação, desde invenção da prensa gráfica á internet. No ensaio, os autores destacam que o século XIX foi o século em que os jornais mais ajudaram a moldar uma consciência nacional, acontecendo assim um considerável crescimento do número de periódicos na França após a revolução Francesa. Em contraponto a isso, após a mesma revolução os jornais, por exemplo, não poderiam tratar de assuntos políticos. As restrições oficiais tornaram a cultura oral dos cafés politicamente importante, assim como a cultura dos salões, nos quais senhoras aristocratas organizavam reuniões de intelectuais.”( Briggs e Burke, 2004 p.10)

Estas reuniões são a principal característica literária da época, contudo com a chegada da imprensa os literatos acabaram descobrindo um outro ambiente pra “venderem” suas produções. Nos salões literários os poetas declamavam suas poesias, e os romancistas discutiam suas novas obras com seus leitores. Com a chegada da imprensa estas mesmas idéias se tornam populares nas colunas diários dos jornais, escritores e intelectuais se utilizam do espaço jornalístico para divulgar seus nomes e obras. Na realidade, segundo Lavoinne (s/d) “até à segunda metade do século XVIII o jornal é uma obra periódica que contém extratos dos livros imprimidos ao tempo e muitas das descobertas que todos se fazem nos domínios das artes e das ciências.” (Lavoinee, s/d, p.13). No século XIX isso persiste, pois logo após a restauração e ainda mais depois da revolução de julho e o advento da monarquia burguesa, a classe média comercial, os senhores da nova imprensa, tornaram-se crescentemente importantes, (Pristley, 1968: p.151), com os escritores românticos de maior sucesso, – que tinham plena consciência do que os jornais podiam fazer por eles, – tornaram-se assim hábeis no uso da imprensa, pouco importando o que escrevessem a respeito da solitária grandeza de suas almas. (Idem).

Agora, antes de analisarmos este aspecto que Balzac enfatiza tanto no romance vamos compreender como o mesmo pinta em suas imagens escritas a imprensa.

 

V. Influência perniciosa da imprensa.

 

Como já foi citado acima a crítica balzaquiana volta-se mordaz para o que ele considera a verdadeira chaga, câncer da sociedade, hipócrita tirania: o jornalismo. Pintando um quadro vergonhoso das práticas dos homens de impressa através das aventuras de Lucién de Rubempré nas redações, nos cafés e nas ruas de Paris, o que se tem é um retrato do comprometimento político-partidário, do envolvimento com o mercado editorial e teatral, bem como a crítica literária. Balzac via no jornal unicamente um instrumento de vinganças pessoais, adulações, amizades e ódios efêmeros. Para Wisnik (1994) (…) para Balzac a impressa parece concentrar o mal do mundo consumado na mercantilização, dissipando o lastro do valor universal e pulverizando todo compromisso ético. (Wisnik, 1994, p.323).

Para Fraser Bond (1962) a imprensa deveria cumprir suas obrigações para a sociedade, informando, interpretando, orientando e entretendo, sempre com independência, imparcialidade, honestidade, responsabilidade e decência. No que se refere à independência assim afirma o estudioso: “para ser independente ela [ a imprensa] precisa apoiar-se em bases econômicas próprias, obtendo lucros sem ser subvencionada. Não pode servir o público que apóia, se estiver ligada a alguém que o manobra.” (Fraser Bond, 1962, p.17). Quanto à imparcialidade: “o ideal de imparcialidade é alcançado pelo jornalismo que evita erros, tedenciosidade, preconceitos e sensacionalismo” (Idem p.18). Já em relação à exatidão: “difundir a verdade e objetivar os fatos, eis a finalidade do ideal jornalístico.” (Ibidem,p.18). No que se refere à honestidade assim Fraser Bond (Ibidem, 1962) escreveu em seu manual: “nenhuma atividade está sujeita a tal multiplicidade de contatos com o povo, a tantos problemas variados pedindo decisões imediatas, como o jornalismo” e mais a frente “mas os elementos básicos de caráter, nos veículos jornalísticos, permanecem fixos. São eles honestidade nas noticias e nos anúncios.”( Ibidem, p.19). Em relação à responsabilidade ele escreve: “ uma imprensa livre é muito mais do que um meio de vida dos seus diretores. Ela desfruta dessa liberdade porque é uma instituição semi-pública. Nessa condição, a imprensa deve uma obrigação á comunidade que ela serve e que a sustenta.”( Ibidem, p.19). E por ultimo quanto à decência, ele assim se refere: “o dever de ser decente compreende não apenas a linguagem e as gravuras que o jornalismo usa, pois a lei isto prevê, mas também á maneira qual obtém a noticia.” ( p. Ibidem ,19)

Na verdade Fraser Bond (1962) em seu manual constrói um ideal de um jornalismo comprometido com o social, ou politicamente correto. Sua finalidade na escrita do livro é trazer um panorama da profissão, com suas características principais. O autor idealiza certos aspectos em seu discurso, enfatizando o compromisso com a sociedade civil.

Ao contrario de Balzac o Fraser Bond crê na independência da imprensa, na qual ela precisa apoiar-se em bases econômicas próprias, obtendo lucros sem ser subvencionada. A idéia de não estar ligada a alguém que a manobra é impossível para o escritor francês. Para ele a imprensa sempre será um dispositivo para as elites culturais e políticas da sociedade. Mais do que isso o jornal teria o poder de fazer e desfazer contextos, de fazer e desfazer monarquias. Ou seja, haveria segundo Balzac, na imprensa um poder ilimitado, soberano em relação aos outros poderes.

Este poder ilimitado é descrito no romance, por exemplo, nas amostras hilariantes de “método” em que o crítico cultural afirma o verso e depois o reverso da mesma opinião, com uma desenvoltura sofística e puro maquiavelismo de circunstâncias, que lhe permitem extrair uma suposta e permanente superioridade sobre os objetos culturais de que trata.

O jornalismo aparecerá para Rubempré (personagem central) como a saída salvadora de uma carreira literária empatada pelas dificuldades do ingresso no mercado. A lógica da vida jornalística, no romance, está articulada a um processo difuso de trafico de influencia e de produtos (onde a crítica literária e de espetáculos, o publicismo político e a crônica mundana associam-se a formas incipientes de merchandising, transações com livros e bilhetes de teatro, manobras a claque).

Essa visão amarga deve ter suas explicadas por alguns aspectos pessoais do autor. De acordo com Maurois (s/d), um dos seus mais famosos biógrafos, “Balzac não era apenas um jornalista, era também um maravilhoso jornalista. Quase todo o dia ia ao café Voltaire ou ao Minerva, próximo do Théãtre-français, para aí encontrar os camaradas”. (Maurois, s/d, p.120). Esse inicio de convívio diário não só com jornalistas, mas também com livreiros e literatos esta relacionado a sua fase quando o seu pai cortou sua mesada, não podendo Balzac se manter sozinho “De resto era necessário viver, acalmar os receios da família, ganhar dinheiro. (Idem, p. 78). Graças a uma amigo Balzac se aproxima de um grupo de jovens escritores que conheciam bem o mundo do teatro e dos livreiros e começa a escrever romances sentimentais para ganhar a vida. Para Maurois (s/d) Balzac “fez a experiência, perigosa para qualquer artista, de desprezar a sua arte. (Ibidem, p.79).

Estas Experiências particulares estão muito próximas ao personagem Rubempré, em suas dificuldades financeiras em Paris, com seus sonhos de se tornar escritor e suas necessidades de ganhar dinheiro. “Como tantos jovens, era puxado um lado e para o outro por forças opostas. Tinha relações com um grupo de jornalistas cínicos, que faziam troça de tudo e especialmente dos grandes sentimentos, que vendiam a pena a pequenos jornais – Lê Pilote, Lê Corsaire -, sedentos de ecos e de epigramas, e que atabalhoavam á pressa melodramas ou comédias para actrizes de segunda ordem. (Maurois, s/d, p.111). Estes grupos de jornalistas cínicos da vida real são os mesmos que serviram de base para a criação dos personagens do romance: Finot, Miguel Chrestien, etc.

 

VI. Os sentidos da ilusão.

O personagem Rubempré é um jovem provinciano que vai tentar a sorte na metrópole munido de seu talento poético e de todas as ilusões possíveis (assim como o próprio Balzac com seus vinte anos) que serão desmontadas pouco a pouco em Paris. O mundo das letras lhe mostra o quão insignificante é seu intento. Na voz de outro personagem, Daniel Du Arthez – primeiro amigo que Rubempré conquista no meio intelectual parisiense: ”… sua história é a minha e a mesma de mil a mil e duzentos jovens que todos os anos chegam da província a Paris”. 2

Em paralelo a esta desilusão, há também a do amor que foi a principal causa de sua vinda para a capital. Enquanto estavam na província, Lucien du Rubempré e a Sra. Du Bargeton se envolveram nos saraus que aconteciam na casa desta. Apaixonaram-se, mas sequer chegaram a alguma proximidade que não fosse lícita. O caso dos dois acaba por se consumar apenas em boato. A Sra du Bargeton resolve se afastar do marido de vez, levando para Paris Rubempré como seu protegido e amante. Lá chegando, o provincianismo de ambos acaba por diluir subitamente a paixão frente aos valores da sociedade parisiense. A primeira ilusão de Lucien du Rubempré já está perdida, e os dois acabam por terminar com o caso que sequer iniciaram. Desabonado de sua protetora, com a qual contava para se manter, além das economias que sua mãe e seu cunhado, David Séchard o haviam dado, Rubempré tenta vender seus dons da escrita a algum livreiro. Mais uma tentativa frustrada. O jornalismo surge então como a alternativa redentora. Rubempré aprende todas as técnicas e expedientes da profissão. Neste ponto do livro, Balzac faz uma listagem dos métodos que os jornalistas empregavam para sustentar toda uma rede de tráfego de influências e troca de favores com editores, casas de espetáculos, políticos, etc., algo muito citado ao longo do texto.

Balzac empreende um ataque caudaloso por todos os flancos que pode a imprensa. Se há um mal no mundo, este é a imprensa. De espírito conservador, o escritor francês defendia a monarquia e chegou a apregoar o controle prévio sobre os jornais , no entanto, apesar da sua ira contra a imprensa, Balzac conseguiu articular questões cruciais sobre as quais o jornalismo se constituiu durante as grandes transformações engendradas pela Revolução Industrial. Como Wisnik (1994) propõe: E como Balzac abrangeu, com a vontade de potência de sua visão inaugural, nada menos que todo o arco histórico do problema, pode-se dizer também que a sua questão é a do destino problemático da cultura diante da indústria da cultura” ( Wisnik, 1994, p.328) .

Para o escritor francês, o jornalismo seria uma degeneração da literatura, os jornalistas, “comerciantes de frases”. Isto reforça a tese do historiador da arte Mário de Micheli 3 que segundo por volta de 1848 vai existir uma série crise das unidades do pensamento e o dissídio das classes torna-se aguda. Esta ruptura vai envolver os problemas da cultura e da arte , ou seja, vai haver uma espécie de a quebra da unidade espiritual do século XIX. Neste sentido, como propõe este historiador, quando os intelectuais deixaram as linhas de frente dos movimentos populares, criando assim uma poética da evasão. Balzac se inscreve dentro desta perspectiva pela assimilação do mito do bom selvagem, do culto a uma virtude perdida e que deve ser recuperada. Para ele a província, portanto onde se tem uma situação marcadamente anacrônica em relação ao cosmopolitismo e à industrialização de Paris, é o espaço depositário dos “verdadeiros” e “bons” valores. A república seria a corrupção instituída.

Daí a imprensa ser um mal. A nova sociedade desencadeada pelas transformações da Revolução Industrial se impunha aos que queriam conservar um mundo já extinguido, forçando a “perda total das ilusões”. Às idéias totalizantes da literatura de então, o jornalismo vai se opor em sucessivas fragmentações. Balzac quer levar a cabo uma luta entre “duas máquinas de representar o mundo”: o jornal e o livro. A pureza está toda com o segundo

 

VI. Mimese da Vida Moderna: relações entre literatura e jornalismo.

 

De acordo com Wisnik (1994) a representação literária e a representação jornalística disputam o que ele chamada de mímise da vida moderna. Para Balzac a imprensa é o mundo da mentira, e avança na verdade da literatura. Sendo assim:

 

A imprensa será o domínio do jogo das representações desconectado do horizonte da verdade, ou da manipulação dos verossímeis sem o lastro de sentido que os fundamentaria. Por sua vez, a literatura na qual o romancista se empenha, ao construir a comédia humana, aspira a uma representação totalizante do mundo que ao mesmo tempo experimenta a sua potência e perde terreno, como indica, entre outras coisas, o panorama entrópico dos meios de massa. (Wisnik,1994, p.325)

Este empate sobre a maior representabilidade na produção de verdades está inserido no conflito da identidade entre o escritor e o jornalista na contemporaneidade. Na obra Pena de Aluguel, Cristiane Costa (2005) faz um panorama dos escritores jornalistas no Brasil entre os anos de 1904 e 2004. A autora destaca de uma forma interessante a relação entre a fluirção literária e a necessidade de um literato está ligada a pratica jornalística para se manter e divulgar sua arte. Alias, o próprio nome do livro alude a este dilema dos literatos: ter de colocar o talento, o bem escrever, a serviço da informação para obter reconhecimento. Fator este que de certa forma, favoreceu o reconhecimento da tanta da literatura como o próprio jornalismo. Tal convicção esta expressa em frase de Olavo Bilac no livro: “Antes de nós, Alencar, Machado, e todos que traziam a literatura para o jornalismo eram apenas tolerados: o comércio e a política tinham a consideração e virtude.”(Costa, 2005, p.49).

A mesma questão é enfatizada por Jorge (2002) em seu ensaio Os escritores e o jornalismo. Segundo ele há uma lista enorme de escritores que possuíram ou possuem uma espécie de ojeriza a prática jornalística, muitos deles foram também jornalistas. O autor cita, por exemplo, Jorge Luis Borges, Oscar Wilde e Margarite Youcenar, entre os maiores inimigos da imprensa quando se é escritor. Isso acontece devido ao que chamo de choque entre os campos literário e jornalismo. Neste choque os escritores jornalistas, como foi o caso de Balzac, há uma crise de identidade, entre aquilo que se quer ser (escritor) e aquilo que se é por força da sobrevivência (jornalista);

Para Demétrio (2007, s/d) o romance Ilusões Perdidas foi a obra que primeiro trouxe o jornalismo para a literatura, pois baseando-se em Wisnik (1994) “a imprensa vem a ser assunto da literatura depois que a literatura já é assunto da imprensa” (Wisnik ,1994, 329). Esta primeira referencia pode compreendida como uma espécie de discurso fundador. Um discurso que traz uma serie de regularidades no tempo, e sempre que se queira criticar o jornalismo lá estará Balzac sendo referido.

Na segunda parte de Ilusões perdidas está o nó das relações entre literatura e jornalismo, anunciando e envolvido pelo contraponto que o livro estabelece entre esses dois tipos de “poetas”: o jovem narcisista que, pelo triunfo e o fracasso mundanos, perde os seus ideais literários e morais, e o anônimo e impecável trabalhador-inventor que, moralmente avesso ao turbilhão da capital, luta pelo melhoramento técnico dos meios impressos. (a província tende a ser, para o lado idealizante do antimodernismo de Balzac, o celeiro dos “bons”: David Séchard não é movido pelo desejo do lucro nem da glória, embora diretamente envolvido, pela natureza do seu trabalho, com os movimentos da industrialização e do capital.).

Na verdade esta segunda Ilusão Perdida esta concentrada nesta diferença. Uma das “ilusões perdidas” de que fala o autor é justamente a perda do valor estético/literário subjugado pelo valor econômico. Para Wisnik (1994)

 

 

(…) o ritmo interno dessa trajetória romanesca é desencadeado pelo choque das idealizações líricas do jovem e ambicioso autor de “Margaridas” e “O Arqueiro de Carlos IX” com a industrialização e a comercialização da literatura, sinalizada em detalhe da sua iniciação parisiense. (Wisnik, 1994, p. 322)

 

A universalização do dinheiro e do mercado, que consolidará a vida burguesa pondo fim á sua fase de idealização heróica, está no centro desse “poema tragicômico da capitalização do espírito”, como Lukács chamou Ilusões perdida 4.O que está em questão nessa poderosa obra de arte é o destino problemático da própria literatura diante dessa nova máquina de representar o mundo : o jornal diário e de massa.

Notas

1 A primeira tradução do livro foi realizada pelo conhecido poeta Mário Quintana e pelo ensaísta Ernesto Pelanda, sobre pedido da livraria e editora Globo.

2 BALZAC, Honoré de. Ilusões Perdidas. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

3 Historiador da arte Italiano.

4 WISNIK, José Miguel. Ilusões Perdidas. IN: NOVAES, Adauto (Org). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. P.321.343.

 

 

Considerações Finais

 

Sendo assim, concluímos que Balzac escreve uma espécie de tratado contra a prática do jornalismo. O romance Ilusões Perdidas deve ser compreendido como uma produção que esta contido dentro de um contexto histórico específico, na qual a imprensa estava em estado nascente, em que o mercado e a mídia iniciava um processo de influencia no cotidiano das pessoas. E principalmente em que o capitalismo financeiro começava o seu processo de desenvolvimento e expansão, com o apoio massivo da imprensa e de seus responsáveis: os jornalistas.

A Posição do sujeito Balzac dentro do campo literário francês da época é de um participativo escritor, um representante máximo da produção literária e intelectual francesa, com uma obra volumosa e clássica, de quase sempre referido sucesso de publico e de crítica. Seu intenso convívio diário, desde iníco de sua carreira de homem de letras, não só com jornalistas, mas também com livreiros e literatos, proporcionou a construção do romance Ilusões Perdidas. Os ambientes como a dos salões, nos quais senhoras aristocratas organizavam reuniões com intelectuais, aliado a ambiente de redação foram espécies de espaços de inspirações para suas alusões críticas e representações minuciosas do livro.

As Condições de produção enfatizam também um período de sucesso atrelado a momentos de crise financeira e de dúvida quanto as suas funções dúbias de escritor e também jornalista. Todas as dificuldades de relacionamento com estes dois campos, deixam claro uma espécie de conflito interno, na qual percebe-se claramente que para Balzac a atividade jornalística é indigna para os homens das letras, pelo seu caráter de descompromisso com a verdade e a sociedade em si, e o seu compromisso com os valores das elites intelectuais e políticas da época.

Segundo Lavoine(s/d) a imprensa tem um papel de provocar a reflexão filosófica (ética em primeiro lugar e, depois, política, econômica, cultural e social), sendo um campo permanente de reflexão crítica dos acontecimentos, da interpretação do passado mais recente e do devir imediato, da pesquisa sobre os fenômenos sociais, e da entrega, a cada cidadão, de um imenso trabalho de equipes pluridisciplinares.

Na sociedade do século XIX, sociedade na qual Balzac viveu, quando o êxodo rural se acelera e os laços tradicionais se distendem, o jornal tem uma importante função de coesão social. Segundo a formula de Torqueville, citado por Lavoinne (s/d): “se não existissem os jornais, quase não existiria ação comunitária”. Entretanto para o escritor francês a imprensa destoava-se de sua função social, sendo apenas um suporte para o joguete das elites intelectuais e políticas da época. Nas palavras diretas do seu famoso aforismo, “se a imprensa não existisse, seria preciso não inventa – lá”

Sua crítica, encarada aqui como uma espécie de maldição, é ainda extramente atual. Todavia suas reflexões devem ser compreendidas dentro de um contexto especifico, como já foi referido acima, de uma imprensa nascente, aliada ao capital financeiro e sem consciência dos males que porventura iriam causar a sociedade. Balzac de nenhuma maneira pensou em seu romance no lado positivo da imprensa: desvendando e elucidando os causos importantes para a sociedade, ou seja, para ele seria impossível a impressa exercer uma atividade cidadã.

È impiedosamente atual o pessimismo com que trata da questão jornalística Balzac, o seu comprometimento com o poder e com a manutenção da ordem estabelecida. Ainda hoje os vícios do jornalismo despertam controvérsias, que em muito fazem lembrar as nebulosas ligações descritas pelo universo balzaquiano. A inexistência, na época, da publicidade não impediu o escritor de antever a que ponto chegaria essa simbiose entre o capital e empresa jornalística.

Vinganças, rixas pessoais, calúnias, amizades convenientes, trocas de favores de toda espécie estão presentes no jornalismo balzaquiano do século XIX, como no atual, de grandes conglomerados empresariais. Mas o jornalismo, em todas as épocas, nada mais é que um microcosmo da sociedade na qual se insere. Encerra todas as mazelas e contradições típicas do período e da própria estrutura produtiva que o envolve. Os mecanismos torpes de ascensão individual, a avareza, a avidez pelo lucro, a competição e a conspiração da sociedade contra o indivíduo, bem como o acirramento das rivalidades políticas, são herança do próprio século XIX e da Era Moderna. A imprensa, como instituição social, apenas carrega os de um tempo em que se redesenhavam os quadros de poder e influencia.

Nas páginas amargas e belíssimas do romance de Honoré estão presentes toda a sua experiência pessoal de anos dedicados as letras. Dentro do campo literário da época sua posição foi de um critico mordaz daquilo que ele considerava a praga da modernidade: a imprensa e os jornalistas. A atualidade da obra é surpreendente, como ocorre com toda obra-prima e seu papel dentro da literatura no qual a temática jornalismo se encere, no campo da formação discursiva é de um discurso fundador, discurso que possibilitou uma regularidade enunciativa.

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janeiro 14, 2008 at 7:01 pm (Relicário de Frases)

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Dou ìnicio aqui neste momento a publicação da imensa coletãnea de aforismos e máximas de autores brasileiros que eu colecionei nestes ultimos anos. Várias temáticas serão abordadas ao longo destes meses. Amor, Amizade, Morte, Vida, Casamento, Humor, Religião, Ateísmo, Deus, Família, entre outros, de autores dos mais diveros. Passarão por aqui: Clarice Lispector, Barão de Itararé, Millor Fernandes, Chico Anísio, Nelson Rodrigues, Cecília Meirelles, Renato Russo, Rui Barbosa, e muito mais autores, deixando suas sabedorias em pequenas gotas.

A lista de temáticas se inicia agora com Arte e Artistas. Espere que gostem:

ARTE

A arte não é produto de mercado. Vão me chamar de romântico, mas a arte, para mim, é vocação e festa.

Ariano Suassuna (1927-) Dramaturgo e Romancista Paraibano (Extraído da Revista Superinterressante).


A arte vivifica a humanidade e aniquila o artista.

Carlos Drummund de Andrade (1902-1987) Poeta e Cronista Mineiro (O Avesso das Coisas).

 

Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação.

Clarice Lispector (1925-1977) Escritora Ucraniana Radicada no Brasil (A Descoberta do Mundo).

 

Toda arte é política e, por isso mesmo, determina uma opção diante dos problemas concretos, a afirmação ou negação de determinados valores.

Ferreira Gullar (1930-) Poeta Maranhense (Vanguarda e Subdesenvolvimento).

A arte é intemporal embora guarde a fisionomia de uma época.

Iberê Camargo (1914-1994) Artista Plástico gaúcho (Extraído da Revista: Discutindo Arte).

 

Quando a arte procura ser obscura perde a sua verdadeira força de expressão.

José Lins do Rego (1901-1975) Escritor Paraibano (O Vulcão e a Fonte).

 

A arte nasce da dor, como a pérola.

Monteiro Lobato (1882-1948) Escritor Paulista (A Barca de Gleyre).

 

O segredo da grande arte é ser tão pessoal e estreito que, pela força do seu exclusivismo, fala com o mundo inteiro.

Paulo Francis (1930-1997) Escritor e Jornalista Carioca (Waaal: O Dicionário da Corte de Paulo Francis).

 

ARTISTA

Artista, tua grandeza está na vibração total com que te entregas ás tuas criações e na decepção e quase desespero com que medes a distância infinita entre o teu sonho desmesurado e a realidade que consideras inexpressiva.

Dom Helder Câmara (1909-1999) Líder Católico Cearense (Mil Razões para Viver).

 

Para que servem os artistas? Para dar beleza ao nada.

Eno Teodoro Wanke (1929-2001) Poeta Paranaense (ETC e Tal).

 

Se fosse possível explicar a mente de um artista, com certeza a arte deixaria de existir.

Jorge Andrade (1922-1984) Dramaturgo Paulista (Extraído do livro Viver e Escrever, de Edla Van Steen).

O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

Manuel de Barros (1916-) Poeta mato-grossense (Livro Sobre Nada).

 

Todo artista é limitado já a priori por uma língua e por um estoque de formas.

Paulo Leminski (1944-1989) Poeta e Compositor Paranaense (Poesia: a Paixão pela Linguagem).

 

Um artista nunca agradece, inventa e pronto. È aplaudido ou vaiado.

Raimundo Carrero (1947-) Escritor e Jornalista Pernambucano (Sinfonia para Vagabundos).

 

O homem nasce poeta, músico, pintor.A cultura apenas desenvolve, aperfeiçoa, melhora ou mesmo desfaz o dom.

Tristão de Ataíde (1893-1983) Pensador Católico e Crítico Literário Carioca (A Estética Literária).

 

O artista é o mais livre dos homens e a arte a maior afirmação da liberdade humana.

Tristão de Ataíde (1893-1983) Pensador Católico e Crítico Literário Carioca (A Estética Literária).

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Um olhar sobre os outros: narrativas sociopolíticas de João Matias de Oliveira.

janeiro 13, 2008 at 5:54 pm (Ensaios)

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“Noto certa indignação, uma revolta diante do quadro social, político e econômico no Brasil atual; que se revela em todo o discurso sensível e rebelde do ficcionista. Suas palavras são de ira, de fúria e de dor em um quadro de desigualdades e injustiças em nosso país.”

O livro Aos Olhos de Outro (Editora Agenda, 2007), do jovem escritor cearense João Matias de Oliveira é uma bela coletânea de contos e crônicas de forte teor político e social. Nascido em Juazeiro do Norte o estreante no mundo das letras é residente em Campina Grande já a cerca de dois anos, onde cursa Jornalismo e Ciências Sociais nas principais instituições universitárias da cidade, e já se insere como um dos mais destacados contistas da região, ao lado, por exemplo, do pernambucano Cristiano Aguiar.

O livro é dividido em três partes. São elas: Estórias de Aprendiz, Democratas por Decreto (intervalo Proso-político) e por ultimo Aprendiz de Estórias. As narrativas trazem um interessante caráter político e uma comovente preocupação social. Seus personagens, vivos em seu teor natural e espontâneo, são portadores de uma inegável critica social as instituições, sejam elas familiares, governamentais, entre outras, em uma lógica quase sempre de um questionamento ético das relações sociais no cotidiano. Os textos entendidos aqui como um conjunto único e dinâmico, apesar de trazerem dois gêneros diferentes, o conto e a crônica, proporcionam aos seus leitores um panorama significativo dos dilemas e conflitos da existência humana.

Há um teor levemente Foucaultiano nas narrativas do nosso autor, mesmo que inconsciente, – o que coloca os textos em uma escala extremamente atual de abordagem, devido principalmente as suas preocupações sociais e os seus objetivos humanísticos de reflexão. Estranho é perceber o caminho seguído por esse jovem escritor, em uma época de um ridículo descomprometimento político dentro do mundo literário. É interessante notarmos as escolhas realizadas por João Matias: o mendigo, o marginal, o louco, são os seus personagens principais, sendo sempre tratados em uma perspectiva lucidamente crítica e responsavelmente politizada.

Este teor Foucaultiano que me referi a cima esta relacionada às redes de instituições que nos domina dentro do organismo social; que nos reprime diante dos fatos e acontecimentos do dia a dia. São os abusos, entre elas, as agressões físicas e morais das lideranças e representantes do poder; o uso da força e da violência, que toca quase sempre no limiar da barbárie. Os protagonistas de João Matias são quase sempre caracterizados como ingénuos, e sujeitos a indignação perante as forças maléficas destas instituições citadas, que são corrompidas pela insensibilidade e o preconceito macabro de seus representantes. Há sempre vitimas, e estas são inegavelmente os pobres e os ditos marginais morais. Esta visão se aproxima muito do maniqueísmo Balzaquiano, pois a imensa maioria das histórias do escritor francês termina com a vitória dos maus, dos mais fortes e mais espertos, e a consequente derrota dos personagens bons e honestos. Noto em certo sentido esta tendência no jovem escritor cearense.

As temáticas são recorrentes: loucura, família, governo, igreja, partido político. Os ambientes são geralmente locais de luta, de conflito, entre os sujeitos sociais nos espaços dos micropoderes em uma lógica de divagações em sentidos espaciais urbanos. Os personagens passeiam límpidos por universos de conflitos. Noto certa indignação, uma revolta diante do quadro social, político e econômico no Brasil atual; que se revela em todo o discurso sensível e rebelde do ficcionista. Suas palavras são de ira, de fúria e de dor em um quadro de desigualdades e injustiças em nosso país.

Quanto à questão estética, a qualidade máxima de João Matias está contida inegavelmente em seus diálogos primorosos. O autor os utiliza deste recuso magistralmente, em uma polifonia bastante interessante em meios aos seus personagens. Destaque para a crônica O Senador Biônico e na conto A Sombra e o Sol. Há uma sensibilidade em cada corte do texto, o que demonstra a tendência para a ficção, ou melhor, para a curta ficção. Os desfechos são também muito bem construídos, mesmo reconhecendo quanto ao caráter formal certo tradicionalismo narrativo, que em nada toca no experimentalismo tão comum dos dias atuais. Os personagens são bem trabalhados, apesar do maniqueísmo já referido a cima, e trazem um fator interessante muitas vezes: há um enigma constituído na escolha dos nomes dos personagens. São exemplos: o personagem Sarmento (Sargento, devido o seu rigor na organização de sua família), no conto Entre a Sombra e o Sol, e Emergarda (Esmeralda, no sentido de beleza diante da marginalidade e da pobreza) no conto A Morte do Animal. Este aspecto é bastante comum na literatura brasileira, destaque para os ficcionistas José de Alencar e Guimarães Rosa. Quem não se lembra dos personagens Diva e Diadorim.

Algo que me chamou também muita atenção nos textos coletados, foi o numero significativo e excessivo de palavras pouco utilizadas no vocabulário, inclusive literário. São exemplos: enpenachada, sorumbático, enxotes, amainou, entre outros. Essa falha eu diria, faz parte daquilo que eu chamo de síndrome de Rui Barbosa, uma espécie de doença literária não tão comum, porém perceptível em alguns jovens escritores. O escritor dedica-se então extraordinariamente a leitura de vernáculos de dicionários influenciando assim seus escritos com muitos termos não muito comuns no dia a dia, e muitas vezes indiferentes às práticas literárias.

Uma reflexão interessante sobre a escrita de João Matias foi colocada na própria orelha do livro nas palavras da professora Robéria Nascimento: “Distanciadas de qualquer intenção de universalidade, as narrativas aqui registradas buscam um sentido atemporal e uma habilidade criativa que ultrapassam o “o profissionalismo” do ato de escrever, apontando a direção do novo e inventando desejos de não serem lidas como falsas ou vazias. O leitor perspicaz e atento perceberá uma vontade de coerência, um entusiasmo de vanguarda, um pensamento aberto, qualidades que formatam o perfil dos jornalistas do futuro que hoje se sonha construir”. As palavras da ilustre professora enfatizam justamente a clara humanidade do autor e o desejo utópico de através da literatura transformar os sentidos das relações sociais no cotidiano.

João Matias, sendo assim, com seu Aos Olhos de Outro, apesar de alguns erros, comuns naqueles estreantes no campo das letras, vislumbra as disparidades do caos do mundo através de seus personagens. Nada mais lindo do que o sonho de transformar, através da literatura o nosso universo tão complicado de relações conflituosas. E é isso que nos deixa de exemplo esse nosso jovem escritor, uma esperança de mudança, de humanidade sensível em nossas cabeças.

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Uma entrevista com Braúlio Tavares sobre a literatura brasileira contempôranea atráves do Jornal da Paraíba.

janeiro 7, 2008 at 10:42 pm (Entrevistas)

 

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Uma curiosidade sempre presente nos dias atuais nos críticos e também leitores brasileiros é a compreensão de que luzes e sombras são constituídos a atual literatura brasileira; em quê cortejo de sistemas, idéias e ilusões faz parte os nossos mais recentes escritores.

Com o intuito de compreender estas questões resolvi realizar recentemente um inquérito literário, formulando assim um pequeno questionário. As perguntas foram: O que singulariza a atual Literatura Brasileira? Quais os seus principais expoentes? O que faz um individuo ser um escritor nos dias atuais?, Quais as principais referências literárias na sua escrita? As perguntas visaram principalmente indicar e compreender o papel dos nossos novos escritores na sociedade brasileira contemporânea.

As perguntas foram enviadas via e-mail, entre os meses de julho e agosto de 2007, para 43 escritores brasileiros – todos eles, nomes destacados do cenário literário brasileiro atual, como Andréa Del Fuego, Bernardo Azenberg, Cíntia Moscovich, Cláudio Daniel, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Nicolas Behr, Nilto Maciel, Fabrício Carpinejar, entre outros, – todos eles, das mais variadas tendências formais, gêneros e lugares do País. Destes 43 escritores, infelizmente apenas 22 responderam.

Um dos questionados que mais interessantemente respondeu as minhas perguntas foi justamente o meu conterrâneo, o escritor, poeta e músico campinense Bráulio Tavares. Logo que mandei o questionário ele assim se referiu: “Obrigado pela consulta. Mas os temas que você propõe são muito amplos, muito sérios, não são coisa que possa ser respondida numa enquête, que a meu ver pressupõe respostas sintéticas, precisas. Eu precisaria escrever, no mínimo, uma das minhas colunas de jornal para responder a cada uma. E ainda assim seria pouco. Se você concordar, farei as respostas e as enviarei aos poucos. Caso você concorde com a publicação no JPB, claro”. Prontamente concordei. E assim pouco a pouco, semanalmente, vieram as respostas em sua coluna no Jornal da Paraíba. Com toda a sua pureza, sabedoria e estilo, características impecáveis da escrita deste grande intelectual paraibano.

Nascido em Campina Grande , na Paraíba, em 1950, filho do também poeta Nilo Tavares, Bráulio morou ainda em Belo Horizonte e Salvador, vivendo atualmente no Rio de Janeiro desde 1982. Poeta, escritor e compositor dos mais respeitáveis do Brasil, Bráulio Tavares é autodidata, sendo um apaixonado por cinema e literatura. È ainda pesquisador de literatura fantástica, cuja compilação sua foi a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992), é ainda colunista de jornal e roteirista de shows, cinema e televisão.

Como escritor suas principais obras são: A Espinha Dorsal da Memória. (Contos. Lisboa/ Rio de janeiro: Caminho, Rocco, 1989,1996), Mundo Fantasmo (Contos. Lisboa/ Rio de janeiro: Caminho, Rocco, 1996, 1997), Como enlouquecer um homem: as mulheres contratacam (Humor. Rio de Janeiro, Editora 34, 1993/1997) , A Máquina Voadora (Romance. Lisboa/ Rio de Janeiro: Caminho, Rocco, 1994, 1997) e ABC de Ariano Suassuna (Antologia. Rio de janeiro: José Olympio, 2007).

As bases reflexivas destes artigos citados a cima deveram fazer parte logo logo quem sabe, – assim como todas as outras entrevistas , – de um escrito, uma espécie de ensaio e inquérito literário misturado, a moda João do Rio, que será intitulado Sacudindo os sentidos do mundo: diálogos com escritores brasileiros contemporâneos.

 

Vamos aos artigos:

 

A dificuldade de escrever

(27 de setembro de 2007).

Braulio Tavares

“Quais são as principais dificuldades de ser um escritor no Brasil?” Imagino uma cena de filme em que um entrevistado ouve essa pergunta, fica em silêncio durante cinco minutos diante das câmaras, ao vivo, e depois murmura: “São muitas… são muitas… Acho melhor ir ser taxista”. Prefiro focar uma questão básica, que se coloca para muita gente que escreve: 1) Ser um escritor tempo integral, e tentar viver da literatura; 2) Ter outra fonte de renda (um emprego fixo) e escrever nas horas vagas. Cada uma tem vantagens e inconvenientes.

A segunda opção foi adotada pela grande maioria dos nossos grandes autores, que eram funcionários públicos, diplomatas, médicos, professores, jornalistas, etc., e não dependiam da vendagem dos seus livros para sobreviver. Isso dá ao autor uma certa liberdade. Ele escreve exatamente o que quer, e se o livro não vender, o prejuízo é da editora, e a pedra de tempo é do livreiro. O Escritor Nas Horas Vagas é num certo sentido um homem livre, que escreve o que lhe dá na telha; por outro lado, perde um tempo precioso de vida literária útil redigindo ofícios administrativos (como Drummond), demarcando fronteiras no meio da selva (como Guimarães Rosa) ou tratando de doentes (como Moacyr Scliar).

À primeira vista, o ideal seria o escritor viver da literatura e para ela. Já pensou, ter como único ofício o trabalho literário, 24 horas por dia, 365 dias por ano? O problema é quando a vendagem dos livros não cobre as despesas de aluguel, supermercado, contas, colégio das crianças. O escritor começa a folhear os suplementos, olhar a lista dos Mais Vendidos: “Hmmm… Parece que livros sobre os Templários estão tendo boa saída…” E aos poucos ele vai resvalando para a primeira opção de quem vive do ofício: fazer, não o que gostaria de escrever, mas o que o público está gostando de ler.

Como sempre, não é possível juntar o melhor de dois mundos. Já vi alguns autores dizerem que a melhor coisa para um escritor é exercer uma profissão que lhe exija atividade física (piloto de lancha, lenhador, etc.) e escrever nas horas vagas, porque aí a escrita vira um descanso. Para estes, passar o dia dando aulas de literatura (ou ralando numa redação de jornal) e tentar escrever à noite é suicídio.

É difícil viver de literatura no Brasil, portanto a opção de viver de outra coisa é a mais prática e a mais sensata. Para adotá-la, no entanto, é preciso ter disciplina e obrigar-se a escrever com regularidade. Escrever muito, e publicar apenas os 10% que parecerem de melhor qualidade, não importa se são vinte páginas por mês ou por ano. As principais dificuldades de ser escritor não têm nada a ver com o Brasil, ou com a China ou com o Haiti. Os problemas do escritor são parecidos no mundo inteiro e começam todos em casa, ou seja, dentro da cabeça dele. Se um escritor conseguir resolver os problemas que ele próprio se cria, já tem mais de meio caminho andado.

A literatura do presente

(3 de Outubro de 2007)

Braulio Tavares

Um entrevistador me pergunta: “Quem você destacaria na atual Literatura Nacional?”. Pergunta difícil, a começar pelo fato de que eu não considero que há uma literatura atual e outra que não o seja. Para mim, a Literatura é o conjunto de textos disponíveis. A literatura brasileira envolve desde Gregório de Matos até o jovem poeta que acaba de publicar seu primeiro livro de tentativas. Um não é mais atual do que o outro, e há muitas chances de que Gregório de Matos se mantenha atual por mais tempo do que muitos poetas que estão vivos, inclusive eu próprio.

Para mim a literatura se compõe em primeiro lugar de livros, e só depois de autores. Por isto, trato em pé de igualdade Machado de Assis e Rubem Fonseca. Não importa se um já morreu e o outro está vivo, e sim que seus livros estão lado a lado na livraria, na biblioteca, na minha estante. Os livros estão “vivos e bulindo”, e para mim é isto que constitui a atualidade da literatura.

Suponhamos, então, que a intenção da pergunta seja de recensear os autores surgidos recentemente, os que começaram a publicar há pouco tempo e que por isto podem ser vistos como novidade, renovação, algo diferente. Aí tenho de confessar algo que não pega bem para um jornalista e aspirante a crítico literário, como é o meu caso. Mas o fato é que eu não dou a menor atenção aos novos escritores que estão surgindo. Não porque julgue que são maus autores, longe disso. Penso até que estou perdendo coisas muito interessantes quando passo semanas inteiras mergulhado em livros obscuros do século passado. Mas não tenho o objetivo de me manter em dia com a produção editorial, como acontece com os jornalistas de redação, os que todo dia no jornal recebem exemplares para resenha, enviados pelas editoras. Cabe a estes dar conta ao leitor das novidades que surgem no mercado. Nada tenho contra isto, até porque sou um beneficiário direto, já que sou leitor dos cadernos literários da grande imprensa.

Só para dar uma idéia: nunca li nenhum livro de Milton Hatoum, João Paulo Cuenca, Marcelo Mirisola, Marçal Aquino, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Bernardo Carvalho, Luís Ruffato, Alberto Mussa… Estou citando autores surgidos nos últimos dez ou doze anos. Por que nunca os li? Porque acho que não são bons? Pelo contrário. Conheço pessoalmente alguns deles, e o que tenho ouvido sobre a obra de todos é, em geral, muito elogioso. Mas eu não pesquiso o momento atual da Literatura Brasileira; leio obras em torno de algo que estou escrevendo no momento. Como acabo de lançar uma antologia de contos fantásticos, nos últimos doze meses li centenas de contos de terror do século 19. Para escrever um livro sobre Ariano Suassuna, li mais algumas dúzias de livros relacionados. São leituras de trabalho, notas ao pé da página para meus próprios livros. Tem momentos na vida em que o sujeito só lê o que vai para seus próprios livros, não tem tempo de ler livros que não são seus.

O que faz escrever

(9 de outubro de2007)

Bráulio Tavares

Todo escritor se depara de vez em quando com a obcecada pergunta: “O que o faz escrever? Ou seja, qual a sua principal motivação enquanto escritor?” Se fizéssemos a pergunta equivalente a um camioneiro, a um alpinista, a um político, a um médico, talvez encontrássemos algumas das respostas que os escritores nos dão. Assim como um camioneiro, um escritor gosta de tentar reunir o máximo de duas coisas antagônicas: liberdade e responsabilidade. Ele gosta dos grandes espaços abertos (do espírito, no seu caso), do desafio constante de ir a lugares onde nunca foi, da excitação de rever lugares onde passou muito tempo atrás, e durante todo o tempo sentir-se responsável por algo muito valioso que não lhe pertence (uma tradição literária) mas da qual ele é, naquele instante do seu trabalho, o único defensor e guardião.

Assim como um alpinista, o escritor é seduzido pela possibilidade de ser O Maior, de atingir alturas que os seres humanos comuns nunca alcançaram. Ele sabe que quanto mais sobre mais seu raciocínio fica inebriado pelo ar rarefeito; que corre o risco de morrer de solidão e de frio; que um passo em falso pode precipitá-lo no abismo. Mas ele sempre acredita que pode dar mais um passo, ou seja, que pode escrever mais uma página.

Um político dirá que tem uma responsabilidade para com um grupo de pessoas que acreditam nele, acreditam na sua capacidade de fazer coisas importantes e de melhorar o mundo. Pouco importa se o mundo tem sido muito pouco melhorado, seja por políticos, seja por escritores. O importante é achar que, se há ainda muita coisa a ser feita, nada melhor do que alguém candidatar-se a fazê-la. Enfim: cada profissional tem razões múltiplas para fazer o que faz, mas ao que parece é apenas aos escritores que se faz essa pergunta. Parece que seguir qualquer profissão é algo óbvio, cuja necessidade não precisa ser explicada, mas ser escritor é uma missão misteriosa, desnecessária e que deve ser justificada tintim-por-tintim..

Talvez a melhor resposta, para qualquer profissão, seja: faço isto por que gosto, e porque é o que sei fazer melhor. Jogadores de futebol dizem isto o tempo inteiro: “Sou um sujeito de sorte, porque me pagam um bom salário para que eu faça a coisa que mais gosto”. Ninguém pergunta a um jogador por que motivo ele joga. Pressupomos que ele descobriu em si mesmo aquela habilidade, e que não viu motivo para se dedicar a outra coisa.

Com um escritor dá-se o mesmo. Ele descobriu muito cedo que 1) gosta daquilo; 2) sabe fazer aquilo bem; 3) vê naquilo a possibilidade de juntar duas coisas importantes, o útil e o agradável, ou seja, uma profissão que lhe dê sustento e uma atividade prazerosa que lhe dê algum tipo de realização pessoal. Escritores, no entanto, criam para si mesmo a imagem de alguém que sabe respostas secretas e bombásticas sobre as perguntas mais banais. Podem até saber, mas a resposta que melhor os explica é esta aqui acima, a mais banal de todas.

 

Referências literárias

(27 de Outubro de 2007)

Bráulio Tavares

“Quais as referências literárias da sua escrita?” A resposta que damos a esta pergunta revela mais sobre nossas fantasias do que sobre nossa prática. Vejo muitos poetas jovens sendo entrevistados, mercê da publicação de seu primeiro livro, e quando lhes perguntam suas referências literárias, ou os autores que os influenciaram, abrem um leque impressionante: “Fui muito influenciado por Dante, Homero, Camões, Garcia Lorca, Pablo Neruda, Rimbaud, Baudelaire, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral e Mário Quintana”. Eu tenho vontade de cair ajoelhado no chão e gritar: “Caramuru! Caramuru!”

Será possível que um único poeta consiga ter influência simultânea de tanta gente, e de gente tão diferente entre si? Duvido muito. Quando o jovem poeta confessa que leu esse pessoal está afirmando que sentiu-se emocionado e transformado pelo que leu, e que ao escrever tem a ambição íntima de causar nos seus futuros leitores o mesmo tipo de emoção e de transformação. É a isto que ele chama “influência” – o fato de que a leitura daqueles autores o modificou pra sempre.

A palavra influência nos induz a pensar em ascendência, poder. É a pressão de uma personalidade mais forte sobre uma mais fraca, dizendo-lhe o que dizer, e como. Mesmo ausente, mesmo manifestando-se apenas através da obra, a personalidade mais forte encontra pouca resistência naquele espírito geralmente jovem, ávido de experiências, ansioso para dizer algo mas sem saber o quê e como. O jovem leitor de Baudelaire torna-se um psicógrafo de Baudelaire, mesmo que o que há de Baudelaire em seus escritos seja imperceptível, ou seja redundante. O jovem cineasta defende-se das críticas com veemência: “Claro que a câmara está tremendo, e com a luz estourada! É Glauber!”

Não é Baudelaire e não é Glauber, mas não é esse o problema. O problema é que na obra também não se percebe o Fulano que fez aquilo. As influências estilísticas são as mais difíceis de domesticar, porque nos autores de origem aqueles recursos exprimiam uma visão das coisas, e na obra dos influenciados exprimem apenas a ausência de uma visão qualquer.

Quando admiramos algum aspecto técnico da obra de um artista, deveríamos nos dedicar a copiá-lo, a reproduzi-lo, até sermos capazes de dominá-lo. Mozart era capaz de imitar e parodiar qualquer compositor de sua época. Hunter Thompson decorava e datilografava textos inteiros de Hemingway, para absorver seu ritmo. A obra dos Beatles é um vasto panorama de técnicas alheias copiadas tintim por tintim. Uma influência é como um cavalo selvagem, que joga você no chão cada vez que você tentar obrigá-lo a ir para onde você quer. Mas ela pode ser domesticada, pode ser transformada em técnica, recurso, instrumento que utilizamos quando precisamos de uma voz narrativa específica, de um timbre sonoro, de um colorido, um tema. Deveríamos poder dizer algo como: “Dez por cento do que faço eu peço emprestado a Baudelaire, a Fellini, a Portinari”.

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