Frases sobre Autoconhecimento

julho 24, 2009 at 2:18 pm (Relicário de Frases, Uncategorized)

sem titulo

AUTOCONHECIMENTO

Ninguém pode abrir sozinho o seu túnel pessoal para a claridade do dia, sem o risco de morrer sob os entulhos.

Aníbal Machado (1894-1964) Escritor Mineiro (Cadernos de João).

Uma das mais belas aventuras que o homem pode empreender é velejar dentro de si mesmo e explorar seus territórios mais ocultos.

Augusto Cury (1958-) Psiquiatra e Escritor Paulista ( Análise da Inteligência de Cristo).

Cada um sabe a dor e a delícia do ser que é.

Caetano Veloso (1942-) Cantor e Compositor Baiano (Da Canção: Dom de Iludir).

Ninguém se torna sábio na escola primária das circunstâncias de fora -mas sim na universidade da sua substância de dentro.*

Huberto Rohden (1893-1981) Escritor e Filósofo Catarinense (Porque Sofremos).

Creio que uma pessoa só se percebe quando apaga a luz do seu quarto e fica só diante de si mesmo.

Jorge de Andrade (1922-1984) Dramaturgo Paulista (Extraído do Livro Viver e Escrever, de Edla Van Steen).

Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.

Manuel de Barros (1916-) Poeta Mato-grossense (O Livro das Ignoranças).

Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.

Paulo Leminski (1944-1989) Poeta e Compositor Paranaense (Envie Meu Dicionário).

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A TRANSNEGRAÇÃO: ARNALDO XAVIER E O SEU LUGAR DE MARGINALIDADE NO CAMPO LITERÁRIO BRASILEIRO.

fevereiro 25, 2009 at 6:37 pm (Ensaios, Uncategorized)

arnaldo-xavier

1. INTRODUÇÃO.

Há cerca de dois anos iniciei uma pesquisa referente à história do movimento cineclubista em Campina Grande[1]. Nesta pesquisa acabei conhecendo pessoalmente vários dos ex-cinelubistas campinenses nas décadas de 1960 e 1970, entre eles o jornalista Aderaldo Tavares. Em conversas várias que tive com ele, a maioria informais, havia sempre uma referência efusiva a um dos seus companheiros da época, um poeta que pertencera ao cineclube Glauber Rocha, e que seria um dos mais brilhantes participantes daquela geração. Seu nome: Arnaldo Xavier.

Arnaldo França Xavier nasceu no bairro de Santo Antonio, em Campina Grande, na Paraíba, em 19 de novembro de 1948. Além de participar do Cineclube Glauber Rocha, tendo como companheiros nomes como José Neumanne Pinto e Agnaldo Almeida, além do já citado Aderaldo Tavares, o poeta pertenceu ao Grupo Levante, de tendência Marxista. Ainda jovem, migrou para São Paulo, cidade que jamais abandonaria e pela qual sempre nutriu uma grande paixão. O escritor estreou na poesia com 25 anos, na série Violão de Rua, publicada no início da década de 60, pelo CPC- Centro Popular de Cultura- da UNE.

O poeta campinense publicou ainda os livros de poemas Boleros Pretos, A Roza da Recvsa, e Ludlud, deixando ainda inédito um livro de poemas chamado HEKATOMBLU. Além da poesia, Xavier lançou em 1988, em parceria com Luiz Silva Cuti e Miriam Alves a peça Terramar, e em 1993 publica o livro Manual de sobrevivência do negro no Brasil, ilustrado pelo chargista Maurício Pestana.

Diante da descoberta de Arnaldo Xavier percebi a necessidade de estudar a sua obra e o seu papel na literatura brasileira. Desta forma, a finalidade deste artigo será investigar o lugar de Arnaldo Xavier no campo literário brasileiro e na própria literatura afro-brasileira durante a década de 1990. Antes de tudo é necessário deixar bem claro que este trabalho esta no processo inicial de seu desenvolvimento, e abordará de forma genérica a questão, trazendo apenas reflexões com diálogos permanentes com outros estudiosos da obra de Arnaldo Xavier, a exemplo de Vinícius Lima. Um trabalho deste se justifica devido ao ostracismo da qual a obra deste poeta campinense é vítima em especial na cidade de Campina Grande, sua cidade natal.

Com relação à abordagem teórica trabalharemos com a concepção de campo de produção cultural segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieau. Antes de falarmos sobre as características da própria obra de Arnaldo Xavier vamos compreender as definições de Bourdieau de campo literário.


2. CAMPO DE PRODUÇÃO CULTURAL.

A noção de campo de produção cultural, criada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieau, pode ser compreendida como um espaço social onde estão situados os que produzem obras (escritores, poetas, jornalistas, etc.) e o valor intrínseco destas mesmas obras, em relações recíprocas no transcurso de suas atividades. Para o sociólogo, autor de um conjunto de obras bastante diversificada, que abrangeu, durante décadas, temas que foram desde moda até as epistemologias das ciências humanas, alguns pressupostos devem ser inicialmente entendidos quanto aos princípios da construção do conceito. O primeiro se refere aos rompimentos com referências comuns ao mundo social e à literatura, como “meio”, “contexto” ou “pano de fundo”, nas quais, segundo Bourdieu (2004) a história social da arte e da literatura se contenta.

A essência do conceito está na concepção que todo campo tem seus “dominantes e seus dominados, seus conservadores e sua vanguarda, suas lutas subversivas e seus mecanismos de reprodução” (BOURDIEU, 2004, p.170). Portanto, há uma aproximação por parte de Bourdieu entre o campo literário com o campo político, visto que, segundo o sociólogo, tanto um campo como o outro, trata-se entre suas práticas de uma questão de poder. “Aqui como em outros lugares observam-se relações de força, estratégias, interesses, etc.,” (Idem, p.170).

Estas relações de força podem ser exemplificadas muitas vezes nas próprias regras que são criadas para a publicação, por exemplo, quando um autor consagrado faz um comentário positivo ou um prefácio elogioso, a um livro de estréia de jovem escritor ainda desconhecido. A estratégia existiu e implicou certos interesses políticos internos dentro do próprio campo. Esta estratégia esta ligada à questão do reconhecimento de uma obra e da entrada de seu autor por parte do campo. Portanto existem traços equivalentes entre o campo político e o literário. Nas palavras de Bourdieu (2004)

O campo literário é simultaneamente um campo de forças e um campo de lutas que visa transformar ou conservar a relação de forças estabelecida: cada um dos agentes investe a força (o capital) que adquiriu pelas lutas anteriores em estratégias que dependem, quanto á orientação, da posição desse agente nas relações de força, isto é, de seu capital especifico. (Bourdieu, 2004, p.172).

O capital simbólico, citado acima, seria o capital de reconhecimento ou de consagração, institucionalizada ou não, que os diferentes agentes e instituições conseguiram acumular no decorrer das lutas anteriores, ao preço de um trabalho e de estratégias especificas. O campo seria então um conceito que relaciona as bases de relação entre os indivíduos e seus mesmos, pois o campo de produção cultural é um espaço social que reúne diferentes grupos de literatos, romancistas e poetas, que mantêm relações determinadas entre si e também com o campo do poder, pois ninguém pode se colocar fora de um campo literário. Mesmo aqueles que vão de encontro às regras estabelecidas das letras, se encontram dentro de um campo diverso e de negação das unidades intelectuais formais.

A teoria do campo literário de Bourdieu pode ser visto como uma tentativa de evidenciar que ali onde pensávamos que havia um sujeito livre, agindo de combinação com sua pretensão mais imediata, na verdade o que existe é um espaço de forças estruturado que molda a capacidade de ação e de decisão de quem dele faz parte. É, pois, contra certa concepção de autonomia do sujeito que Bourdieu se insurge de modo enfático. E, ao longo de seu trajeto intelectual, ele elegeu sucessivos objetos onde seria admissível detectar a validade de uma subjacente rede de relações coagindo os sujeitos: a educação, a moda, a televisão, a produção intelectual e artística de uma época etc.

Desta maneira, o que se entende é que Bourdieu compreende então a sociedade como um campo de batalha operando com base nas relações de força manifestadas dentro da área de significação. Atitudes, práticas, grupos de poder e decisão, estruturação de imagens informam o campo ideológico de uma dada cultura e, para compreendê-lo o sociólogo reconduz, de forma original, o estudo da simbolização às suas bases sociais. Desta maneira, a “sociologia simbólica”, no dizer de Miceli (2005) de Bourdieu considera a cultura como um instrumento de poder, isto é, de legitimação da ordem vigente.

A aproximação com o pensamento de Chartier é exemplificada na noção de lutas dos grupos de agentes cujos interesses materiais e simbólicos representação a autoridade sobre uma representação. É o poder de certas classes ou grupos sociais de criar determinadas representações do mundo; representações essas que os agentes incorporam, capazes de propiciar justificativas simbólicas para a posição que ocupam. Para Bourdieu (2005) as representações possuem uma existência material e, em geral, traduzem-se em atos e práticas.

As leis que regem o acesso e o êxito no campo intelectual e artístico estudados por Bourdieu através de seu estudo sobre a obra de Flaubert e a sua posição enquanto escritor no século XIX, na França, traduzem sua preocupação neste sentido, pois para ele

(…) é preciso situar o corpus assim constituído no interior do campo ideológico de que faz parte, bem como estabelecer as relações entre a posição deste corpus neste campo e a posição no campo intelectual do grupo de agentes que o produziu” (2005, p.186).

Bourdieu fala, ainda, em uma Ciência rigorosa dos fatos intelectuais e artísticos que teria três momentos necessários: 1) uma análise da posição dos intelectuais e dos artistas na estrutura da classe dirigente; 2) uma análise da estrutura das relações objetivas entre as posições que os grupos colocados em situação de concorrência pela legitimidade intelectual ou artística ocupam num dado momento do tempo na estrutura do campo intelectual; 3) Construção do Habitus como sistema das disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes.

Um conceito-chave para a compressão do pensamento de Bourdieu e sua noção de representação social, é o de Habitus. Para o sociólogo Habitus seria um “(…) sistema das disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o principio gerador e unificador do conjunto de práticas e das ideologias características de um grupo de agentes.” (2005, p.191).

Esse conceito permite entender as relações que os grupos de coisas assim classificadas mantêm uns com os outros, sendo a reprodução social, que é um efeito desta relação, um papel estratégico que o processo de socialização desempenha através das agências educativas, seja o sistema de ensino, seja através dos meios de comunicação de massa, seja a inculcação familiar.

Uma das formas de poder dentro do campo intelectual é justamente a escrita e a leitura. Sua prática representa então uma maneira de designar certos habitus socialmente constituídos, condições inerentes à posição ambígua da fração intelectual e artística na estrutura das frações das classes dominantes.

3. A TRANSNEGRAÇÃO

A literatura de Arnaldo Xavier é definida pelos poucos críticos que o analisaram como sendo uma literatura engajada, centrada na denúncia social e na valorização do negro na literatura afro-brasileira. Poeta de linguagem experimental Xavier acabou infelizmente figurando a margem do cânone literário brasileiro e, paradoxalmente, da literatura afro-brasileira fruto da polêmica postura que este teve frente à cultura brasileira e a literatura negra mantendo um diálogo com as poesias visuais, principalmente com o Poema-Processo e a Poesia Práxis, desenvolvendo, portanto uma obra de cunho intersemiótico, como bem se referiu Vinicius Lima.

Outra característica de sua poesia é a presença constante da ironia e da postura irreverente e mordaz da sociedade brasileira. Este humor ferino é uma herança do negro abolicionista Luiz Gama, sua principal referencia literária e militante. Nas palavras de Vinicius Lima, até o momento seu principal comentador e analista literário, “Xavier destrói/constrói a linguagem, deformando as frases feitas, os ditos populares, sempre lançando mão da ironia e humor. Arnaldo Xavier trabalha o poema como um objeto lúdico, brincando com as sonoridades das palavras.” Um exemplo que podemos citar é este poema:

subsenhor                    Filá amarelo brasa  esconde  2 olhos     3  dentes

apocalíricos cravados     costela por  costela    como se escada caminho

fosse encruzilhada     Totem destrói Tabu       Terrestre demole Celeste

Cômico come Cômico                  Denotativo detona Conotativo    Yin

defloradentra   Yang     Abutre dilacera Abutre   NegrRo engole Grego

(XAVIER, 1997: 18).

Como se percebe um jogo semiótico complexo em sua poesia, marcada pelo experimentalismo. Todavia, de todos os seus livros o mais conhecido é o Manual da Sobrevivência do Negro no Brasil, obra de cunho extremamente crítico. Lançado em 1993 o livro permanece até hoje esperando uma análise amais profunda de sua importância. Podemos considerar Arnaldo Xavier como um poeta marginal na acepção mais precisa da palavra. Ele mesmo se referiu a sua militância literária e negra como sendo Trasnegração.

Falecido em 2004, e vitima injusta de um estranho ostracismo, desde que tive contato com a historia de vida e principalmente a sua obra, me vi na necessidade e obrigação intelectual de reaver a importância deste poeta injustamente esquecido. Militante negro, vanguardista literário, Arnaldo Xavier merece ser conhecido e reconhecido por suas atividades de militante literário e negro no Brasil.

O seu poema, Sem título, criado em comemoração aos 100 anos da abolição da escravatura em 13 de maio de 1888 mostra como é possível fazer a crítica social, uma poesia engajada sem abandonar a preocupação estética e experimental da poesia. Passados 100 anos da abolição Xavier denuncia as condições sociais e econômicas dos negros do Brasil, gritando com cores aberrantes e com um jogo semiótico belíssimo de cruzes as falhas dos governos neste mesmo período. É bom lembrar que na época em que Arnaldo Xavier produziu o seu poema Sem Título, estávamos no auge do debate sobre a construção do texto da constituição brasileiro de 1988, num período de debate e de luta das chamadas minorias, entre elas os negros e os índios.

O poeta utiliza-se do caligrama, um estilo de poema figurativo  muito utilizado ao longo de toda história da poesia visual e que consiste na disposição tipográfica das palavras, letras, e neste caso, de números, de forma a obter uma sugestão figurativa semelhante ao que está sendo tratado no poema como tema. Como paraibano ilustre, e desconhecido que é, acredito que um dos méritos deste evento será reerguer a memória deste poeta, que em minha opinião merece dignamente uma homenagem, a alusão ao seu nome, aos seus feitos. Penso que uma das minhas funções aqui na terra é essa: mostrar a importância deste homem.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Como já nos referimos no tópico sobre as noções de campo de produção cultural, uma noção idealizada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieau, o jogo de relações de força exercida pelos sujeitos participantes podem fazer que um escritor possua uma carreira de visibilidade ou não, conquistando assim sucesso e representação dentre os membros. No campo literário há os dominantes e os dominados, os conservadores e os de vanguarda, as lutas subversivas e os mecanismos de reprodução cultural. Arnaldo Xavier preferiu seguir a tribo dos transgressores, dos polêmicos, dos exprementalistas.

O campo de produção cultural é um espaço social que reúne diferentes grupos de literatos, romancistas e poetas, que mantêm relações determinadas entre si e também com o campo do poder, pois ninguém pode se colocar fora de um campo literário. Mesmo aqueles que vão de encontro às regras estabelecidas das letras, se encontram dentro de um campo diverso e de negação das unidades intelectuais formais. Arnaldo Xavier através de sua militância negra, chamada por ele inclusive de Trasnegração e de sua poesia totalmente diferente de tudo que já foi produzido na História da literatura brasileira optou por uma poética crítica e semiótico. Desta maneira, compreendemos que as posições radicais de Arnaldo Xavier frente à cultura brasileira e a literatura negra o conduziram a uma condição de marginalidade dentro do cânone literário brasileiro e da própria literatura afro-brasileira.

5. REFÊRENCIAS BIBLIOGRAFICAS:

AUGUSTO, Ronald. Axévier, contralamúria. Germina Literatura, ano III, edição 21. São Paulo, Nov. / Dez 2006. Disponível em: <http://http://www.germinaliteratura.com.br/literaturara_nov2006.htm&gt; . Acesso em: 21 jan. 2008.

AUGUSTO, Ronald. Dois toques sobre Arnaldo Xavier (1948-2004) http://poesia-pau.blogspot.com/2008/09/dois-toques-sobre-arnaldo-xavier-1948.html.Acessado em 21 de Setembro de 2008.

BOURDIEU. Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo, Perspectiva, 2005.

BOURDIEU, Pierre. O Campo Intelectual: um mundo à parte. IN: Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004. P.169-180.

FILHO, Domício Proença. A trajetória do negro na literatura brasileira. Estud. Avenida,  São Paulo,  v. 18,  n. 50,  2004.  Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100017&lng=en&nrm=iso&gt;. Aceso em: 31  Jan.  2008.

LIMA, Vínicius. A Transnegressão de Arnaldo Xavier IN:  http://www.cronopios.com.br/blogdotexto/blog.asp?id=2456. Acessado em 18 de Março de 2008.

XAVIER, Arnaldo F. LUDLUD. São Paulo: Casa Pyndahyba, 1997.


[1] A História do Cineclubismo em Campina Grande tem sua origem no ano de 1964, com a criação do Cineclube Campina Grande. anos depois foi criada o cineclube Glauber Rocha, com características mais politizadas.

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CRÔNICA DA ÁRVORE ANGUSTIADA

novembro 16, 2008 at 4:11 pm (Uncategorized)

vladimir-kush

“Quando os homens não olham para a natureza, julgam sempre poder melhorá-la.”

(John Ruskin)

Olhando certos humanos que atravessam displicentemente as ruas desta cidade onde vivo, percebo a maldita indiferença que ambos nutrem por mim. Eu um pobre ser indefeso, uma árvore solitária, centenária, que vive enclausurada na dor, longe de todo aquele ambiente lindo, lírico da qual vivia há décadas passadas. Tempos em que a terra habitava os meus pés; anos em que a chuva jorrava tranqüila o seu liquido mais delicioso… em meus cabelos verdes… em meus pequeninos frutos vermelhos.

Antes a chuva era muito mais abundante e generosa em sua dádivas, além disso, era carinhosa e de um cheiro doce que embriagava a todos os seres naturais ao redor. Hoje a ela é rara e muito diferente destes tempos atrás da qual me refiro. Parece ser apenas um simples molhar desenfreado e sem nenhum tipo de lirismo e paixão, nem cheiro possui mais os pinginhos. Suponho que a natureza se vendeu de vez ao caos em que tudo está inundado, com essa crise ética da humanidade, marcado pelo desrespeito ao meio ambiente. A minha natureza amada da qual sou representante está a sofrer. Pobre de mim!

O calor atual queima os meus frutos, e minha pele já não suporta mais o terror dos mormaços, provenientes dos maus tratos que os homens vêem cometendo com o planeta terra ao longo principalmente destas ultimas décadas. Minhas folhas ressecam facilmente, meu grosso e velho tronco, abruptamente se descasca, se desfragmenta em pedaços mortos, que se espalham pela calçada. Estou num processo initerupto de destruição. Sinto meu fim.

Sou centenária, tenho mais anos de vida do que qualquer humano passante aqui neste momento, nesta rua infeliz, de uma cidade qualquer. E como estes pobres velhos que moram na minha esquina em um asilo imundo, vivo numa solidão absurda, sofrendo em desesperos com a falta de zelo, carinho e amor. No desamparo quase total. Sofro com a indiferença constante até dos animais.

Lembro-me com muito carinho de um cachorrinho, de pêlos brancos e pontos negros na nuca que todos os dias pela manhã bem cedinho vinha me cumprimentar com seu líquido amarelo. Eu me deliciava com sua alegria contínua, com o morno do seu mijar, vendo o seu rabinho balançando devagar em círculos de felicidade. Eu me sentia dono daquele pequeno animal, tão lindinho, e ele com certeza, sentiam-se também dono de mim. Era a comunhão com a natureza. Eu me achava amado naqueles tempos. Hoje, ninguém olha mais para mim. Onde estão os pássaros desta cidade meu Deus? Os canarinhos, as pita-silvas, os simples pardais, e tantos outros que passeavam animados por minhas madeixas verdes, cantando alegremente suas músicas coloridas em meio aos meus pequenos frutos.

Oh que tempos bons eram aqueles! Em que a natureza ainda se manifestava límpida nesse universo urbano, agora uma louca e desumana selva de pedras, cheio de carros, poluição e pessoas indiferentes e mal-educadas. Como eu queria viver novamente, com aquela natureza linda, colorida, ao meu redor, tempos em que eu era apenas uma pequena plantinha, simples e feliz, que crescia delicada numa floresta calma, próxima a uma pequena vila. Eu era feliz e não sabia. Hoje, velha, sofro os descaminhos de uma cidade que não olha nem pra si.

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Hello world!

julho 4, 2007 at 2:58 pm (Uncategorized)

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