CRÔNICA DA ÁRVORE ANGUSTIADA

novembro 16, 2008 at 4:11 pm (Uncategorized)

vladimir-kush

“Quando os homens não olham para a natureza, julgam sempre poder melhorá-la.”

(John Ruskin)

Olhando certos humanos que atravessam displicentemente as ruas desta cidade onde vivo, percebo a maldita indiferença que ambos nutrem por mim. Eu um pobre ser indefeso, uma árvore solitária, centenária, que vive enclausurada na dor, longe de todo aquele ambiente lindo, lírico da qual vivia há décadas passadas. Tempos em que a terra habitava os meus pés; anos em que a chuva jorrava tranqüila o seu liquido mais delicioso… em meus cabelos verdes… em meus pequeninos frutos vermelhos.

Antes a chuva era muito mais abundante e generosa em sua dádivas, além disso, era carinhosa e de um cheiro doce que embriagava a todos os seres naturais ao redor. Hoje a ela é rara e muito diferente destes tempos atrás da qual me refiro. Parece ser apenas um simples molhar desenfreado e sem nenhum tipo de lirismo e paixão, nem cheiro possui mais os pinginhos. Suponho que a natureza se vendeu de vez ao caos em que tudo está inundado, com essa crise ética da humanidade, marcado pelo desrespeito ao meio ambiente. A minha natureza amada da qual sou representante está a sofrer. Pobre de mim!

O calor atual queima os meus frutos, e minha pele já não suporta mais o terror dos mormaços, provenientes dos maus tratos que os homens vêem cometendo com o planeta terra ao longo principalmente destas ultimas décadas. Minhas folhas ressecam facilmente, meu grosso e velho tronco, abruptamente se descasca, se desfragmenta em pedaços mortos, que se espalham pela calçada. Estou num processo initerupto de destruição. Sinto meu fim.

Sou centenária, tenho mais anos de vida do que qualquer humano passante aqui neste momento, nesta rua infeliz, de uma cidade qualquer. E como estes pobres velhos que moram na minha esquina em um asilo imundo, vivo numa solidão absurda, sofrendo em desesperos com a falta de zelo, carinho e amor. No desamparo quase total. Sofro com a indiferença constante até dos animais.

Lembro-me com muito carinho de um cachorrinho, de pêlos brancos e pontos negros na nuca que todos os dias pela manhã bem cedinho vinha me cumprimentar com seu líquido amarelo. Eu me deliciava com sua alegria contínua, com o morno do seu mijar, vendo o seu rabinho balançando devagar em círculos de felicidade. Eu me sentia dono daquele pequeno animal, tão lindinho, e ele com certeza, sentiam-se também dono de mim. Era a comunhão com a natureza. Eu me achava amado naqueles tempos. Hoje, ninguém olha mais para mim. Onde estão os pássaros desta cidade meu Deus? Os canarinhos, as pita-silvas, os simples pardais, e tantos outros que passeavam animados por minhas madeixas verdes, cantando alegremente suas músicas coloridas em meio aos meus pequenos frutos.

Oh que tempos bons eram aqueles! Em que a natureza ainda se manifestava límpida nesse universo urbano, agora uma louca e desumana selva de pedras, cheio de carros, poluição e pessoas indiferentes e mal-educadas. Como eu queria viver novamente, com aquela natureza linda, colorida, ao meu redor, tempos em que eu era apenas uma pequena plantinha, simples e feliz, que crescia delicada numa floresta calma, próxima a uma pequena vila. Eu era feliz e não sabia. Hoje, velha, sofro os descaminhos de uma cidade que não olha nem pra si.

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4 Comentários

  1. Jaquelyne Costa said,

    Eu vivo de vontade de um dia me tornar árvore e serir de abrigo às almas plumadas e às que não têm asas também…

    Beijos, querido!!
    Um magnífico escrito!

  2. Francisco Cabral Júnior said,

    Foi interessante como vc, entre tantas maneiras que existem por aí para criticar a urbanização desenfreada, o desmatamento nas cidades e a mudança climática, fpo criativo a ponto de escolher logo ser o porta-voz de uma espécie vegetal pensante, uma real vítima de todos esses efeitos. Isso chama-se EMPATIA. Todo mundo quer ser simpático, mas dificilmente vemos alguém preocupado em ser EMPÁTICO. parabéns pela iniciativa e pela bolada do cachorro mijando na árvore (risos).
    Já mandei o ensaio da Blecaute para seu e-mail, vc recebeu?
    Boa semana!

  3. Samelly Xavier said,

    Bruno, queridíssimo, nem sabia que você tinha blog. Econtrei-o nos links de um outro amigo e o adicionei à minha lista de preferidos. Se quiser, passa lá na minha nova casa virtual.

    Beijo recitado

  4. Maris Stella said,

    Caro Bruno, eu o encontrei navegando por este vasto mar de informações… E por uma dessas coisas da vida, parei por aqui, achei a prosa boa e fui ficando. Encantada com sua precocidade e conquistas. Parabéns pelo empenho! Espero um visita sua para que possamos nos conhecer melhor…
    Belíssimo este texto!!

    Um carinhoso abraço!!

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