CRÔNICA DA ÁRVORE ANGUSTIADA

novembro 16, 2008 at 4:11 pm (Uncategorized)

vladimir-kush

“Quando os homens não olham para a natureza, julgam sempre poder melhorá-la.”

(John Ruskin)

Olhando certos humanos que atravessam displicentemente as ruas desta cidade onde vivo, percebo a maldita indiferença que ambos nutrem por mim. Eu um pobre ser indefeso, uma árvore solitária, centenária, que vive enclausurada na dor, longe de todo aquele ambiente lindo, lírico da qual vivia há décadas passadas. Tempos em que a terra habitava os meus pés; anos em que a chuva jorrava tranqüila o seu liquido mais delicioso… em meus cabelos verdes… em meus pequeninos frutos vermelhos.

Antes a chuva era muito mais abundante e generosa em sua dádivas, além disso, era carinhosa e de um cheiro doce que embriagava a todos os seres naturais ao redor. Hoje a ela é rara e muito diferente destes tempos atrás da qual me refiro. Parece ser apenas um simples molhar desenfreado e sem nenhum tipo de lirismo e paixão, nem cheiro possui mais os pinginhos. Suponho que a natureza se vendeu de vez ao caos em que tudo está inundado, com essa crise ética da humanidade, marcado pelo desrespeito ao meio ambiente. A minha natureza amada da qual sou representante está a sofrer. Pobre de mim!

O calor atual queima os meus frutos, e minha pele já não suporta mais o terror dos mormaços, provenientes dos maus tratos que os homens vêem cometendo com o planeta terra ao longo principalmente destas ultimas décadas. Minhas folhas ressecam facilmente, meu grosso e velho tronco, abruptamente se descasca, se desfragmenta em pedaços mortos, que se espalham pela calçada. Estou num processo initerupto de destruição. Sinto meu fim.

Sou centenária, tenho mais anos de vida do que qualquer humano passante aqui neste momento, nesta rua infeliz, de uma cidade qualquer. E como estes pobres velhos que moram na minha esquina em um asilo imundo, vivo numa solidão absurda, sofrendo em desesperos com a falta de zelo, carinho e amor. No desamparo quase total. Sofro com a indiferença constante até dos animais.

Lembro-me com muito carinho de um cachorrinho, de pêlos brancos e pontos negros na nuca que todos os dias pela manhã bem cedinho vinha me cumprimentar com seu líquido amarelo. Eu me deliciava com sua alegria contínua, com o morno do seu mijar, vendo o seu rabinho balançando devagar em círculos de felicidade. Eu me sentia dono daquele pequeno animal, tão lindinho, e ele com certeza, sentiam-se também dono de mim. Era a comunhão com a natureza. Eu me achava amado naqueles tempos. Hoje, ninguém olha mais para mim. Onde estão os pássaros desta cidade meu Deus? Os canarinhos, as pita-silvas, os simples pardais, e tantos outros que passeavam animados por minhas madeixas verdes, cantando alegremente suas músicas coloridas em meio aos meus pequenos frutos.

Oh que tempos bons eram aqueles! Em que a natureza ainda se manifestava límpida nesse universo urbano, agora uma louca e desumana selva de pedras, cheio de carros, poluição e pessoas indiferentes e mal-educadas. Como eu queria viver novamente, com aquela natureza linda, colorida, ao meu redor, tempos em que eu era apenas uma pequena plantinha, simples e feliz, que crescia delicada numa floresta calma, próxima a uma pequena vila. Eu era feliz e não sabia. Hoje, velha, sofro os descaminhos de uma cidade que não olha nem pra si.

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Frases de Vida e de Morte

outubro 13, 2008 at 1:37 pm (Relicário de Frases)

VIDA

A vida que a gente vive / não deixa a gente viver.

Álvaro Pacheco (1933-) Poeta Piauiense (A Matéria do Sonho).

A vida humana para mim, é um ludus, um divertimento sem mais significação.

Antonio Carlos Villaça (1928-2005) Escritor e Jornalista Carioca (O Nariz do Morto).

Quanto mais se vive, tanto menos se aprende a viver.

Augusto Meyer (1902-1970) Critico e Ensaísta Literário Gaúcho (A Forma Secreta)

O que se leva desta vida é a vida que se leva.

Barão de Itararé (1895-1971) Jornalista e Humorista Gaúcho (Máximas e Mínimas de Barão de Itararé).

Nossa vida é uma balança / com duas conchas iguais: / Numa a alegria descansa / noutra descansam os ais.

Belmiro Braga (1872- 1937) Poeta Mineiro (Rosas).

A vida para mim é vontade de morrer.

Carlos Drummund de Andrade (1902-1987) Poeta e Cronista Mineiro(Alguma Poesia).

Viver é juro de clara perda.

Carlos Nejar (1939-) Poeta Gaúcho (O Túnel Perfeito).

Viver é conciliar-se com o possível.

Gilberto Amado (1887-1969) Escritor Sergipano (Ideário).

A gente pensa que vive por gosto, mas vive por obrigação.

Guimarães Rosa (1908-1967) Escritor Mineiro (Estas Estórias).

A gente quer, mas não consegue furtar no peso da vida.

Guimarães Rosa (1908-1967) Escritor Mineiro (Tutaméia).

Viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos – para não morremos soterados na poeira de banalidade.

Lya Luft (1938-) Escritora Gaúcha (Pensar é transgredir!).

A vida é boa, mas não é justa. Acostume-se.

Marcelo Nova (1951-) Cantor e Compositor Baiano (Extraído da Revista Época).

Viver não pede talento algum.Apenas paciência.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta (O Fantasma Sem Castelo).

Viver é conviver.

Mário da Silva Brito (1916) Poeta e Ensaísta (O Cartola do Mágico).

Viver é trapacear com a morte.

Mário da Silva Brito (1916 –) Poeta e Ensaísta (Diário Intemporal).

A vida é bela. O ato de viver é que estraga tudo.

Mário da Silva Brito (1916) Poeta e Ensaísta (O Cartola do Mágico).

Isso de morrer não tem importância, o importante é viver um pouco agitando e encantando a vida.

Mário de Andrade (1893-1945) Escritor Paulista (A Lição de Amigo).

A vida não nos dá tempo para a vida.

Mario Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Porta Giratória).

Vale a pena viver – nem que seja para dizer que não vale a pena…

Mario Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (A Preguiça como Método de Trabalho).

Viva de maneira que ao morrer não te lastimes de haver vivido.

Marquês de Marica (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas Reflexões e Pensamentos).

A vida é sempre longa quando a empregamos bem, e brevíssima quando a desperdiçamos em tolices.

Olívio Montenegro (1896-1962) Crítico Literário Paraibano (Folhas ao Vento).

VIDA E MORTE

Não é a morte que me põe medo; / È a vida.

Cassiano Ricardo (1895-1974) Poeta e Jornalista Paulista (Face Perdida).

A vida não tem cura, a morte é certa.

Dante Milano (1899-1991) Poeta Mineiro (Poesia e Prosa).

A vida é complicada, mas querida. A morte é simples, porém temida. Nisto se resumem todos os nossos problemas.

Eno Teodoro Wanke (1929-2001) Poeta Paranaense (Pensamentos Moleques).

O principal não é morrer bem, mas viver corretamente.

Huberto Rohden (1893-1981) Escritor e Filósofo Catarinense (A Educação do homem Integral).

A vida é uma dádiva tão grande que só podemos pagá-la com a morte.

Júlio Camargo (1928-2007) Escritor e Jornalista Pernambucano(A Arte de Sofismar).

Cada dia que passa mais vivem em mim os mortos que amei.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta (Desaforismos).

MORTE

È a morte-esta carnívora assanhada/ -serpente má de língua envenenada/ que tudo que acha no caminho come.

Augusto dos Anjos (1884-1914) Poeta Paraibano (Eu e outras Poesias)

Não há vivos; há os que morreram e os que esperam vez.

Carlos Drumonnd de Andrade (1902-1987) Poeta e Cronista Mineiro (A Avesso das Coisas).

Nossos mortos estão sepultados em nós, mas preferimos visitá-los no cemitério.

Carlos Drumonnd de Andrade (1902-1987) Poeta e Cronista Mineiro (A Avesso das Coisas).

Morrer é o mesmo que não ter nascido.

Dante Milano (1899-1991) Poeta Mineiro (Poesia e Prosa).

È antiético falar mal de um colega, mas Deus sofre de milenar falta de imaginação.Suas peças têm o mesmo e previsível desfecho -a morte.

Dias Gomes (1922-1997) Dramaturgo Baiano (Extraído do livro: Dicas da Dad, de Dad Squarisi).

Não vale a pena chorar por nada que não seja a morte. E, em caso de morte, chorar não adianta.

Eno Teodoro Wanke (1929-2001) Poeta Paranaense (Pensamentos Moleques).

A gente morre para provar que viveu.

Guimarães Rosa (1908-1967) Escritor Mineiro (Discurso de posse na Academia Brasileira de Letras).

A morte é a única maneira eficiente do individúo livrar-se de si mesmo.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta (Conversa Vai, Conversa Vem).

… mesmo depois que nada mais nos espanta neste mundo, resta-nos ainda uma aventura inédita: a morte.

Mario Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Porta Giratória).

Há criaturas que não vivem: apenas estão fazendo horas para morrer.

Mario Quintana (1906-1994) Poeta Gaúcho (Porta Giratória).

Morremos em um instante, e tememos a morte por muitos anos!

Marquês de Marica (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas Reflexões e Pensamentos).

Quem é vivo sempre aparece? Errado. Quem é vivo sempre desaparece.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Extraído da revista Veja).

O pior não é morrer.È não poder espantar as moscas.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos)

Um cadáver é o produto final. Nós somos apenas a matéria-prima.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos)

A morte está sempre mais ou menos longe, mas ninguém sabe em que tipo de transporte, e com que velocidade, ela viaja.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos)

A morte é alguma ciosa que está dentro da vida e não contra ela.

Paulo Leminski (1944-1989) Poeta e Compositor Paranaense (Extraído do livro O Bandido que Sabia Latim, de Toninho Vaz).

Os melhores entre nós estão mortos ou vão morrer cedo.

Paulo Mendes Campos (1922-1991) Cronista e Poeta Mineiro (O Anjo Bêbado).

Há uma morte feliz.È aquela que acontece no tempo certo.

Rubem Alves (1933-) Escritor e Psicanalista Mineiro (As Cores do Crepúsculo)

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Um Homem chamado Cinema:Vida e obra de Machado Bittecourt.

setembro 10, 2008 at 1:21 pm (Ensaios)

Primeiros contatos.

A primeira vez que ouvi falar no nome Machado Bitencourt nunca poderia imaginar que encontraria um personagem tão importante para a história da produção cultural da Paraíba, em especial de Campina Grande, nestes últimos tempos. Para mim, um aspirante a jornalista e interessado em cinema, seu nome era resguardado por um inigualável sentido de mistério, traçado por nuvens de simplicidade e distinção, todavia sem nenhum dado inventivo, original ou extraordinário. Estava no terceiro semestre do curso de jornalismo, ano de 2005, no intervalo das aulas nós “meros estudantes” costumávamos passearmos pelos corredores, e em um destes passeios, iniciei uma pequena conversa informal com o professor de cinema Rômulo Azevedo tendo como temática a história do cinema paraibano. Foi nesta conversa rápida de corredor que escutei pela primeira vez o nome: Machado Bitencourt. O sujeito teria sido – segundo Rômulo, ex-professor do curso em décadas passadas e produzido dezenas de filmes aqui mesmo em Campina Grande. No início não achei nada demais, pensava eu em minha inteira ingenuidade de iniciante que tal ato era bastante comum neste período. Ledo engano. Semanas depois outra professora, Jaldete Soares, no mesmo corredor, agora em conversa com outro aluno, fazia menção novamente ao personagem, desta vez não só como Cineasta, mas como brilhante fotógrafo e jornalista. Achei que todas aquelas alusões pareciam um chamado, e de cara captei a possibilidade da construção de uma “bela história”, de um enredo pautado na obra deste ilustre desconhecido na época, entretanto era necessário buscar mais subsídios, investigar, só assim poderia criar alguma narrativa. Logo me voltei novamente ao professor Rômulo Azevedo, e perguntei se existiria algum livro que trabalhasse a vida e a obra deste homem que ousou construir um dos raros estúdios de cinema do Interior do Nordeste: A Cinética Filmes. A resposta foi pausada. ”Existe sim, mas são simplórios”. Decidi então procurar assim mesmo os livros. Na verdade o único livro no qual naquele momento Rômulo me indicou foi: o Discurso Cinematográfico dos Paraibanos, obra clássica do jornalismo Wills Leal.

Na biblioteca encontrava-se lá a obra referida, que mais parecia um grande álbum, cheio de fotos e nomes e datas. Uma história esquecida, jogada na estante da velhice… Mas pouco a pouco fui navegando calmamente pelas Histórias de nosso Cinema, capítulo a capítulo. Linduarte Noronha, Wladimir Carvalho, Aruanda, Pais de São Saruê e enfim: Machado Bittecourt. Finalmente, conhecia com alguns traços maleáveis e sensíveis o personagem em questão, e com o passar do tempo (três anos depois do primeiro encontro), somando aos olhares e as falas de outros nomes e livros, fui percebendo a dinamicidade deste agitador e produtor cultural, chamado: Machado Bitencourt, nome que dentro de certos limites pretendo nesta narrativa jornalística, biografar, – ou melhor, traçar um perfil, mesmo que resumido deste notável sujeito.

O cerne pela qual me proponho a desenhar este encurtado retrato será o entendimento da recuperação atual da memória de Machado Bitteconurt ocorrida nestes últimos anos no estado da Paraíba, através da intitulação de prêmios e entidades cinematográficas. Para a realização de tal objetivo, foram entrevistados nomes como o já mencionado Wills Leal, os irmãos Rômulo e Romero Azevedo, além do jovem realizador, André da Costa Pinto, idealizador do prêmio Machado Bitencourt no Comunicurtas 2007. Evidente que livros que tratam do personagem e sua obra também foram usados, como Cinética Filmes, de Eliabe de Castro. Infelizmente não foi possível assistir a obra de Machado, que são de difícil acesso.

Piauiense de sangue, Campinense de coração.

Juremi Machado Bitencourt nasceu no dia 3 de setembro do ano de 1942, na pequena e desconhecida cidade de Pirancuruca, no estado do Piauí. Em 1960, com apenas 18 anos, veio a residir em Campina Grande, – cidade famosa pelo seu desenvolvimento, pretendendo assim trabalhar e estudar. Neste município acabou se identificando com o seu povo e com a sua história, mesmo viajando por todo o Brasil, e às vezes pelo mundo afora, chegando a morar em outras cidades, Machado nunca deixou de ter vínculos afetivos com o município conhecido como “Rainha da Borborema”.

A maioria das referências ligadas à personalidade de Machado Bitencourt são de um sujeito extremamente dinâmico e pragmático. Um homem de ação. Suas atuações parecem ser movidas à cima das aparentes dificuldades existentes, seja no produzir, seja na comercialização de seus filmes e outros produtos ligados à comunicação social na região Nordeste. Além de dinâmico, pragmático, empreendedor, há alusões à forma autoritária que exercia enquanto profissional muitas vezes, centralizando demasiadamente muitas vezes as atividades em grupo que realizava, (o Cinema e o jornalismo são em sua essência atividades coletivas), por outro lado íntimos como Wills Leal e Franklin Bonfim (ex-aluno e assistente de alguns trabalhos seus) enfatizaram em depoimentos o lado amigo e sensível de nosso personagem.

Não podemos esquecer que seu empreendedorismo está ligado a várias outras atividades do qual exerceu durante a vida. Pois temos um Machado múltiplo, realizador de várias atividades, diríamos um artista multimídia, pois temos: o Machado Jornalista, o Machado fotógrafo, o Machado escritor, o Machado Historiador e Memorialista, o Machado empresário, o Machado Cineasta, entre outros Machados. O Machado jornalista foi àquele repórter de textos interessantes, chamados por Wills Leal de “Cinematográficos”, pelas qualidades imagéticas em suas descrições. Extremamente ligado ao jornalismo temos o Machado fotógrafo, com retratos maravilhosos do estado paraibano em seu Guia de Turismo da Paraíba (considerados por muitos com um dos mais belos e representativos registros de nosso estado), não podemos esquecer dos seus trabalhos no Correio da Paraíba e Jornal do Comércio, como repórter fotográfico. Uma faceta bem desconhecida de muitos foi o Machado Escritor, com seu livro Apontamentos Históricos da Piracuruca (considerado uma obra fundamental para a História da região do qual nasceu o cineasta) e seus textos atrelados as suas origens e memórias familiares, publicados postumamente. Ainda relacionado a essa face de escritor temos o Machado historiador e memorialista, não só nas pesquisas escritas realizadas, entre estudos e ensaios avulsos, mas principalmente em seus documentários que tinham uma preocupação clara com as questões históricas, com a memória material e simbólica dos sujeitos e lugares, de Campina Grande, da Paraíba, do Nordeste. Inclusive Machado chegou a ser membro do Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande e da cidade de Goiânia (PE), coordenador do acervo inicial de exposição de abertura do Museu do Algodão e presidente da Fundação Cultural Luiz Carlos Virgulino.

Machado: da fotografia ao cinema, e vice-versa.

Machado Bitencourt chegou ao cinema através da Fotografia, trabalhando na surcussal do Correio da Paraíba no ano de 1963 na qualidade de foca, ou seja, de iniciante. Neste mesmo ano começava a funcionar em Campina Grande a TV Borborema, um dos poucos TVs do interior do Brasil. “Sem deixar o Correio da Paraíba e as máquinas fotográficas, Bitencourt se introduziu no mundo da televisão através da prestação de serviços como cinegrafista fre-lancer.” No começo, ele apenas filmava acontecimentos sociais, inaugurações e banquetes, mas logo o uso permanente da câmara o obrigou a proceder em um aprendizado melhor do cinema, lendo vários livros clássicos, entre eles as obras de George Sadoul. Assim começou, dando prova de seu dinamismo, uma série de reportagens filmadas sobre a tese da Descoberta do Brasil pelos Fenícios, viajando por todo o Nordeste. Apesar das criticas dos analistas devido à ausência de qualidades do material filmada ele não desistiu de fazer cinema e continuou sua luta.

Neste mesmo início da década de 1960, Machado fazia o curso de Direito na URNE (hoje UEPB) em Campina Grande, contudo devido as suas ações durante o período militar, acabou não terminando o curso, perdendo a matricula em uma suspensão que durou vários anos. Com isso, teve que ausentar-se para o Uruguai, segundo ele “voluntariamente”, escapando, assim do ato Institucional nº 5, de 1968. Em depoimento a Eliabe de Castro Machado expôs que estivera presente na famosa 30º Congresso da UNE em Ibiúna. Entretanto, ele nunca deu detalhes sobre as suas atividades neste período conturbado da História do Brasil, seja em Campina Grande, ou em outros lugares do país.

Um pouco antes do AI-5, 1966, inicia-se um período fértil de produção de filmes na Paraíba. Vários sujeitos principalmente em João Pessoa começaram, – graças ao incentivo do sucesso de Aruanda no início da década, a produzirem filmes, a planejarem roteiros. Entre eles estavam: Paulo Melo, Ipojuca Pontes, Alex Santos, Virginuis de Gama e Melo, etc. Este último convidou Machado Bittencourt para realizar a fotografia do filme Contraponto Sem Música.

Depois de trabalhar em João pessoa durante cinco anos como fotógrafo fre-lancer e produtor de sistemas audiovisuais, ele decide fazer Jornalismo, no curso de Comunicação Social da URNE, pois nem desejava, como também não poderia cursar Direito, pois sua matricula tinha sido caçada. Inicia-se assim uma nova fase do nosso personagem, agora, cada vez mais ligado ao mundo da comunicação.

Uma aventura cinética

Depois de voltar a Campina Grande, e filmar A Feira no ano de 1967 em parceria com Luiz Barroso, e iniciar o curso de Jornalismo na URNE (primeiramente como aluno, depois como professor), Machado Bittecourt percebeu as necessidades de se trabalhar mais profissionalmente no ramo do qual escolhera viver, o mundo do jornalismo, da propaganda, da fotografia e do cinema. Desta maneira, através do convívio com o mercado de trabalho mais estreito em Campina Grande, ligado quase que exclusivamente as empresas privadas, Machado opta por trabalhar na oferta de serviços de produção publicitária da TV Borborema. Com isso funda no ano 1974. A Cinética Filmes Ltda. empresa que funcionou em Campina Grande até o ano de 1985 e um dos raros estúdios cinematográficos de bitola 16 mm que funcionou no país.

Nesta empresa desenvolveu-se uma intensa atividade relacionada em campo da comunicação social, produzindo filmes destinados ao uso e transmissão na TV Borborema, além de comerciais ou vídeos institucionais. Segundo Linduarte Noronha “A cinética foi criação aos moldes da Vera Cruz, respeitando as latitudes. Mas a filosofia era empresarial. Assustei-me, um dia, quando ele me levou a Campina Grande para ver sua empresa. Não acreditei. Era uma miniatura de cinema indústria, no bom sentido” na concepção de Wills Leal seria “uma Hollywood de um Nordeste miserável, com seu único dono-dirigente próximo de Sancho Pança, sim, mas com a sensibilidade, as virtudes e a pertinência de Dom Quixote.”

A empresa operou num galpão anexo ao prédio da família Bittencourt. Entre o prédio e o galpão, com uma largura aproximada de dois metros, existia O Beco do Cinematógrafo. A empresa esteve durante onze anos nesse local, no final da Rua João Suassuna, no bairro do Monte Santo, uma das zonas mais pobres da cidade de Campina Grande.

Havia uma parceria não oficializada entre a FURNE (Fundação Regional do Nordeste) e a empresa, visto que as instalações da Cinética serviram de laboratório para os colegas e, depois, alunos de Machado nas disciplinas de Técnicas de Cinema e Jornalismo Cinematográfico. Segundo Rômulo Azevedo suas aulas era muito práticas O professor Machado não gostava muito da sala de aula, preferia as aulas em campo onde passava seus ensinamentos na prática”.

O importante é percebemos a grande Contribuição desta empresa que operou durante muitos anos em Campina Grande para produção cinematográfica local, seja na fabricação, seja na idealização e no sonho de fazer cinema na Paraíba. Encerrada as atividades em Campina Grande por falta de mercado, no ano de 1985, o empreendimento transferiu-se para a cidade de Santa Rita, grande João Pessoa.

Documentários Históricos, Ficções Regionalistas.

Machado Bittencourt produziu cerca de 200 filmes, entre documentários, ficções, reportagens cinematográficas, comerciais e propagandas políticas. Segundo Wills Leal os filmes de Machado eram em sua maioria realizados com uma intensa improvisação, muitas vezes sem roteiros, apenas com “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, para usarmos a afamada máxima de Glauber Rocha, e em condições materiais encontradas em cada momento. Sendo que as características gerais de linguagem de seus filmes eram quase sempre expostos de forma artesanal, com uma estética e técnicas primitivas. Romero Azevedo destaca esse lado pragmático e muitas vezes inventivo do nosso personagem: Machado não era um cinéfilo, era um fotógrafo que também adorava fazer filmes. Nunca conversei com Machado sobre cineastas e filmes, o negócio dele não era “ver” era “fazer”. Cada um assimila o cinema de acordo com suas predileções, Machado, como todo bom fotógrafo, gostava de imprimir película, quanto mais filmar melhor”.

Mas voltando aos seus filmes, Wills Leal divide, ainda que de uma maneira não muito criteriosa, a obra cinematográfica de Machado Biitencourt em três blocos distintos. São eles: os filmes memorialistas, culturais e comerciais. Os primeiros são aqueles que têm uma preocupação especial na busca por definir um espírito campinense. Desde A Feira, sua primeira produção, documentário com interesses sociológicos que trata sobre os costumes da feira de Campina Grande (uma parceria com Luiz Barroso, de 1967), passando por Campina Grande: da prensa de algodão a prensa Gutenberg (que trata dos processos de desenvolvimento da cidade) até Memórias do Velho Sòter (filme sobre o fotógrafo Sóter Farias), há uma significativa preocupação em produzir pedaços da história deste município, enfatizando monumentos e pessoas que caracterizaria as maneiras do povo campinense. Já os filmes culturais, são aqueles, a exemplo de Um dia na vida de um cantador, que trazem questões relacionadas aos hábitos e as práticas do povo Nordestino, em um sentido identitário, a exemplo do cantador de viola ou as rendeiras do interior da Paraíba. Por ultimo temos os filmes comerciais, realizações, segundo Wills Leal, sem quase nenhum apuro estético ou preocupação cultural, os chamados filmes institucionais e/ou publicitários.

Todavia, apesar do grande número de documentários, foram às ficções que mais chamaram atenção do público e da crítica campinense. Na realidade de maneira geral “Os lançamentos causavam um impacto na cidade. Eram acontecimentos importantes. A URNE agitava-se nos desdobramentos de um pioneirismo que somente Machado conseguia equilibrar. De um lado pela falta de recursos, de outro, a necessidade pedagógica de visualizar o aprendizado num filme concluído, se referiu o professor João de Lima.

Machado Biitencourt produziu duas ficções longas metragens em Campina Grande, a primeira foi Maria Coragem, em 1978, e a segunda O Caso de Carlota, do ano de 1982. Ambos os filmes produzidos como matéria prática para os alunos das cadeiras de Técnicas de Cinema e Jornalismo Cinematográfico, no curso de jornalismo da FURNE. Apesar das limitações técnicas, de todo o “amadorismo, baixa produção e um forte apelo á linguagem do cinema mudo”, como de referiu Wills Leal, ambos os filmes são marcos importantíssimos para a história da cidade de Campina Grande. Maria Coragem, por exemplo, foi o primeiro longa metragem ficcional realizado na cidade e um dos primeiros filmes feitos desta natureza dentro de uma universidade brasileira.

Abro um parêntese aqui para descrever as minhas sensações, quando tive meu primeiro contato com a obra de Machado Bittencourt. Era a estréia do cineclube Machado Bittecourt, várias personalidades do cinema local estavam presentes e a sala estava repleta de alunos do curso de comunicação social, local da exibição. O filme: Maria Coragem. A cópia do Longa pertencia ao já citado Romero Azevedo, professor de cinema da UFCG, assistente do Machado e um dos atores da produção. A história era banal: uma jovem mata o pai e dois bandidos para ter direito de amar o rapaz da qual estava apaixonada. Não gostei de início. Achei demasiadamente arcaico. Entretanto, percebi pouco a pouco, mesmo durante a exibição, toda a força de Machado Bittencourt em cada centímetro daquela película. Todo o entusiasmo. Toda a vontade e o desespero de fazer cinema.

Durante a sua carreira de cineasta Machado Bittencourt venceu alguns prêmios com suas realizações. É o caso dos documentários O Ultimo Coronel (Prêmio de melhor filme fora eixo Rio – São Paulo produzido no Brasil na Jornada de Salvador em 1975) e Campina Grande, da prensa de algodão, da prensa de Gutemberg (Vencedor do prêmio de seleção Embrafilme INC, também de 1975). Entretanto, o seu filme mais premiado e considerado a sua melhor realização cinematográfica foi Parahyba, do ano de 1985, feito sob encomenda da Comissão do quarto centenário da Paraíba. A película Venceu os prêmios de melhor filme sobre a temática Nordestina no Fest Céara, Prêmio de melhor fotografia no Fest Cine Maranhão e ganhou ainda a Menção Honrosa no famoso Festival de Brasília. Todas essas premiações ocorridas em 1985.

Na primeira metade da década de 1980, Machado Bittencourt viveu uma crise financeira grave, que aliada aos problemas econômicos nacionais dos Governos Sarney e Collor anos depois, fizeram do nosso personagem mudar em parte as suas atividades no mercado publicitário. Sua saída de campina Grande para João Pessoa não fez resultados. Machado não acompanhou as mudanças e acabou colecionando várias dívidas. Pouco a pouco foi se desfazendo dos equipamentos de sua Cinética. Anos à frente, já velho e doente Machado definha vendo o seu sonho desmoronar. Depois de Parahyba ainda fez Águas do São Francisco em 1993. Morre esquecido pela Paraíba. Foram vários anos de ostracismo, de 1985 a pouco mais 2004, quando sua memória foi revisitada.

A (re)invenção de Machado

Machado Bitencourt parece ser a primeira vista uma invenção sentimental discursiva de Wills Leal, uma construção escrita feita com muito carinho e esmero, fruto de um convívio de amizade de cerca de 30 anos. Wills Leal pinta um Machado como um exemplo a ser seguido, enxergando nele um ícone libertário de como fazer cinema, mesmo com todas as condições sendo adversas. A exemplo de Liduarte Noronha e Wladimir Carvalho, Machado vira um modelo, um arquétipo, pela determinação no qual realizou seus filmes, pela saga de vitórias, pela força de vontade em vencer as deficiências. Não importa as imperfeições estéticas de suas películas, não importa o autoritarismo no caráter, o que importa é a sua obra realizada com todo o empenho, com muito sangue, suor e lágrimas.

Portanto, aliada a luta pela manutenção da memória da família Bittecourt , o que me chama a atenção é justamente este fato, que muito da manutenção da memória existente sobre Machado esteja ancorado nas lembranças sentimentais de Wills Leal, principalmente devido às alusões personalistas deste homem de imprensa, que assim como fez com Walfredo Rodrigues, “ressuscitou” via memória local, e nos mostrou deverás a importância deste sujeito tão admirável para as artes do seu tempo. Seus textos transmitem essa necessidade.

Incorporando este discurso, um grupo de jovens campinenses, ávidos de produzirem filmes, empenhados em se afirmarem buscaram nesta mesma “memória esquecida” marcada pelo pioneirismo, os subsídios para uma legitimação histórica na atualidade. Ao lado de Torquato Joel e Marcus Villar, Machado Bittencourt esta sendo transformado em um patrimônio, uma bela referência prática para os novos produtores neste inicio do século XX em Campina Grande. A maioria nunca assistiu se quer um filme de Machado. Mas não importa, o necessário é ver no nosso personagem um modelo de pragmatismo e libertação. Tanto André da Costa Pinto, idealizador do prêmio Machado Bittencourt no Comunicurtas (festival de Cinema de Campina Grande), assim como Rômulo Azevedo, que batizou o cineclube do curso de Comunicação Social de cineclube Machado Bittecourt, como os organizadores do Festival Aruanda, que pretendem ainda este ano homenagearem o mesmo, dão continuidade a este espírito de resgate, de exemplificação, de molde, Indo dentro das carnes da memória, caçando indícios de um exemplo feliz. Nossos jornalistas e cineastas atuais resgatam assim um corpo morto que ainda respira nas lembranças dos mandarins, e sem sepultura, este mesmo corpo se eterniza. Um exemplo pode ser sentido na fala do próprio André da Costa Pinto, quando ele diz em entrevista: “Creio que todo esse reconhecimento se deve a grande efervescência que vem movimentando o cinema nos últimos tempos na Paraíba. Hoje temos uma grande produção de curtas com qualidade, isso fica claro pela repercussão que muitos trabalhos vêm tendo país a fora como é o caso de Torquato Joel, Marcus Vilar, Taciano Valério, Bruno de Sales, dentre outros. Então nada mais justo do que reconhecer o trabalho de um pioneiro nessa área”. Desta forma, Machado Bittencourt, esse homem chamado Cinema, é fruto de uma Memória revivida, ressuscitada de forma brilhante e justa, para a glória do presente e do futuro do cinema paraibano e em especial de Campina Grande. É como escreveu Wills Leal: “Machado foi importante no seu tempo e, certamente, sempre o será”

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O corpo da solidão.

agosto 31, 2008 at 10:19 pm (Contos)

Em mais um relatório de movimentações do Banco Nacional, Ricardo Assunção encontrou em meio à relação dos maiores investidores o nome de uma senhora riquíssima que a cerca de quatro anos não movimentava a sua conta. Achara estranha tão atitude. Nunca em sua história de bancário soubera de ninguém, absolutamente ninguém que passara tantos anos sem uma única movimentação de dinheiro, quanto mais uma quantia tão elevada como aquela, cerca de 800 mil reais, e o mais estranho ainda, sem nunca ter inclusive se dirigido ou ligado ao Banco para se informar por ventura o que a instituição estava a fazer com a sua pomposa fortuna.

Decidiu Ricardo então investigar. Pegou o maior número possível de informações sobre a senhora desaparecida. Nome, endereço, históricos das movimentações, tudo, (menos  telefones, que mais estranho não havia), – fez cópia dos poucos saques de cinco anos atrás, – e cada vez mais achava “estranha aquela história.” Decidiu então chamar seu fiel escudeiro no banco, o amigo de longa data, conhecido em toda a cidade por Seu Odílio Pessoa. Um homem forte e determinado, que com certeza não se negaria a lhe ajudar nesta tarefa de investigador.

Os dois entraram juntos no Banco há cerca de 20 anos atrás. Cresceram na profissão, ainda jovens, na década de 1980. Hoje, um é Gerente administrativo, o outro Gerente geral, que é o caso de Ricardo. Ambos com carreiras de prestígios no mercado financeiro. Ricardo contou minuciosamente toda a história ao amigo, nos mínimos detalhes, inclusive mostrando algumas faturas copiadas. As desconfianças e as possibilidades de um “bom negócio” surgiram naquele momento, e tornaram-se cada vez mais objeto de uma enorme curiosidade. Odílio também achou bastante curioso “aquela história”, e então decidiram juntos investigar. Além do mais, o “Banco deve se importar com seus clientes”- dizia Odílio, “principalmente aqueles que têm uma bela quantia em suas contas”– respondeu Ricardo, rindo.

A senhora, de nome Severina Maciel, residiria de acordo com o último endereço do cadastro em um bairro na saída da capital paulista, num apartamento luxuoso, na Avenida Sul, 440, a cerca de dois quilômetros da Agência do Banco onde trabalhavam. Decidiram então irem juntos à hora do almoço procurar sentidos para aquela história que muito os intrigavam. Viram a possibilidade inclusive de convencê-la, – quem sabe, – a investir mais dinheiro em outros programas do Banco, além da conta-poupança, da qual era titular, e que de maneira geral trazia não muitos lucros para ambos. Chegando ao bairro determinado, saíram perguntando em alguns lugares próximos, entre bancas de revista e restaurantes, onde se encontrava o residencial Vale Brazil. Encontrado o local. Desceram do carro, e foram em direção ao guichê de segurança. Lá encontraram um homem bem vestido. Um negro alto de fisionomia séria, como boa parte dos seguranças destes residenciais de luxo.

– Bom dia rapaz, nós gostaríamos de falar com a senhora Severina Luísa Maciel, por favor. Falou Ricardo.

– Só um momento, respondeu de dentro do guichê o segurança.

Depois de alguns minutos folheando papéis que estavam em cima de uma pequena mesa dentro do guichê, o segurança começou a ficar visivelmente preocupado, demonstrando em uma fisionomia algo de nervoso. Fez uma cara estranha, pensou alguns minutos, e se voltou novamente para os dois homens distintos para dizer:

– Olhe, veja bem… Aqui ta dizendo que essa senhora mora realmente aqui neste Residencial, mas assim, eu trabalho aqui a cerca de três anos, mas eu nunca a vi em minha vida. Parece que ela nunca sai de casa, do apartamento dela, que fica no segundo andar, não tem parentes, nem amigos, e o mais estranho ainda, ela não recebe visitas. Nunca vi ninguém procurar ela por aqui. Vocês foram os primeiros. Na verdade eu havia até esquecido dela… Vocês são parentes?

Mais perplexo ainda Odílio respondeu, olhando com a sobrancelha levantada para seu amigo Ricardo.

– Sim… Que dizer, não. Somos amigos. Apenas amigos.

Foi então que o segurança perguntou:

– Vocês querem subir?

– Claro, respondeu os dois quase em uníssono.

Foi então que o segurança tentou ligar para o apartamento de Dona Severina. Enquanto isso Odílio continuava olhando com a sobrancelha levantada para Ricardo, bastante desconfiado. Mas durante dois minutos ninguém atendeu.

– Rapazes… Acho que teremos que subir juntos, acredito eu que aconteceu alguma coisa com a senhora Severina, ela não atende ao interfone. Preciso saber se ela esta bem. Vamos lá?

Foi então que os três subiram juntos no elevador do edifício, todos calados, sem olhar um para o outro, imaginando o que deveria ter acontecido. Chegando ao apartamento de número 203, o segurança começou a bater na porta chamando:

– Dona Severina! Dona Severina! A senhora está ai?? Tudo bem com a senhora? Temos visitas aqui…

Mais nada saia de lá de dentro, nem um sussurro, nem um grunido que fosse. Apenas um silêncio…um silêncio…

Não deu um minuto, e abruptamente o Segurança com um chute forte abriu a porta do apartamento. E lá estava… um corpo já ressecado pelo tempo de uma velhinha no sofá. As mãos jogadas, a cabeça a direita colocada. Parecia sorrir embrulhada em um suéter de lã cor aparentemente verde. A casa estava totalmente imunda cheirando a mofo, mas ainda mantinha certo requinte. Havia castiçais por toda parte, alguns pareciam ter sido acessos há vários anos. Pelo jeito aquela senhora havia morrido a cerca de quatro anos, justamente quando parou de movimentar sua conta, de pegar mensalmente seu rico dinheiro no Banco.

Ricardo, Odílio e o segurança ficaram perplexos, parados na frente do corpo. Quando os três se aproximaram do cadáver bem devagar, Ricardo encontrara entre os dedos finos e comidos da velhinha um bilhete. Lento ele abriu o papel, enquanto Odílio observa um quarto da casa, próxima da sala…Foi quando o choro veio nos olhos de Ricardo, e auto, visivelmente alterado e sensibilizado o mesmo leu: “estou só como nunca se viu, não desejo morrer assim, sozinha, unutil, preciso de alguém…como dói este vazio que habita meu velho peito” Chorando, desta vez com sussurros descontrolados, e consolado por Odílio, sobre o olhar triste do segurança, Ricardo sentiu pela primeira vez a dor de ter perdido alguém que nunca havia conhecido.

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O JOVEM COMPOSITOR

agosto 27, 2008 at 1:52 am (A Carne da Fábula)

O silêncio vazou devagar, abandonando entre as linhas das mãos, os papéis, e o lápis, já manchados pelos ares pesados de uma cor ausente. Na mesinha papéis amarelados encolhidos por décadas de desamparo. Na cama o velho violão, pasmo pela indiferença do olhar do dono. Na sala apenas os gritos da televisão que imaginavam uma paz solitária que nunca existira. Ao som de uma propaganda de carros a noite escutou a única lágrima caída no papel, e já dormindo na alta noite  o silêncio  vazio do rosto já vermelho de Otto  comia a própria sombra. Houve um remorso de vidro sem música na luz da janela.

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Frases sobre o Jornalismo.

agosto 16, 2008 at 2:48 pm (Relicário de Frases)

JORNALISMO

Não se pode dizer que a imprensa de determinado país ou região é ruim ou boa.

Ela é reflexo e segmento da própria sociedade a que serve.

Alberto Dines (1932-) Jornalista Carioca (O Papel do Jornal).

O jornalismo brutaliza as pessoas, mas ao mesmo tempo as torna mais ligadas à realidade.

Bernardo Ajzenberg (1959-) Jornalista e Escritor Carioca (Extraído do Livro: Pena de Aluguel, de Cristiane Costa).

Em quarenta anos de jornalismo nunca vi liberdade de imprensa. Ela só é possível para os donos de jornal.

Cláudio Abramo (1923- 1987) Jornalista Paulista (A Regra do Jogo).

Ao lado da medicina e da prostituição, o jornalismo é a carreira que melhor familiariza a criatura humana com as misérias da sua condição.

Ledo Ivo (1924-) Poeta e Romancista Alagoano (Confissões de um Poeta).

Em nenhum país de grande literatura deixa de haver grande jornalismo.

Medeiros e Albuquerque (1867-1934) Escritor e Jornalista Pernambucano (Extraído do livro Pena de Aluguel, de Cristiane Costa).

A história da imprensa é a própria história do desenvolvimento da sociedade capitalista.

Nélson Werneck Sodré (1911-1999) Historiador Carioca (História da Imprensa do Brasil).

A glória da imprensa foi feita por gente com opiniões fortes e inconformistas.

Paulo Fracis (1930-1997) Escritor e Jornalista Carioca (Waaal: O Dicionário da Corte de Paulo Fracis)

Nunca apoiei governo algum. Acho que é um dever do jornalista adotar a moto dos anarquistas.

Paulo Fracis (1930-1997) Escritor e Jornalista Carioca (Waaal: O Dicionário da Corte de Paulo Fracis)

A imprensa é à vista da nação.

Rui Barbosa (1849-1923) Político e Diplomata Baiano (Temário de Rui).

Os erros e injustiças da imprensa pela própria imprensa se curam.

Rui Barbosa (1849-1923) Político e Diplomata Baiano (Temário de Rui).

Sempre achei que é o mundo que está à espera de um jornalista, não o contrário.

Samuel Wainer (1912- 1980) Jornalista Russo radicado no Brasil (Minha Razão de Viver).

O jornalista medíocre informa para informar. O autêntico jornalista informa para formar.

Tristão de Ataíde (1893-1983) Pensador Católico e Critico Literário Carioca (O Jornalismo como Gênero Literário).

Assim como a literatura é um tipo especial de arte, o jornalismo é um tipo especial de literatura.

Tristão de Ataíde (1893-1983) Pensador Católico e Critico Literário Carioca (O Jornalismo como Gênero Literário).


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Três passados de amor Poemas…

agosto 10, 2008 at 10:09 pm (Poemas Avulsos)

Estes três poemas a baixo foram escritos em tempos e espaços completamente diferentes, e são homenagens mesmo que simplórias as últimas garrotas que eu gostei… São textos ridículos, mas possuíam em cada época sentidos que me fascinavam… É a arte do amor…ou do desamor

“Amor-chama, e, depois, fumaça…”

Manuel Bandeira (A Cinza das Horas).

Coração de morena

Queria ter forças para suportar a solidão que habita desesperadamente meu peito

Mas relendo meus versos antigos percebo que sou o mesmo infeliz,

O mesmo pobre e magro poeta de amores perdidos e perdidas ilusões.

Queria ter forças pra não morrer de tédio nesta cidade grande e absurda

Feita com cacos de telhados de vidros onde moram reluzentes solidões fingidas

E demasiados amores supérfluos, perdidos em cartas guardadas em gavetas marrons.

Queria ter forças para tolerar calmamente teu lindo sorriso que longe mora.

Não ter inveja dos passarinhos coloridos que convivem contigo nas árvores da tua morada

E que brincam felizes ao redor de ti em meio aos teus maravilhosos cabelos negros e revoltos.

Queria ter forças, Morena, para detonar essas fronteiras, esses muros de dores… Queria ter forças Morena para destruir essas enormes barreiras, e habitar calmamente sorrindo o teu coração decente, vencendo de vez a solidão que desgasta o meu peito de poeta infeliz.

Peso da Alma

Angústia em suspiros maus dispersos

Os beijos que eu dei apaixonados.

Abro os olhos humanos para crer

O que sinto é a presença do passado…

Serei doido, mago ou visionário?

Para não compreender este estranho sentimento

Que vagava sorridente em minha Alma

Mas agora eu bem entendo….

Era tudo mentira ou só desejo?

Ter agora a glória do destino

E lembrar para sempre do “menino”

A doçura “calhiente” dos seus beijos.

Soneto de Encantamento

Cabelos de infância querida

Sorriso de saudade inocência

Tu és a princesa florida!

A moça mais linda da lenda.

Poema perfeito nos traços,

encantada presença de Deus

Nos meus pensamentos escassos

eu sempre sonhando em ser teu…

Eu guardo tua voz com carinho –

na essência do meu coração

e nunca me sinto sozinho.

Pois lembro os beijinhos –

entre abraços calados,

com intensa emoção.

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O PASSAGEIRO

julho 13, 2008 at 10:14 pm (Contos)

SEMPRE FOI TRISTE o menino Anselmo. Andava abatido com seu rostinho pálido olhando apenas o chão. Um sorriso? Quase nunca dava. Não tinha apetite algum, por isso era magrinho como um espeto. Não possuía nenhuma disposição para brincar com outros garotos de sua idade na rua ou na escola. Era introspectivo, solitário e extramente ausente. Seu olhar era sempre afastado, cheio de uma atmosfera de morte, cujas pálpebras transpareciam um sono infinito e sua boca um riso tristemente infeliz.

Quando estava prestes há completar quatorze anos, Anselmo decidiu de maneira drástica acabar com sua própria vida. Para muitos parecerá estranho tal pensamento para um garoto, mas para Anselmo era a vitória necessária que ele desejava no mundo. Não agüentava mais a sua trajetória existencial marcada pela tristeza, pela angústia e pela depressão, em uma cidadezinha infeliz do interior do mais interior do Brasil; não suportava a presença tosca e insensível de sua mãe, sempre ausente de carinho e amor, com sua ignorância e grosseria absurda em palavras e ações, e de seu padrasto, um traste que não fazia outra coisa a não ser beber, beber, beber.

Todavia, apesar de seguro de sua atitude o menino Anselmo possuía várias dúvidas quanto à forma de seu suicídio. Resolveu pesquisar na velha biblioteca municipal, que ficava em sua rua. Lá encontrou em alguns livros e enciclopédias alguns dados para ele muito relevantes. Sempre teve grande interesse pelo tema, sobre as maneiras e principalmente sobre os sujeitos que tiveram a coragem de ser matar. Tinha especial afinidade pela história de vida do ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas, não por suas ações de governo, como seu falecido avô tinha, mas sim por sua coragem diante da morte naquele julho de 1954. Outro personagem na qual gostava bastante, porém escondia de todos na escola era o sanguinário Adolf Hitler. Achava fabulosa toda a história do imperador nazista e de seu fim tão “digno” durante o termino da segunda guerra mundial.

Começou a avaliar as maneiras mais interessantes que poderia dá cabo da própria vida em sua pequena cidade. Entretanto, algo que não escondia nem de si mesmo era o terrível medo que nutria da própria dor; sabia que deveria sentir dor, talvez muita dor, daquelas mais insuportáveis e temíveis, já que ia se matar, porém, queria a qualquer custo encontrar uma maneira mais rápida e se possível menos dolorosa para o seu suicídio.

Começou então a escrever em um velho caderninho o universo de possibilidades para o seu ato destruidor. Depois de duas semanas de pesquisa foi colocando em cada folha do caderno as possíveis formas de se matar. Não achava interessante ingerir veneno, pois ele sabia que “doía muito por dentro”. Não suportaria morrer daquela forma de tão inigualável sofrimento. Aconteceu há algum tempo atrás com o cachorrinho do seu vizinho, e ele viu assustado toda a dor do bichano. “Ele cuspia muito sangue e virava os olhos”, escreveu no velho caderno o garoto. Revólver – “nem pensar!”, foi enfático o menino, “pois faria barulho”, e, além disso, em sua casa não havia armas de fogo, e seria um imenso trabalho para conseguir pela vizinhança. Pular de um edifício? – pensou; “de maneira nenhuma”, em sua cidadezinha os prédios não passavam de dois andares, “eu poderia sobreviver e ser motivo de chacota de todos durante meses, talvez anos”. Afogado? Pensava o garoto, não. Na época suportava-se com muita dificuldade uma estiagem das brabas, e o Rio que abastecia o município estava demasiadamente seco, e “ açude cheio só a léguas de distância”.

Passado já dois meses de seu aniversario, mais angustiado e triste do que nunca, o menino Anselmo decidiu rapidamente o seu fim: Deveria morrer esmagado. Isso mesmo esmagado. Era rápido e todos pensariam que fora um acidente. Além disso, ele gostaria que seu corpo se desestruturasse, se quebrasse em pedaços; não agüentava mais ver sua palidez e magreza no espelho, de sentir o sorriso irônico de todos de sua cidade a rirem de sua feiúra. Anselmo não gostava de si mesmo e ele percebia claramente que todos também não gostavam, inclusive sua família, em especial sua mãe.

A mais ou menos um quilômetro da sua casa passava diariamente às nove horas da noite um trem. Era uma grande Maria Fumaça, que com seu som estridente assuntava a todos da região; não trazia passageiros e sim várias cargas de algodão para a capital. No dia marcado lá foi Anselmo para o seu destino de morte. Era uma quarta-feira, fria e calma, com nuvens ausentes e uma lua linda, clara e redonda. Saiu devagar pelos fundos da casa, sem que sua mãe notasse e com apenas a roupa do corpo. Seu padrasto dormia mais uma vez bêbado no sofá.

Lá chegando ao lugar marcado, cerca de meia hora depois de passear pelas avenidas de arvores secas e pedras vermelhas do sertão, Anselmo sentara em um lugar estratégico onde com certeza o trem não daria tempo de frear, caso o foguista o visse, em uma curva ìmgrime, ao lado de uma pequena serra, conhecida por Serra Vermelha. E chegou uma hora antes do tempo, caso o trem se adiantasse. Sentou paciente, sentindo um pouco de frio, escutou ruídos nos matos, pareciam vacas Deu noves horas, horário no qual o trem sempre passava naquele lugar. E o trem não passou. Dez horas. E o trem não passou. Anselmo decidiu esperar a hora em que o trem viria, seja ela qual fosse. Continuou deitado, com o frio no seu corpo que vinha entre os trilhos feitos de aço, as costelas pareciam já congeladas. Decidiu dormir, sonhando com a vinda triunfal da máquina que lhe levaria para o céu. No outro dia o trem também não passou. E ele continuava lá, persistente, deitado, agora com uma fome e uma dor dilacerante que parecia comer todo o seu corpinho. Anselmo estava determinado por um próprio fim trágico. Seria uma vergonha voltar para sua cidade e sua família. Tinha que morrer a todo custo. Nem que seja de fome e de frio.

Passara uma semana, e o trem não chegou.

Por conta da sede e da fome o menino Anselmo fora encontrado morto deitado nos trilhos, assim como desejara nos últimos momentos de consciência. Seu rosto estava sorrindo como nunca sorriu. Os pássaros brincavam ao ser redor, quando um jovem desconhecido encontrou seu corpo caído e completamente nu, e no fundo atrás do ângulo de visão do menino a placa que dizia: “estão encerradas as atividades ferroviárias nesta região”, e desde deste dia o trem nunca mais passou próximo à cidade…

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Frases sobre o Homem e a Mulher

junho 30, 2008 at 11:33 pm (Relicário de Frases)

MULHER E HOMEM

Para esquecer uma mulher é preciso gostar imediatamente de outra embora seja impossível gostar de outra enquanto não se esquece uma mulher.

Antonio Maria (1921-1964) Jornalista e Cronista Pernambucano (Com vocês Antonio Maria).

Não sou capaz de amar mulher alguma, / nem há mulher talvez capaz de amar-me.

Augusto dos Anjos (1884-1914) Poeta Paraibano (Eu e outras Poesias).

O homem ri para mostrar o espírito. A mulher para mostrar os dentes.

Berilo Neves (1901-1974) Cronista e Humorista Piauiense (Citado por Décio de Almeida Prado no Livro: Peças, Pessoas e Personagens).

È com um pouco de pudor que sou obrigada a reconhecer que o que mais interessa à mulher é o homem.

Clarice Lispector (1925-1977) Escritora Ucraniana Radicada no Brasil (A Descoberta do Mundo)

Não sei o peso do meu corpo sem contar com a medida do teu.

Fabrício Carpinejar (1972-) Poeta e Jornalista Gaúcho (A Terceira Sede).

Pobre daquele que procura amor numa mulher linda, apenas.

Ibrahim Sued (1924-2005) Jornalista Carioca (O Segredo do meu Su… Sucesso).

A mulher ideal é aquela que não percebe os nossos defeitos.

Mário da Silva Brito (1916-) Escritor e Humorista Paulista (Diário Intemporal)

É mais pela vaidade de nos enganar do que pela ânsia de nos possuir que as mulheres nos amam.

Procópio Ferreira (1898-1979) Ator Carioca (Citado por Décio de Almeida Prado no Livro: Peças, Pessoas e Personagens).

Mulher é bom para quem tem muitas.

Stanislaw Ponte Preta (1923-1968) Cronista Carioca (O Melhor de Stanislaw Ponte Preta)

MULHERES

As mulheres bonitas detestam as mulheres bonitas, quando estão gostando muito de um homem feio.

Antonio Maria (1921-1964) Compositor e Jornalista Pernambucano (Com Vocês Antonio Maria).

A mulher de bunda bonita está sempre de costas, mesmo quando de frente.

Arnaldo Jabor (1940-) Jornalista e Cineasta Carioca (A Invasão das Salsichas Gigantes)

È próprio da mulher o sorriso que nada promete e permite imaginar tudo.

Carlos Drummund de Andrade (1902 –1987) Poeta e Cronista Mineiro (O Avesso das Coisas)

Tirando a mulher, o resto é paisagem.

Dante Milano (1899-1991) Poeta Mineiro (Poesia e Prosa).

Há quem goste das magras e há quem goste de gordas. Eu gosto de todas.

Jamelão (1913-2008) Cantor Carioca (Extraído da Revista Veja).

A mulher fácil facilmente se perde; a mulher difícil dificilmente é perdida.

Julio Camargo (1930-2007) Jornalista e Aforista Pernambucano (A Arte de Sofismar)

Em matéria de mulher, há um tipo cem por cento: desquitada, analisada e com apartamento.

Luis Fernando Veríssimo (1936-) Cronista Gaúcho (A Grande Mulher Nua).

Quanto mais conheço os homens, mais aprecio as mulheres.

Mário da Silva Brito (1916-) Poeta e Ensaísta Paulista (Desaforismos).

São desagradáveis e intoleráveis as mulheres, quando saindo da esfera feminina tomam o caráter masculino.

Marquês de Marica (1773-1848) Pensador Carioca (Máximas Reflexões e Pensamentos).

As mulheres quanto mais perdidas mais achadas.

Mauro Mota (1911-1984) Jornalista e Poeta Pernambucano (Antologia em Verso e Prosa).

Numa mulher as outras perdoam tudo, menos uma bunda maravilhosa.

Millõr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millõr Definitivo: A Bíblia do Caos).

Toda mulher bonita leva em si, como lesão da alma, o ressentimento. È um ressentimento contra si mesma.

Nelson Rodrigues (1912-1980) Dramaturgo e Jornalista Pernambucano (Flor da Obsessão).

Nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais.

Nelson Rodrigues (1912-1980) Dramaturgo e Jornalista Pernambucano (Flor da Obsessão).

O HOMEM

O homem deixa de ser quem é para transformar naquilo de que os outros homens precisam.

Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990) Político e Escritor Mineiro (Alto-mar, Maralto).

O humano é um resíduo descartável onde mora a dúvida, a morte.

Arnaldo Jabor (1940-) Jornalista e Cineasta Carioca (Os Canibais estão na sala de jantar).

È mais fácil o homem ser vítima do que autor de sua história.

Augusto Cury (1958-) Escritor Paulista (Análise da Inteligência de Cristo).

Todos nós temos um pouco de poeta, de doido e de palhaço.

Gustavo Corção (1896-1978) Escritor Carioca (Lição de Abismo)

O homem é o câncer da natureza.

Millôr Fernandes (1924-) Escritor e Humorista Carioca (Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos)

Em nosso século, o “grande homem” pode ser, ao mesmo tempo, uma boa besta.

Nelson Rodrigues (1912-1980) Dramaturgo e Jornalista Pernambucano (Flor da Obsessão).

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UM PANORAMA DAS ATIVIDADES ARTISTICO-CULTURAIS EM CAMPINA GRANDE (1960-1980)

junho 27, 2008 at 10:36 pm (Ensaios)

Por Bruno Gaudêncio

1. PRIMEIRAS INCURSÕES

O objetivo deste pequeno ensaio é tecer um panorama remendado das atividades artístico-culturais entre os anos de 1960 e 1980 em Campina Grande, Paraíba, produzindo assim pequenos “fios de sentido” em movimentos memoriais de escritas nas áreas das artes plásticas, do cinema, da literatura e do teatro, procurando assim relacionar a modernidade inerente destas atividades como uma espécie de cobertor, cheio de pedaços de tecidos e panos múltiplos que simbolizam a chegada da cidade de Campina Grande no artesanato da arte moderna contemporânea. Procura-se ainda, dentro dos limites desta escrita de fragmentos de datas e nomes relacionar no final o melhor  da produção cultural e dos espaços artisticos dos dias atuais na cidade.

2. A TESE DE MACHADO BITTENCOURT: CAMPINA GRANDE: UMA CIDADE ANTI-CULTURAL?

Em seu texto Revisão Crítica da atividade cultural em Campina Grande 1950-1975, publicado na Revista Campinense de Cultura na década de 1970, o cineasta e jornalista Machado Bitencourt refere-se à comunidade campinense como não identificada com as vocações artísticas e culturais. Segundo Bittencourt a partir de 1907 adensava-se uma sociedade com raízes heterogêneas, sem vínculos familiares, extremante pragmático e ligado às atividades comerciais e de contabilidade, o que causaria uma não identificação com uma proposta de contribuição intelectual.

Tese que se deve discordar, pois em Campina Grande durante as primeiras décadas do século XX desenvolveu-se sim uma atividade artística cultural de vocação cultural-humanista. Exemplos disso foi o grande número de academias de literatura que existiram (Clube Literário, Grêmio de Instrução, Machado de Assis, Fruteira de Cristino Pimentel, entre outros.) com nomes destacados como: José Pedrosa, Cristino Pimentel, Epitácio Soares, Hortensio Ribeiro, Nilo Tavares, Severino Pimentel, etc. Não podemos esquecer as ações de artistas plásticos como José Santos, as companhias de Teatro estrangeiras que visitavam a cidade no inicio do século, Lino de Azevedo e sua atividade como dramaturgo, os espetáculos musicais e telenovelas na Rádio Borborema, as chamadas produções “ordinárias” no sentido de Michel de Certeau na feira central, um espaço vivo e permanente de cultura. Realmente foi uma produção tímida, centrada quase que exclusivamente na literatura é verdade, mas não podemos generalizar a ponto de afirmar que “no adensamento da sociedade urbana não se identifica uma vocação á atividade cultural”, como fez Machado.

3. A MODERNIDADE EM SEU SENTIDO ESTÉTICO: BAUDELAIRE E O HOMEM NA MULTIDÃO.

Procura-se neste ensaio de caráter informativo relacionar os significados de uma agitação artístico-cultural a partir das décadas de 1960 com um sentido de modernidade em Campina Grande. A Modernidade em seu sentido histórico nesta cidade geralmente tem um sentido material, ou seja, de consumo de objetos modernos, como foi o caso das primeiras décadas quando a elite campinense consumia com todo orgulho os benefícios que o Trem trazia em produtos da moda da Europa. (ARANHA, 2005)

A nossa compreensão de Modernidade será numa lógica das mentalidades, na expressão contida nas produções artísticas de vários artistas ao longo de duas décadas. Em Campina Grande existia sim uma produção artística anterior à década de 1950. Porém as visões estéticas destes artistas anteriores correspondiam a percepções tradicionais de arte. Centrado na pura cópia de modelos clássicos.

Desta maneira perguntamos: O que seria então arte moderna? Seria uma espécie de cultura de Vanguarda? Ou seja, um novo olhar sobre as formas de se expressão, uma transformação das percepções. Desta maneira A arte moderna se refere a uma nova abordagem da arte em um momento no qual não mais era importante que a arte representasse literalmente um assunto ou objeto. É um momento em que os artistas passam a experimentar novas visões, através de idéias inéditas sobre a natureza, os materiais e as funções da arte, e com freqüência caminhando em direção à abstração. Desta forma, a noção de arte moderna está estreitamente relacionada com o modernismo.

A idéia de Arte Moderna tem sua origem no Século XIX na França. Um texto importantíssimo de divulgação deste tipo de arte é o ensaio Sobre a Modernidade, do poeta Charles Baudelaire. Um texto produzido numa fase de agitação cultural na Europa, mas especificamente em paris, a capital cultural da Europa, no quais artistas como Emile Zola, Manet, Baudelaire e tantos outros intelectuais tencionavam transformar as artes e a literatura.

A arte moderna é então uma nova arte preocupada com o cotidiano, com os costumes do presente, com a moral e a estética da sua época. Segundo Baudelaire a essência desta arte estaria na compreensão sobre a vida ordinária, E desta concepção que ele criaria a sua Teoria racional e histórica do Belo. De acordo com Baudelaire O belo inevitavelmente sempre tem uma dupla dimensão, embora seja na realidade uma. O belo é construído por um elemento eterno (o invariável) e um elemento relativo (Circunstancial). Neste ultimo elemento estão à época, a moda, a moral, a paixão. Daí ele produz no ensaio um estudo analisando a obra do artista plástico Constatin Guys (O artista, homem do mundo, homem das multidões e da criança). Desta maneira, a artista seriam as antenas da raça no sentido de Pound, em seu sentido descrito no ABC da Literatura, um sujeito histórico privilegiado.

4. CARTOGRAFIAS DAS ARTES EM CAMPINA GRANDE

Nesta fase pretendemos realizar uma espécie de cartografia das atividades artístico-culturais em Campina Grande de 1960 a 1980, nas áreas das artes plásticas, cinema, literatura e teatro. Fase marcante na história da cidade havendo um entrelaçamento de diversos grupos e sujeitos que atuavam isoladamente, e que se juntavam em busca de uma atuação estética.

Dentro desta delimitação que propomos dois acontecimentos são de grande importância neste contexto. O primeiro, a Crise econômica ocorrida após a segunda Guerra mundial na cidade de Campina Grande. De acordo Bittencourt a partir do “ano de 1960 constitui um começo de década particularmente crítico para Campina Grande. Desde o fim da segunda guerra mundial, a atividade comercial da cidade vinha sofrendo sérios abalos. O maior deles historicamente foi o confisco cambial. Com a derrocada da exportação direta os comerciantes buscaram novas opções para as suas atividades.” O outro acontecimento de muita importância foi justamente as conseqüências da eclosão do golpe militar ocorrida em 1964. Esse acontecimento possibilitou um processo de transformação das artes em geral devido principalmente à censura a imprensa e a repressão aos diversos artistas engajados em várias questões políticas e sociais na época.

O maio de 1968, por exemplo, representou um retraimento do trabalho de caráter cultural desenvolvido no ambiente universitário. Não são poucos em relatos de personagens como Neumanne Pinto, Bezerra de Sousa e Machado Bittencourt, que sofreram com a censura e a repressão, alguns perdendo os seus direitos políticos e tendo que se retirar da cidade.

Dentro de uma consciência cultural emergente que estava se formando antes de nossos tecidos delimitadores, alguns fatos ocorreram e são da maior importância para sustentar a nossa tese de agitação cultural e artística em Campina Grande. São elas: a Fundação da Escola de Artes de Campina Grande (1950), a Instalação do Curso de Engenharia de Escola Politécnica (1952), o Funcionamento da Faculdade Católica de Filosofia (1955) e a Fundação do Diário da Borborema (1957).

Até mesmo dentro de nossa delimitação outros fatos são de grande importância para compreensão da agitação cultural existente entre as década de 1960 e 1970, como Criação da Universidade Regional do Nordeste (1966),A Criação da Fundação Cultural Luiz Carlos Virgulino (1966), que contribuiu na atuação em atividades neste mesmo ano, como fundação de galerias de arte, curso de filosofia e cinema, concursos de peças teatrais, etc.

Passamos então agora pelo nosso olhar panorâmico, infelizmente incompleto, sobre a pele das artes campinenses, sem seus tecidos estéticos, cheios de nomes e siglas e que dão uma dimensão de sentidos e sonhos da produção cultural desta cidade.

4.1. ARTES PLÁSTICAS

As artes plásticas na Paraíba têm uma tradição forte no Brasil que se remete ao século XIX, com as famosas obras de Pedro Américo, mas mesmo durante o século XX essa tradição se manteve, principalmente a partir da década de 1950, com artistas como Archidy Picado e Raul Córdola Filho na capital João Pessoa, e estetas do gabarito de Francisco Pereira e José Santos, especialmente a partir das décadas de 1960. não podemos esquecer ainda de Antonio Dias e João Câmara, nomes destacados do cenário das artes plásticas nacionais.

Depois da Fundação da Escola de Artes de Campina Grande em 1950, que durou pouco mais de três anos, um outro grande acontecimento para artes plásticas foi a Fundação da Associação Pró-Arte em 1960. Todavia, o maior de todos os acontecimentos históricos para as artes plásticas campinenses foi indiscutivelmente a criação do Museu de Artes Assis Chateaubriand no ano de 1967, segundo Nascimento (2000) a inauguração do museu “constitui-se um acontecimento registrado como um dos maiores da história da cidade.”

O nome inicial do museu foi “Museu Regional de Arte Pedro Américo”, e teve sua sede inaugural no antigo colégio Sólon de Lucena, localizado na avenida Floriano Peixoto. Só em 1976, é que o museu, batizado de Museu de Artes Assis Chateaubriand (seu fundador) foi transferido para o largo do Açude Novo. Na verdade o acervo foi obtido pela campanha nacional desenvolvida por Assis Chateaubriand.

O Museu conta hoje com 474 obras das mais diversas tendências estéticas, entre pinturas, esculturas, colagens, a maioria das peças foi doada na época da fundação, numa coleção que abrange obras que vão desde o Academismo Neoclássico Brasileiro ao processo modernizador, passando pelo abstracionismo, e completado por representação da neovanguarda da década de sessenta, incluindo também importantes artistas da arte Primitiva. Destaque para o Neo-classicismo, de Pedro Américo (A Cabeça) e Aurélio de Figueiredo, os antológicos percussores da modernidade como Ismael Nery, Di Cavalcanti e Anita Malfati (A Beira do Riacho) , e modernistas mais recentes como Santa Rosa e Portinari (Espantalho), e não se poderia esquecer os contemporâneos como o artista multimídia paraibano Antonio Dias. Quanto aos estrangeiros, destaque para as obras de Gaites, Alain Jaquet, Foujita, Eliseu Visconti, Frans Krajcberg, entre outros. Alguns doadores foram: Drault Ernany, Governo Soviético, João Calmon, Noujaim Habibi, Bradesco, Laudo Natel, Diário de Pernambuco.

Segundo Nascimento (2000): “Se antes, as artes visuais representavam uma das menores atividades culturais, uma população que vivia exclusivamente do comércio e, sendo a vida artístico-cultural restrita a uma pequena minoria, depois da criação em 1967, se processou uma das mais intensas movimentações nas artes plásticas, tornando a imponente cidade “Rainha da Borborema”, um dos centros artísticos do Nordeste, e por que não dizer, do Brasil.”

4.2. CINEMA

Com relação ao cinema em Campina Grande a cidade pouco produziu em sua história em termos de filmes, entretanto durante estas duas décadas delimitadas houve a atuação destacada do jornalista e fotógrafo Machado Bittencourt, autor de dezenas de filmes, entre eles destaque para os documentários: A Feira, O Ultimo Coronel, Campina Grande da prensa do algodão, á prensa de Gutenberg e as ficções Maria Coragem (1977) e o caso Carlota, de 1983. Jureni Machado Bittencourt Pereira nasceu no Piauí em 1942, mas foi, como costumava dizer, “adotado” por Campina Grande.
O jornalista e fotógrafo instalou na cidade um dos raros estúdios cinematográficos na bitola 16 do país, a “Cinética Filmes Ltda”. Ele era um publicitário nato que atuava em jornais, rádio, TV, revistas e na elaboração de dezenas de filmes. A Cinética filmes Ltda. foi fundada por Machado em 1974. Segundo Leal (2007) a concretização deste empreendimento “só foi possível pela necessidade que tinha Machado de por em prática duas idéias que corriam juntas equipara-se para produzir filmes para a TV e, eventualmente, documentários culturais, e permitir a existência de um local para aprendizado dos seus alunos de jornalismo.”

Além dos filmes de Machado Bitencourt, houve algumas experiências coletivas, como as do cines jornais na década de 1960, a do documentário institucional Natal 70, dos jovens cineclubistas do Campina Grande, os curtas de Romero Azevedo na década de 1970, além do curta metragem experimental SYLCYZ de Regina Coeli, realizado em 1969.

4.2.1. CINECLUBISMO

A gênese do cineclubismo campinense aconteceu no ano de 1964, com a fundação do Cineclube Campina Grande, por iniciativa dos engenheiros Luiz Carlos Virgulino e Hamilton Freire, ficando a entidade responsável pelas sessões de cinema de arte no cine Capitólio. Antes disso, por diversas vezes, houve tentativas de se implantar um clube de cinema na referida cidade, no entanto, estas nunca se objetivaram. Em 1966, Luis Carlos Virgulino falece devido a um acidente de automóvel, e o cineclube acaba fechando as suas portas, só voltando a funcionar em Maio de 1967, quando o então critico de cinema Dorivan Marinho (ex-membro da entidade), realizando um curso sobre linguagem cinematográfica no Centro Estudantil Campinense no mês de Abril, percebeu o interesse de diversos jovens, propondo a eles então que assumissem o cineclube Campina Grande. Estes toparam a idéia. Esses jovens eram: Bráulio Tavares, Luis Custódio da Silva, Marcus e Jackson Agra, Romero e Rômulo Azevedo, José Umbelino Brazil, entre outros.

Neste mesmo ano do ressurgimento do Cineclube Campina Grande, houve a fundação do Cineclube Glauber Rocha, por iniciativa de José Nêumanne Pinto, Iremar Maciel, Agnaldo Almeida e Regina Coeli. Nele ainda participaram nomes como Arnaldo Xavier, Adalberto Barreto, Antonio Moraes Neto, Aderaldo Tavares e José Souto. Segundo Agnaldo Almeida, hoje um dos mais importantes articulistas políticos da Paraíba, este cineclube era uma entidade extremamente politizada: “O Cineclube surgiu como espaço para se discutir o cinema de arte. Claro, que havia um componente político. Estávamos em meio a uma ditadura e era inevitável que quiséssemos nos reunir e conversar”.

Uma das conseqüências da existência destes cineclubes na cidade na década de 1960 foi o crescimento continuo de colunas de critica especializada nos jornais e programas de Rádio. Dorivan Marinho, Iremar Maciel, Luis Custódio, Humberto de Campos, entre outros, se destacaram nestas funções.

Em 1969 deixa de funcionar o cineclube Glauber Rocha e em 1970 fecha suas portas de vez também o cineclube Campina Grande. Que motivações contribuíram pra estas desativações? Tanto para os componentes do Glauber Rocha, como do Campina Grande, o que fica claro é que houve uma espécie de atmosfera inviável para este tipo de atividade no período.

Uns dos aspectos mais importantes das trajetórias destes dois cineclubes foram às produções que ambos realizaram. O cineclube Campina Grande, por exemplo, chegou a produzir em 1970 um documentário institucional produzido para a prefeitura da cidade intitulado Natal 70. O filme filmado em 16 mm teve o roteiro e a direção coletiva. Já o cineclube Glauber Rocha produziu através de Regina Coeli o curta metragem SYLCYZ, que competiu no Festival JB em 1969 no Rio de Janeiro.

Após o termino dos dois primeiros cineclubes na cidade, parte dos componentes de ambos, principalmente do cineclube Campina Grande, acabaram exercendo a atividade cineclubista no museu de Arte Assis Chateaubriand. Isso entre os anos de 1970 e 1979. Segundo Umbelino Brazil, hoje professor de Comunicação na UFBA e diretor premiado, “agregamos o cineclube ao Museu de Arte por sugestão do artista plástico e diretor do Museu Chico Pereira, ele criou o Departamento de Cinema, funcionava como um ‘guarda-chuva’ para as nossas atividades cinematográficas, não tinha o mesmo caráter do cineclube, pois passamos a ser regidos, mas sem censura pela Universidade, aliás, tivemos respaldo para exibir filmes na época considerados com “objetos subversivos” como os filmes de Serguei Eisenstein. Além de Umbelino Brazil, que depois se tornou diretor de arte do museu até 1976, participaram: Rômulo e Romero Azevedo, Mica Guimarães, Roberto Coura, Arly Arnaud entre outros.

Para Arnaud, hoje uma importante atriz brasileira, os mais assíduos participantes da entidade eram chamados de garotos do museu, “nós éramos os garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones”, – declarou. Quanto ao cinema Arly Arnaud lembra de filmes de Pasolini, Fellini, Buñuel, Polanski etc. e revelou que nunca mais foi à mesma depois desta experiência. A arte estava presente nestes jovens, principalmente através do cinema.

A década de 1970 é a dos cineclubes em Campina Grande, várias destas associações foram criadas em escolas e cursos universitários da cidade. Destacam-se a fundação do cineclube Humberto Mauro em 1974 (da escola PIO XI), o Paulo Pontes (do curso de Engenharia da UFPB) e o 11 de Agosto (do curso de medicina da UFPB) em 1976. Estes cineclubes na maioria das vezes duraram pouco tempo, com exceção do Humberto Mauro, que ficou ativo até o ano de 1979.

Na mesma década de 1970 foi fundado um dos mais importantes cineclubes da história de Campina Grande, não só pelo seu longo período de duração (cerca de dez anos), mas principalmente por sua expressiva atividade em prol do cinema de arte na cidade. Foi o cineclube Ruy Guerra, fundado em 1976, por iniciativa do jornalista Ronaldo Dinoá. Esta associação funcionou durante muito tempo no auditório no INSS, no centro da cidade.

4.3. LITERATURA

Na literatura em Campina Grande, dos tempos áureos nas primeiras cinco décadas do século XX, maçado por recitais e clubes literários, passou-se por momentos mornos, cujos fios de sentidos poucos se expressaram. Dois momentos foram os mais importante, do ponto de vista literário e editorial: o primeiro, foi durante Centenário de Campina Grande em 1964, houve a Publicação dos seguintes livros: História de Campina Grande, de Elpídio de Almeida e História Eclesiástica de Campina Grande, de Boulanger Uchoa. Dentro deste mesmo contexto foi criada COMCENT (comissão Executiva do centenário de Campina Grande), o que viabilizou a publicação de mais livros como: primeiramente ”Coletânea de Autores campinenses”, diversos autores, Obra literária, de Felix Araújo, “Horas de Enlevo”, de Mauro Luna, em 1964 e os títulos: “Um cronista do sertão no século passado”, de Geraldo Joffily e “Jornal de Arte”, de Ruben Navarro, em 1965. Ainda em 1964 inicia-se a publicação dois primeiros números da famosa Revista Campinense de Cultura, editada pela já referida comissão, que tinha entre seus membros nomes como: Elpídio de Almeida, Raymundo Asfora, Severino Bezerra de Carvalho, entre outros.

Em relação a Severino Bezerra de Carvalho há um fato muita interessante. No ano do centenário o médico pernambucano radicado em Campina Grande publica uma grande sátira a alguns nomes da cultura e da política campinense, em seu livro “Memórias de Casmurrindo Vespa”, com o pseudônimo de Seno Bocalho.

Ainda na década de 1960 e principalmente na década de 1970 dois irmãos constroem as suas literaturas de formas totalmente diferentes e se destacam nacionalmente inclusive. Um, um político e poeta boêmio: Figueiredo Agra, autor de várias coletâneas de poesias, entre eles: “Guarda estes poemas Luciene” e “Os Hemisférios Loucos” Elizabeth Marinheiro, educadora, ensaísta e responsável pelos Corais Falados Manuel Bandeira e Cecília Meireles, que fizeram muitos sucessos nas décadas de 1970.

Já no final da década de 1970 surge uma revista que coloca nos dizeres de Astier Basílio “Campina na ordem do dia do debate estético nacional”. Foi a revista Garatuja (1977), editada por um grupo constituído por José Antônio Assunção, Antônio Morais de Carvalho, Bráulio Tavares, os irmãos Jackson e Marcos Agra, entre outros.

4.4. TEATRO

Das artes enredadas aqui nestes escritos inegavelmente o teatro se destaca, seja pelas quantidades de obras, seja pelas qualidades de grupos e peças criadas e encenadas na cidade durante as décadas de 1960 e 1980. Alguns fatores podem explicar essa tendência, a principal delas, foi eclosão do golpe militar de 1964, quando um bom número de atores e dramaturgos impossibilitados de encenar suas peças censuradas no sul do país acabaram sendo chamados para Campina Grande.

Mas antes do golpe de 1964, Campina Grande já tinha uma movimentação teatral, a melhor fase anterior a este período, é a fase da implantação da rádio Teatro Borborema nos anos 1950 pelo cearense Fernando Silveira, com a criação do grupo “os comediantes”, com atores destacados como a famosa Nair Belo.

Entretanto, o maior acontecimento relativo à história do Teatro campinense foi à criação do Teatro Municipal Severino Cabral em 1963, portanto antes mesmo do golpe militar. A inauguração ocorreu em 30 de Novembro, com a apresentação do ator e na época humorista José de Vasconcelos. O projeto em forma de apito ou flauta foi criado pelo engenheiro Geraldinho Cruz.

A existência do novo e grande espaço estimula as novas vocações e revigora as antigas. Nascem grupos, numerosos atores e autores são revelados. É criado o Teatro Universitário Campinense, que teve diretores como Wilson Maux, Milton Baccarenlli e Walter Pessoa. Antonio Alfredo Câmara funda o grupo “Raul Pryston”, Adhemar Dantas adota o “grupopovo”, que se tornaria “Cacilda Becker”, Hermano José reúne jovens idealistas no GEVAR – grupo Experimental de várias artes, e Elizabeth Marinheiro tiram do âmbito colegial os seus grupos, criando a Fundação Artístico Cultural Manoel Bandeira. Foi ainda no Teatro Municipal que se realizou os Festivais de Poesia (de 1966 a 1972), organização da mesma Elizabeth Marinheiro.

Adhemar Dantas consegue trazer grupos de outros estados em suas semanas de teatro e institui as semanas de Teatro Colegial (1970/71) que revelariam vários atores. Muitas peças proibidas acabam sendo encenadas aqui. O grupo de Teatro Universitário Campinense faz a encenação de obras como “Via sacra”, de Henry Gehon e “Eles não usam Black Tié”, de Gianfrascesco Guarnieri. Outro marco foi à encenação da Peça “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, pelo Grupo Raul Physton.

Em 1973, a educadora Eneida Agra Maracajá assume a direção do teatro Municipal onde já promovera seus festivais infatins, e em 1974 é autora do I FENAT – Festival Nacional de Teatro Amador, que muito influiria no intercambio entre artistas de todos os estados brasileiros, para elevar o nível do teatro local.

E foi justamente da ampliação do FENAT que nasce o Festival de Inverno de Campina Grande, considerado na época um dos mais importantes do Brasil. Nomes como Regina Duarte, Ariano Suassuna, Ana Botafogo, Márcio Sousa, tornara-se figuras comuns dos corredores do Teatro municipal neste período. Campina Grande tornou-se assim o encontro dos grupos teatrais do norte, sul e oeste que se encontravam no Nordeste debatendo todos os aspectos do teatro como fator cultural. Nesta mesma época, década de 1970, Revela-se a dramaturga Lourdes Ramalho, ganhadora de diversos prêmios nacionais, e autora de obras como A Feira.

Desta maneira, concluímos que havia todo um movimento de agitação cultural, criada por indivíduos como Eneida Maracajá, Rômulo e Romero Azevedo, Wilson Maux, Bráulio Tavares, Hermano José, entre outros, que colocaram as suas idéias em prática, ou seja, teceram os seus fios de sentidos em seus tecidos de sonhos.

5. UM QUADRO ATUAL DAS ATIVIDADES ARTISTICAS-CULTURAIS EM CAMPINA GRANDE

Avaliando de forma diríamos superficial, com um olhar crítico e sedutor, perceberemos certa apatia na produção artística e cultural campinense nos dias atuais, se compararmos evidente com as décadas passadas de nosso estudo (anos 1960 e 1970). Tudo que é produzido atualmente nesta cidade parece não ser compartilhada pela sociedade em geral, não que a arte nas décadas de 1960 e 1970 era popular, longe disso, mas os festivais possibilitavam um dialogo maior entre as elites intelectuais com a população da cidade. Hoje isso não acontece de forma alguma.

Mas apesar desta tímida presença cultural nos dias atuais possuímos algumas especificidades, artistas ainda engajados e espaços de cultura abertos, com seus problemas é verdade, mas a disposição da comunidade em geral. Vejamos nossas venturas e desventuras, ou grandezas e misérias culturais, em nossos fios de sentidos em tecidos de sonhos:

* Temos um cenário musical alternativo forte, com nomes como Val Donato, Jorge Ribbas, Fidélia Cassandra, Toninho Borbo e diversas bandas de pop rock que se apresentam semanalmente em calouradas e barzinhos espalhados na cidade.

* Temos o projeto Seis e Meia, com preços accessíveis e com atrações de ótima qualidade;

* Temos uma produção cinematográfica considerável, sendo os nossos produtores pouco a pouco sendo reconhecidas nacionalmente, como é o caso de Taciano Valério, Rodrigo Nunes, André da Costa Pinto, Breno César, Helton Paulino, entre outros.

* Temos um Movimento cineclubista renascendo, mesmo que com características completamente diferentes de épocas passadas, com a criação dos Cineclubes Machado Bittencourt, Mário Peixoto, entre outros.

* Apesar de nada comparado as décadas de 1960 e principalmente 1970, temos algumas companhias de Teatro, como os Grupos da Universidade Estadual da Paraíba e a do Teatro Municipal.

* Temos grupos musicais sui generis como Couroencanto (coral da UFCG), Duduca e os chorões (Grupo de Choro), o Grupo Cabruera, a Orquestra Sanfônica, do maestro Edgar Miguel.

* Temos o SESC Centro que se destaca nacionalmente no apoio as artes. Trazendo peças, espetáculos de música e danças de todo o Brasil para o município de Campina Grande.

* Temos eventos mesmo que com diversos problemas estruturais como O Festival de Inferno, Encontro da Nova Consciência, o Comunicurtas e o Congresso de Violeros. E por que não falar na Micarande, as vaquejadas e o São João, considerado o maior do mundo.

* Temos O FUMUC (Fundo Municipal de Incentivo a Cultura de Campina Grande). Um dos poucos programas de financeiro para os artistas locais, a exemplo do FIC (Fundo de Incentivo a cultura Augusto dos Anjos). Do Governo Estadual.

* Temos ainda os problemáticos espaços como O Teatro Municipal, o Teatro Elba Ramalho, o Museu Assis Chateaubriand, o Museu Luiz Gonzaga, o Centro Cultural Lourdes Ramalho, o CUCA, O Sueli Carolini, o Museu do Algodão, o Café e Poesia, a Academia Campinense de Letras, o Museu Histórico e Geográfico de Campina Grande. Problemáticos justamente pelas qualidades dos usos destes espaços.

Fica a pergunta sobre as limitações de nossos artistas e dos espaços culturais existentes e a clara apatia de nossa população em relação às artes nos dias atuais. Seremos mesmo uma cidade sem vocação para arte? Ou tudo não passa de uma invenção da modernidade, uma tendência atual, que nos fazem sermos sujeitos que foge das matérias reflexivas?

BIBLIOGRÁFIA BÁSICA:

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