O corpo da solidão.

agosto 31, 2008 at 10:19 pm (Contos)

Em mais um relatório de movimentações do Banco Nacional, Ricardo Assunção encontrou em meio à relação dos maiores investidores o nome de uma senhora riquíssima que a cerca de quatro anos não movimentava a sua conta. Achara estranha tão atitude. Nunca em sua história de bancário soubera de ninguém, absolutamente ninguém que passara tantos anos sem uma única movimentação de dinheiro, quanto mais uma quantia tão elevada como aquela, cerca de 800 mil reais, e o mais estranho ainda, sem nunca ter inclusive se dirigido ou ligado ao Banco para se informar por ventura o que a instituição estava a fazer com a sua pomposa fortuna.

Decidiu Ricardo então investigar. Pegou o maior número possível de informações sobre a senhora desaparecida. Nome, endereço, históricos das movimentações, tudo, (menos  telefones, que mais estranho não havia), – fez cópia dos poucos saques de cinco anos atrás, – e cada vez mais achava “estranha aquela história.” Decidiu então chamar seu fiel escudeiro no banco, o amigo de longa data, conhecido em toda a cidade por Seu Odílio Pessoa. Um homem forte e determinado, que com certeza não se negaria a lhe ajudar nesta tarefa de investigador.

Os dois entraram juntos no Banco há cerca de 20 anos atrás. Cresceram na profissão, ainda jovens, na década de 1980. Hoje, um é Gerente administrativo, o outro Gerente geral, que é o caso de Ricardo. Ambos com carreiras de prestígios no mercado financeiro. Ricardo contou minuciosamente toda a história ao amigo, nos mínimos detalhes, inclusive mostrando algumas faturas copiadas. As desconfianças e as possibilidades de um “bom negócio” surgiram naquele momento, e tornaram-se cada vez mais objeto de uma enorme curiosidade. Odílio também achou bastante curioso “aquela história”, e então decidiram juntos investigar. Além do mais, o “Banco deve se importar com seus clientes”- dizia Odílio, “principalmente aqueles que têm uma bela quantia em suas contas”– respondeu Ricardo, rindo.

A senhora, de nome Severina Maciel, residiria de acordo com o último endereço do cadastro em um bairro na saída da capital paulista, num apartamento luxuoso, na Avenida Sul, 440, a cerca de dois quilômetros da Agência do Banco onde trabalhavam. Decidiram então irem juntos à hora do almoço procurar sentidos para aquela história que muito os intrigavam. Viram a possibilidade inclusive de convencê-la, – quem sabe, – a investir mais dinheiro em outros programas do Banco, além da conta-poupança, da qual era titular, e que de maneira geral trazia não muitos lucros para ambos. Chegando ao bairro determinado, saíram perguntando em alguns lugares próximos, entre bancas de revista e restaurantes, onde se encontrava o residencial Vale Brazil. Encontrado o local. Desceram do carro, e foram em direção ao guichê de segurança. Lá encontraram um homem bem vestido. Um negro alto de fisionomia séria, como boa parte dos seguranças destes residenciais de luxo.

– Bom dia rapaz, nós gostaríamos de falar com a senhora Severina Luísa Maciel, por favor. Falou Ricardo.

– Só um momento, respondeu de dentro do guichê o segurança.

Depois de alguns minutos folheando papéis que estavam em cima de uma pequena mesa dentro do guichê, o segurança começou a ficar visivelmente preocupado, demonstrando em uma fisionomia algo de nervoso. Fez uma cara estranha, pensou alguns minutos, e se voltou novamente para os dois homens distintos para dizer:

– Olhe, veja bem… Aqui ta dizendo que essa senhora mora realmente aqui neste Residencial, mas assim, eu trabalho aqui a cerca de três anos, mas eu nunca a vi em minha vida. Parece que ela nunca sai de casa, do apartamento dela, que fica no segundo andar, não tem parentes, nem amigos, e o mais estranho ainda, ela não recebe visitas. Nunca vi ninguém procurar ela por aqui. Vocês foram os primeiros. Na verdade eu havia até esquecido dela… Vocês são parentes?

Mais perplexo ainda Odílio respondeu, olhando com a sobrancelha levantada para seu amigo Ricardo.

– Sim… Que dizer, não. Somos amigos. Apenas amigos.

Foi então que o segurança perguntou:

– Vocês querem subir?

– Claro, respondeu os dois quase em uníssono.

Foi então que o segurança tentou ligar para o apartamento de Dona Severina. Enquanto isso Odílio continuava olhando com a sobrancelha levantada para Ricardo, bastante desconfiado. Mas durante dois minutos ninguém atendeu.

– Rapazes… Acho que teremos que subir juntos, acredito eu que aconteceu alguma coisa com a senhora Severina, ela não atende ao interfone. Preciso saber se ela esta bem. Vamos lá?

Foi então que os três subiram juntos no elevador do edifício, todos calados, sem olhar um para o outro, imaginando o que deveria ter acontecido. Chegando ao apartamento de número 203, o segurança começou a bater na porta chamando:

– Dona Severina! Dona Severina! A senhora está ai?? Tudo bem com a senhora? Temos visitas aqui…

Mais nada saia de lá de dentro, nem um sussurro, nem um grunido que fosse. Apenas um silêncio…um silêncio…

Não deu um minuto, e abruptamente o Segurança com um chute forte abriu a porta do apartamento. E lá estava… um corpo já ressecado pelo tempo de uma velhinha no sofá. As mãos jogadas, a cabeça a direita colocada. Parecia sorrir embrulhada em um suéter de lã cor aparentemente verde. A casa estava totalmente imunda cheirando a mofo, mas ainda mantinha certo requinte. Havia castiçais por toda parte, alguns pareciam ter sido acessos há vários anos. Pelo jeito aquela senhora havia morrido a cerca de quatro anos, justamente quando parou de movimentar sua conta, de pegar mensalmente seu rico dinheiro no Banco.

Ricardo, Odílio e o segurança ficaram perplexos, parados na frente do corpo. Quando os três se aproximaram do cadáver bem devagar, Ricardo encontrara entre os dedos finos e comidos da velhinha um bilhete. Lento ele abriu o papel, enquanto Odílio observa um quarto da casa, próxima da sala…Foi quando o choro veio nos olhos de Ricardo, e auto, visivelmente alterado e sensibilizado o mesmo leu: “estou só como nunca se viu, não desejo morrer assim, sozinha, unutil, preciso de alguém…como dói este vazio que habita meu velho peito” Chorando, desta vez com sussurros descontrolados, e consolado por Odílio, sobre o olhar triste do segurança, Ricardo sentiu pela primeira vez a dor de ter perdido alguém que nunca havia conhecido.

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O JOVEM COMPOSITOR

agosto 27, 2008 at 1:52 am (A Carne da Fábula)

O silêncio vazou devagar, abandonando entre as linhas das mãos, os papéis, e o lápis, já manchados pelos ares pesados de uma cor ausente. Na mesinha papéis amarelados encolhidos por décadas de desamparo. Na cama o velho violão, pasmo pela indiferença do olhar do dono. Na sala apenas os gritos da televisão que imaginavam uma paz solitária que nunca existira. Ao som de uma propaganda de carros a noite escutou a única lágrima caída no papel, e já dormindo na alta noite  o silêncio  vazio do rosto já vermelho de Otto  comia a própria sombra. Houve um remorso de vidro sem música na luz da janela.

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Frases sobre o Jornalismo.

agosto 16, 2008 at 2:48 pm (Relicário de Frases)

JORNALISMO

Não se pode dizer que a imprensa de determinado país ou região é ruim ou boa.

Ela é reflexo e segmento da própria sociedade a que serve.

Alberto Dines (1932-) Jornalista Carioca (O Papel do Jornal).

O jornalismo brutaliza as pessoas, mas ao mesmo tempo as torna mais ligadas à realidade.

Bernardo Ajzenberg (1959-) Jornalista e Escritor Carioca (Extraído do Livro: Pena de Aluguel, de Cristiane Costa).

Em quarenta anos de jornalismo nunca vi liberdade de imprensa. Ela só é possível para os donos de jornal.

Cláudio Abramo (1923- 1987) Jornalista Paulista (A Regra do Jogo).

Ao lado da medicina e da prostituição, o jornalismo é a carreira que melhor familiariza a criatura humana com as misérias da sua condição.

Ledo Ivo (1924-) Poeta e Romancista Alagoano (Confissões de um Poeta).

Em nenhum país de grande literatura deixa de haver grande jornalismo.

Medeiros e Albuquerque (1867-1934) Escritor e Jornalista Pernambucano (Extraído do livro Pena de Aluguel, de Cristiane Costa).

A história da imprensa é a própria história do desenvolvimento da sociedade capitalista.

Nélson Werneck Sodré (1911-1999) Historiador Carioca (História da Imprensa do Brasil).

A glória da imprensa foi feita por gente com opiniões fortes e inconformistas.

Paulo Fracis (1930-1997) Escritor e Jornalista Carioca (Waaal: O Dicionário da Corte de Paulo Fracis)

Nunca apoiei governo algum. Acho que é um dever do jornalista adotar a moto dos anarquistas.

Paulo Fracis (1930-1997) Escritor e Jornalista Carioca (Waaal: O Dicionário da Corte de Paulo Fracis)

A imprensa é à vista da nação.

Rui Barbosa (1849-1923) Político e Diplomata Baiano (Temário de Rui).

Os erros e injustiças da imprensa pela própria imprensa se curam.

Rui Barbosa (1849-1923) Político e Diplomata Baiano (Temário de Rui).

Sempre achei que é o mundo que está à espera de um jornalista, não o contrário.

Samuel Wainer (1912- 1980) Jornalista Russo radicado no Brasil (Minha Razão de Viver).

O jornalista medíocre informa para informar. O autêntico jornalista informa para formar.

Tristão de Ataíde (1893-1983) Pensador Católico e Critico Literário Carioca (O Jornalismo como Gênero Literário).

Assim como a literatura é um tipo especial de arte, o jornalismo é um tipo especial de literatura.

Tristão de Ataíde (1893-1983) Pensador Católico e Critico Literário Carioca (O Jornalismo como Gênero Literário).


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Três passados de amor Poemas…

agosto 10, 2008 at 10:09 pm (Poemas Avulsos)

Estes três poemas a baixo foram escritos em tempos e espaços completamente diferentes, e são homenagens mesmo que simplórias as últimas garrotas que eu gostei… São textos ridículos, mas possuíam em cada época sentidos que me fascinavam… É a arte do amor…ou do desamor

“Amor-chama, e, depois, fumaça…”

Manuel Bandeira (A Cinza das Horas).

Coração de morena

Queria ter forças para suportar a solidão que habita desesperadamente meu peito

Mas relendo meus versos antigos percebo que sou o mesmo infeliz,

O mesmo pobre e magro poeta de amores perdidos e perdidas ilusões.

Queria ter forças pra não morrer de tédio nesta cidade grande e absurda

Feita com cacos de telhados de vidros onde moram reluzentes solidões fingidas

E demasiados amores supérfluos, perdidos em cartas guardadas em gavetas marrons.

Queria ter forças para tolerar calmamente teu lindo sorriso que longe mora.

Não ter inveja dos passarinhos coloridos que convivem contigo nas árvores da tua morada

E que brincam felizes ao redor de ti em meio aos teus maravilhosos cabelos negros e revoltos.

Queria ter forças, Morena, para detonar essas fronteiras, esses muros de dores… Queria ter forças Morena para destruir essas enormes barreiras, e habitar calmamente sorrindo o teu coração decente, vencendo de vez a solidão que desgasta o meu peito de poeta infeliz.

Peso da Alma

Angústia em suspiros maus dispersos

Os beijos que eu dei apaixonados.

Abro os olhos humanos para crer

O que sinto é a presença do passado…

Serei doido, mago ou visionário?

Para não compreender este estranho sentimento

Que vagava sorridente em minha Alma

Mas agora eu bem entendo….

Era tudo mentira ou só desejo?

Ter agora a glória do destino

E lembrar para sempre do “menino”

A doçura “calhiente” dos seus beijos.

Soneto de Encantamento

Cabelos de infância querida

Sorriso de saudade inocência

Tu és a princesa florida!

A moça mais linda da lenda.

Poema perfeito nos traços,

encantada presença de Deus

Nos meus pensamentos escassos

eu sempre sonhando em ser teu…

Eu guardo tua voz com carinho –

na essência do meu coração

e nunca me sinto sozinho.

Pois lembro os beijinhos –

entre abraços calados,

com intensa emoção.

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