UM PANORAMA DAS ATIVIDADES ARTISTICO-CULTURAIS EM CAMPINA GRANDE (1960-1980)

junho 27, 2008 at 10:36 pm (Ensaios)

Por Bruno Gaudêncio

1. PRIMEIRAS INCURSÕES

O objetivo deste pequeno ensaio é tecer um panorama remendado das atividades artístico-culturais entre os anos de 1960 e 1980 em Campina Grande, Paraíba, produzindo assim pequenos “fios de sentido” em movimentos memoriais de escritas nas áreas das artes plásticas, do cinema, da literatura e do teatro, procurando assim relacionar a modernidade inerente destas atividades como uma espécie de cobertor, cheio de pedaços de tecidos e panos múltiplos que simbolizam a chegada da cidade de Campina Grande no artesanato da arte moderna contemporânea. Procura-se ainda, dentro dos limites desta escrita de fragmentos de datas e nomes relacionar no final o melhor  da produção cultural e dos espaços artisticos dos dias atuais na cidade.

2. A TESE DE MACHADO BITTENCOURT: CAMPINA GRANDE: UMA CIDADE ANTI-CULTURAL?

Em seu texto Revisão Crítica da atividade cultural em Campina Grande 1950-1975, publicado na Revista Campinense de Cultura na década de 1970, o cineasta e jornalista Machado Bitencourt refere-se à comunidade campinense como não identificada com as vocações artísticas e culturais. Segundo Bittencourt a partir de 1907 adensava-se uma sociedade com raízes heterogêneas, sem vínculos familiares, extremante pragmático e ligado às atividades comerciais e de contabilidade, o que causaria uma não identificação com uma proposta de contribuição intelectual.

Tese que se deve discordar, pois em Campina Grande durante as primeiras décadas do século XX desenvolveu-se sim uma atividade artística cultural de vocação cultural-humanista. Exemplos disso foi o grande número de academias de literatura que existiram (Clube Literário, Grêmio de Instrução, Machado de Assis, Fruteira de Cristino Pimentel, entre outros.) com nomes destacados como: José Pedrosa, Cristino Pimentel, Epitácio Soares, Hortensio Ribeiro, Nilo Tavares, Severino Pimentel, etc. Não podemos esquecer as ações de artistas plásticos como José Santos, as companhias de Teatro estrangeiras que visitavam a cidade no inicio do século, Lino de Azevedo e sua atividade como dramaturgo, os espetáculos musicais e telenovelas na Rádio Borborema, as chamadas produções “ordinárias” no sentido de Michel de Certeau na feira central, um espaço vivo e permanente de cultura. Realmente foi uma produção tímida, centrada quase que exclusivamente na literatura é verdade, mas não podemos generalizar a ponto de afirmar que “no adensamento da sociedade urbana não se identifica uma vocação á atividade cultural”, como fez Machado.

3. A MODERNIDADE EM SEU SENTIDO ESTÉTICO: BAUDELAIRE E O HOMEM NA MULTIDÃO.

Procura-se neste ensaio de caráter informativo relacionar os significados de uma agitação artístico-cultural a partir das décadas de 1960 com um sentido de modernidade em Campina Grande. A Modernidade em seu sentido histórico nesta cidade geralmente tem um sentido material, ou seja, de consumo de objetos modernos, como foi o caso das primeiras décadas quando a elite campinense consumia com todo orgulho os benefícios que o Trem trazia em produtos da moda da Europa. (ARANHA, 2005)

A nossa compreensão de Modernidade será numa lógica das mentalidades, na expressão contida nas produções artísticas de vários artistas ao longo de duas décadas. Em Campina Grande existia sim uma produção artística anterior à década de 1950. Porém as visões estéticas destes artistas anteriores correspondiam a percepções tradicionais de arte. Centrado na pura cópia de modelos clássicos.

Desta maneira perguntamos: O que seria então arte moderna? Seria uma espécie de cultura de Vanguarda? Ou seja, um novo olhar sobre as formas de se expressão, uma transformação das percepções. Desta maneira A arte moderna se refere a uma nova abordagem da arte em um momento no qual não mais era importante que a arte representasse literalmente um assunto ou objeto. É um momento em que os artistas passam a experimentar novas visões, através de idéias inéditas sobre a natureza, os materiais e as funções da arte, e com freqüência caminhando em direção à abstração. Desta forma, a noção de arte moderna está estreitamente relacionada com o modernismo.

A idéia de Arte Moderna tem sua origem no Século XIX na França. Um texto importantíssimo de divulgação deste tipo de arte é o ensaio Sobre a Modernidade, do poeta Charles Baudelaire. Um texto produzido numa fase de agitação cultural na Europa, mas especificamente em paris, a capital cultural da Europa, no quais artistas como Emile Zola, Manet, Baudelaire e tantos outros intelectuais tencionavam transformar as artes e a literatura.

A arte moderna é então uma nova arte preocupada com o cotidiano, com os costumes do presente, com a moral e a estética da sua época. Segundo Baudelaire a essência desta arte estaria na compreensão sobre a vida ordinária, E desta concepção que ele criaria a sua Teoria racional e histórica do Belo. De acordo com Baudelaire O belo inevitavelmente sempre tem uma dupla dimensão, embora seja na realidade uma. O belo é construído por um elemento eterno (o invariável) e um elemento relativo (Circunstancial). Neste ultimo elemento estão à época, a moda, a moral, a paixão. Daí ele produz no ensaio um estudo analisando a obra do artista plástico Constatin Guys (O artista, homem do mundo, homem das multidões e da criança). Desta maneira, a artista seriam as antenas da raça no sentido de Pound, em seu sentido descrito no ABC da Literatura, um sujeito histórico privilegiado.

4. CARTOGRAFIAS DAS ARTES EM CAMPINA GRANDE

Nesta fase pretendemos realizar uma espécie de cartografia das atividades artístico-culturais em Campina Grande de 1960 a 1980, nas áreas das artes plásticas, cinema, literatura e teatro. Fase marcante na história da cidade havendo um entrelaçamento de diversos grupos e sujeitos que atuavam isoladamente, e que se juntavam em busca de uma atuação estética.

Dentro desta delimitação que propomos dois acontecimentos são de grande importância neste contexto. O primeiro, a Crise econômica ocorrida após a segunda Guerra mundial na cidade de Campina Grande. De acordo Bittencourt a partir do “ano de 1960 constitui um começo de década particularmente crítico para Campina Grande. Desde o fim da segunda guerra mundial, a atividade comercial da cidade vinha sofrendo sérios abalos. O maior deles historicamente foi o confisco cambial. Com a derrocada da exportação direta os comerciantes buscaram novas opções para as suas atividades.” O outro acontecimento de muita importância foi justamente as conseqüências da eclosão do golpe militar ocorrida em 1964. Esse acontecimento possibilitou um processo de transformação das artes em geral devido principalmente à censura a imprensa e a repressão aos diversos artistas engajados em várias questões políticas e sociais na época.

O maio de 1968, por exemplo, representou um retraimento do trabalho de caráter cultural desenvolvido no ambiente universitário. Não são poucos em relatos de personagens como Neumanne Pinto, Bezerra de Sousa e Machado Bittencourt, que sofreram com a censura e a repressão, alguns perdendo os seus direitos políticos e tendo que se retirar da cidade.

Dentro de uma consciência cultural emergente que estava se formando antes de nossos tecidos delimitadores, alguns fatos ocorreram e são da maior importância para sustentar a nossa tese de agitação cultural e artística em Campina Grande. São elas: a Fundação da Escola de Artes de Campina Grande (1950), a Instalação do Curso de Engenharia de Escola Politécnica (1952), o Funcionamento da Faculdade Católica de Filosofia (1955) e a Fundação do Diário da Borborema (1957).

Até mesmo dentro de nossa delimitação outros fatos são de grande importância para compreensão da agitação cultural existente entre as década de 1960 e 1970, como Criação da Universidade Regional do Nordeste (1966),A Criação da Fundação Cultural Luiz Carlos Virgulino (1966), que contribuiu na atuação em atividades neste mesmo ano, como fundação de galerias de arte, curso de filosofia e cinema, concursos de peças teatrais, etc.

Passamos então agora pelo nosso olhar panorâmico, infelizmente incompleto, sobre a pele das artes campinenses, sem seus tecidos estéticos, cheios de nomes e siglas e que dão uma dimensão de sentidos e sonhos da produção cultural desta cidade.

4.1. ARTES PLÁSTICAS

As artes plásticas na Paraíba têm uma tradição forte no Brasil que se remete ao século XIX, com as famosas obras de Pedro Américo, mas mesmo durante o século XX essa tradição se manteve, principalmente a partir da década de 1950, com artistas como Archidy Picado e Raul Córdola Filho na capital João Pessoa, e estetas do gabarito de Francisco Pereira e José Santos, especialmente a partir das décadas de 1960. não podemos esquecer ainda de Antonio Dias e João Câmara, nomes destacados do cenário das artes plásticas nacionais.

Depois da Fundação da Escola de Artes de Campina Grande em 1950, que durou pouco mais de três anos, um outro grande acontecimento para artes plásticas foi a Fundação da Associação Pró-Arte em 1960. Todavia, o maior de todos os acontecimentos históricos para as artes plásticas campinenses foi indiscutivelmente a criação do Museu de Artes Assis Chateaubriand no ano de 1967, segundo Nascimento (2000) a inauguração do museu “constitui-se um acontecimento registrado como um dos maiores da história da cidade.”

O nome inicial do museu foi “Museu Regional de Arte Pedro Américo”, e teve sua sede inaugural no antigo colégio Sólon de Lucena, localizado na avenida Floriano Peixoto. Só em 1976, é que o museu, batizado de Museu de Artes Assis Chateaubriand (seu fundador) foi transferido para o largo do Açude Novo. Na verdade o acervo foi obtido pela campanha nacional desenvolvida por Assis Chateaubriand.

O Museu conta hoje com 474 obras das mais diversas tendências estéticas, entre pinturas, esculturas, colagens, a maioria das peças foi doada na época da fundação, numa coleção que abrange obras que vão desde o Academismo Neoclássico Brasileiro ao processo modernizador, passando pelo abstracionismo, e completado por representação da neovanguarda da década de sessenta, incluindo também importantes artistas da arte Primitiva. Destaque para o Neo-classicismo, de Pedro Américo (A Cabeça) e Aurélio de Figueiredo, os antológicos percussores da modernidade como Ismael Nery, Di Cavalcanti e Anita Malfati (A Beira do Riacho) , e modernistas mais recentes como Santa Rosa e Portinari (Espantalho), e não se poderia esquecer os contemporâneos como o artista multimídia paraibano Antonio Dias. Quanto aos estrangeiros, destaque para as obras de Gaites, Alain Jaquet, Foujita, Eliseu Visconti, Frans Krajcberg, entre outros. Alguns doadores foram: Drault Ernany, Governo Soviético, João Calmon, Noujaim Habibi, Bradesco, Laudo Natel, Diário de Pernambuco.

Segundo Nascimento (2000): “Se antes, as artes visuais representavam uma das menores atividades culturais, uma população que vivia exclusivamente do comércio e, sendo a vida artístico-cultural restrita a uma pequena minoria, depois da criação em 1967, se processou uma das mais intensas movimentações nas artes plásticas, tornando a imponente cidade “Rainha da Borborema”, um dos centros artísticos do Nordeste, e por que não dizer, do Brasil.”

4.2. CINEMA

Com relação ao cinema em Campina Grande a cidade pouco produziu em sua história em termos de filmes, entretanto durante estas duas décadas delimitadas houve a atuação destacada do jornalista e fotógrafo Machado Bittencourt, autor de dezenas de filmes, entre eles destaque para os documentários: A Feira, O Ultimo Coronel, Campina Grande da prensa do algodão, á prensa de Gutenberg e as ficções Maria Coragem (1977) e o caso Carlota, de 1983. Jureni Machado Bittencourt Pereira nasceu no Piauí em 1942, mas foi, como costumava dizer, “adotado” por Campina Grande.
O jornalista e fotógrafo instalou na cidade um dos raros estúdios cinematográficos na bitola 16 do país, a “Cinética Filmes Ltda”. Ele era um publicitário nato que atuava em jornais, rádio, TV, revistas e na elaboração de dezenas de filmes. A Cinética filmes Ltda. foi fundada por Machado em 1974. Segundo Leal (2007) a concretização deste empreendimento “só foi possível pela necessidade que tinha Machado de por em prática duas idéias que corriam juntas equipara-se para produzir filmes para a TV e, eventualmente, documentários culturais, e permitir a existência de um local para aprendizado dos seus alunos de jornalismo.”

Além dos filmes de Machado Bitencourt, houve algumas experiências coletivas, como as do cines jornais na década de 1960, a do documentário institucional Natal 70, dos jovens cineclubistas do Campina Grande, os curtas de Romero Azevedo na década de 1970, além do curta metragem experimental SYLCYZ de Regina Coeli, realizado em 1969.

4.2.1. CINECLUBISMO

A gênese do cineclubismo campinense aconteceu no ano de 1964, com a fundação do Cineclube Campina Grande, por iniciativa dos engenheiros Luiz Carlos Virgulino e Hamilton Freire, ficando a entidade responsável pelas sessões de cinema de arte no cine Capitólio. Antes disso, por diversas vezes, houve tentativas de se implantar um clube de cinema na referida cidade, no entanto, estas nunca se objetivaram. Em 1966, Luis Carlos Virgulino falece devido a um acidente de automóvel, e o cineclube acaba fechando as suas portas, só voltando a funcionar em Maio de 1967, quando o então critico de cinema Dorivan Marinho (ex-membro da entidade), realizando um curso sobre linguagem cinematográfica no Centro Estudantil Campinense no mês de Abril, percebeu o interesse de diversos jovens, propondo a eles então que assumissem o cineclube Campina Grande. Estes toparam a idéia. Esses jovens eram: Bráulio Tavares, Luis Custódio da Silva, Marcus e Jackson Agra, Romero e Rômulo Azevedo, José Umbelino Brazil, entre outros.

Neste mesmo ano do ressurgimento do Cineclube Campina Grande, houve a fundação do Cineclube Glauber Rocha, por iniciativa de José Nêumanne Pinto, Iremar Maciel, Agnaldo Almeida e Regina Coeli. Nele ainda participaram nomes como Arnaldo Xavier, Adalberto Barreto, Antonio Moraes Neto, Aderaldo Tavares e José Souto. Segundo Agnaldo Almeida, hoje um dos mais importantes articulistas políticos da Paraíba, este cineclube era uma entidade extremamente politizada: “O Cineclube surgiu como espaço para se discutir o cinema de arte. Claro, que havia um componente político. Estávamos em meio a uma ditadura e era inevitável que quiséssemos nos reunir e conversar”.

Uma das conseqüências da existência destes cineclubes na cidade na década de 1960 foi o crescimento continuo de colunas de critica especializada nos jornais e programas de Rádio. Dorivan Marinho, Iremar Maciel, Luis Custódio, Humberto de Campos, entre outros, se destacaram nestas funções.

Em 1969 deixa de funcionar o cineclube Glauber Rocha e em 1970 fecha suas portas de vez também o cineclube Campina Grande. Que motivações contribuíram pra estas desativações? Tanto para os componentes do Glauber Rocha, como do Campina Grande, o que fica claro é que houve uma espécie de atmosfera inviável para este tipo de atividade no período.

Uns dos aspectos mais importantes das trajetórias destes dois cineclubes foram às produções que ambos realizaram. O cineclube Campina Grande, por exemplo, chegou a produzir em 1970 um documentário institucional produzido para a prefeitura da cidade intitulado Natal 70. O filme filmado em 16 mm teve o roteiro e a direção coletiva. Já o cineclube Glauber Rocha produziu através de Regina Coeli o curta metragem SYLCYZ, que competiu no Festival JB em 1969 no Rio de Janeiro.

Após o termino dos dois primeiros cineclubes na cidade, parte dos componentes de ambos, principalmente do cineclube Campina Grande, acabaram exercendo a atividade cineclubista no museu de Arte Assis Chateaubriand. Isso entre os anos de 1970 e 1979. Segundo Umbelino Brazil, hoje professor de Comunicação na UFBA e diretor premiado, “agregamos o cineclube ao Museu de Arte por sugestão do artista plástico e diretor do Museu Chico Pereira, ele criou o Departamento de Cinema, funcionava como um ‘guarda-chuva’ para as nossas atividades cinematográficas, não tinha o mesmo caráter do cineclube, pois passamos a ser regidos, mas sem censura pela Universidade, aliás, tivemos respaldo para exibir filmes na época considerados com “objetos subversivos” como os filmes de Serguei Eisenstein. Além de Umbelino Brazil, que depois se tornou diretor de arte do museu até 1976, participaram: Rômulo e Romero Azevedo, Mica Guimarães, Roberto Coura, Arly Arnaud entre outros.

Para Arnaud, hoje uma importante atriz brasileira, os mais assíduos participantes da entidade eram chamados de garotos do museu, “nós éramos os garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones”, – declarou. Quanto ao cinema Arly Arnaud lembra de filmes de Pasolini, Fellini, Buñuel, Polanski etc. e revelou que nunca mais foi à mesma depois desta experiência. A arte estava presente nestes jovens, principalmente através do cinema.

A década de 1970 é a dos cineclubes em Campina Grande, várias destas associações foram criadas em escolas e cursos universitários da cidade. Destacam-se a fundação do cineclube Humberto Mauro em 1974 (da escola PIO XI), o Paulo Pontes (do curso de Engenharia da UFPB) e o 11 de Agosto (do curso de medicina da UFPB) em 1976. Estes cineclubes na maioria das vezes duraram pouco tempo, com exceção do Humberto Mauro, que ficou ativo até o ano de 1979.

Na mesma década de 1970 foi fundado um dos mais importantes cineclubes da história de Campina Grande, não só pelo seu longo período de duração (cerca de dez anos), mas principalmente por sua expressiva atividade em prol do cinema de arte na cidade. Foi o cineclube Ruy Guerra, fundado em 1976, por iniciativa do jornalista Ronaldo Dinoá. Esta associação funcionou durante muito tempo no auditório no INSS, no centro da cidade.

4.3. LITERATURA

Na literatura em Campina Grande, dos tempos áureos nas primeiras cinco décadas do século XX, maçado por recitais e clubes literários, passou-se por momentos mornos, cujos fios de sentidos poucos se expressaram. Dois momentos foram os mais importante, do ponto de vista literário e editorial: o primeiro, foi durante Centenário de Campina Grande em 1964, houve a Publicação dos seguintes livros: História de Campina Grande, de Elpídio de Almeida e História Eclesiástica de Campina Grande, de Boulanger Uchoa. Dentro deste mesmo contexto foi criada COMCENT (comissão Executiva do centenário de Campina Grande), o que viabilizou a publicação de mais livros como: primeiramente ”Coletânea de Autores campinenses”, diversos autores, Obra literária, de Felix Araújo, “Horas de Enlevo”, de Mauro Luna, em 1964 e os títulos: “Um cronista do sertão no século passado”, de Geraldo Joffily e “Jornal de Arte”, de Ruben Navarro, em 1965. Ainda em 1964 inicia-se a publicação dois primeiros números da famosa Revista Campinense de Cultura, editada pela já referida comissão, que tinha entre seus membros nomes como: Elpídio de Almeida, Raymundo Asfora, Severino Bezerra de Carvalho, entre outros.

Em relação a Severino Bezerra de Carvalho há um fato muita interessante. No ano do centenário o médico pernambucano radicado em Campina Grande publica uma grande sátira a alguns nomes da cultura e da política campinense, em seu livro “Memórias de Casmurrindo Vespa”, com o pseudônimo de Seno Bocalho.

Ainda na década de 1960 e principalmente na década de 1970 dois irmãos constroem as suas literaturas de formas totalmente diferentes e se destacam nacionalmente inclusive. Um, um político e poeta boêmio: Figueiredo Agra, autor de várias coletâneas de poesias, entre eles: “Guarda estes poemas Luciene” e “Os Hemisférios Loucos” Elizabeth Marinheiro, educadora, ensaísta e responsável pelos Corais Falados Manuel Bandeira e Cecília Meireles, que fizeram muitos sucessos nas décadas de 1970.

Já no final da década de 1970 surge uma revista que coloca nos dizeres de Astier Basílio “Campina na ordem do dia do debate estético nacional”. Foi a revista Garatuja (1977), editada por um grupo constituído por José Antônio Assunção, Antônio Morais de Carvalho, Bráulio Tavares, os irmãos Jackson e Marcos Agra, entre outros.

4.4. TEATRO

Das artes enredadas aqui nestes escritos inegavelmente o teatro se destaca, seja pelas quantidades de obras, seja pelas qualidades de grupos e peças criadas e encenadas na cidade durante as décadas de 1960 e 1980. Alguns fatores podem explicar essa tendência, a principal delas, foi eclosão do golpe militar de 1964, quando um bom número de atores e dramaturgos impossibilitados de encenar suas peças censuradas no sul do país acabaram sendo chamados para Campina Grande.

Mas antes do golpe de 1964, Campina Grande já tinha uma movimentação teatral, a melhor fase anterior a este período, é a fase da implantação da rádio Teatro Borborema nos anos 1950 pelo cearense Fernando Silveira, com a criação do grupo “os comediantes”, com atores destacados como a famosa Nair Belo.

Entretanto, o maior acontecimento relativo à história do Teatro campinense foi à criação do Teatro Municipal Severino Cabral em 1963, portanto antes mesmo do golpe militar. A inauguração ocorreu em 30 de Novembro, com a apresentação do ator e na época humorista José de Vasconcelos. O projeto em forma de apito ou flauta foi criado pelo engenheiro Geraldinho Cruz.

A existência do novo e grande espaço estimula as novas vocações e revigora as antigas. Nascem grupos, numerosos atores e autores são revelados. É criado o Teatro Universitário Campinense, que teve diretores como Wilson Maux, Milton Baccarenlli e Walter Pessoa. Antonio Alfredo Câmara funda o grupo “Raul Pryston”, Adhemar Dantas adota o “grupopovo”, que se tornaria “Cacilda Becker”, Hermano José reúne jovens idealistas no GEVAR – grupo Experimental de várias artes, e Elizabeth Marinheiro tiram do âmbito colegial os seus grupos, criando a Fundação Artístico Cultural Manoel Bandeira. Foi ainda no Teatro Municipal que se realizou os Festivais de Poesia (de 1966 a 1972), organização da mesma Elizabeth Marinheiro.

Adhemar Dantas consegue trazer grupos de outros estados em suas semanas de teatro e institui as semanas de Teatro Colegial (1970/71) que revelariam vários atores. Muitas peças proibidas acabam sendo encenadas aqui. O grupo de Teatro Universitário Campinense faz a encenação de obras como “Via sacra”, de Henry Gehon e “Eles não usam Black Tié”, de Gianfrascesco Guarnieri. Outro marco foi à encenação da Peça “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, pelo Grupo Raul Physton.

Em 1973, a educadora Eneida Agra Maracajá assume a direção do teatro Municipal onde já promovera seus festivais infatins, e em 1974 é autora do I FENAT – Festival Nacional de Teatro Amador, que muito influiria no intercambio entre artistas de todos os estados brasileiros, para elevar o nível do teatro local.

E foi justamente da ampliação do FENAT que nasce o Festival de Inverno de Campina Grande, considerado na época um dos mais importantes do Brasil. Nomes como Regina Duarte, Ariano Suassuna, Ana Botafogo, Márcio Sousa, tornara-se figuras comuns dos corredores do Teatro municipal neste período. Campina Grande tornou-se assim o encontro dos grupos teatrais do norte, sul e oeste que se encontravam no Nordeste debatendo todos os aspectos do teatro como fator cultural. Nesta mesma época, década de 1970, Revela-se a dramaturga Lourdes Ramalho, ganhadora de diversos prêmios nacionais, e autora de obras como A Feira.

Desta maneira, concluímos que havia todo um movimento de agitação cultural, criada por indivíduos como Eneida Maracajá, Rômulo e Romero Azevedo, Wilson Maux, Bráulio Tavares, Hermano José, entre outros, que colocaram as suas idéias em prática, ou seja, teceram os seus fios de sentidos em seus tecidos de sonhos.

5. UM QUADRO ATUAL DAS ATIVIDADES ARTISTICAS-CULTURAIS EM CAMPINA GRANDE

Avaliando de forma diríamos superficial, com um olhar crítico e sedutor, perceberemos certa apatia na produção artística e cultural campinense nos dias atuais, se compararmos evidente com as décadas passadas de nosso estudo (anos 1960 e 1970). Tudo que é produzido atualmente nesta cidade parece não ser compartilhada pela sociedade em geral, não que a arte nas décadas de 1960 e 1970 era popular, longe disso, mas os festivais possibilitavam um dialogo maior entre as elites intelectuais com a população da cidade. Hoje isso não acontece de forma alguma.

Mas apesar desta tímida presença cultural nos dias atuais possuímos algumas especificidades, artistas ainda engajados e espaços de cultura abertos, com seus problemas é verdade, mas a disposição da comunidade em geral. Vejamos nossas venturas e desventuras, ou grandezas e misérias culturais, em nossos fios de sentidos em tecidos de sonhos:

* Temos um cenário musical alternativo forte, com nomes como Val Donato, Jorge Ribbas, Fidélia Cassandra, Toninho Borbo e diversas bandas de pop rock que se apresentam semanalmente em calouradas e barzinhos espalhados na cidade.

* Temos o projeto Seis e Meia, com preços accessíveis e com atrações de ótima qualidade;

* Temos uma produção cinematográfica considerável, sendo os nossos produtores pouco a pouco sendo reconhecidas nacionalmente, como é o caso de Taciano Valério, Rodrigo Nunes, André da Costa Pinto, Breno César, Helton Paulino, entre outros.

* Temos um Movimento cineclubista renascendo, mesmo que com características completamente diferentes de épocas passadas, com a criação dos Cineclubes Machado Bittencourt, Mário Peixoto, entre outros.

* Apesar de nada comparado as décadas de 1960 e principalmente 1970, temos algumas companhias de Teatro, como os Grupos da Universidade Estadual da Paraíba e a do Teatro Municipal.

* Temos grupos musicais sui generis como Couroencanto (coral da UFCG), Duduca e os chorões (Grupo de Choro), o Grupo Cabruera, a Orquestra Sanfônica, do maestro Edgar Miguel.

* Temos o SESC Centro que se destaca nacionalmente no apoio as artes. Trazendo peças, espetáculos de música e danças de todo o Brasil para o município de Campina Grande.

* Temos eventos mesmo que com diversos problemas estruturais como O Festival de Inferno, Encontro da Nova Consciência, o Comunicurtas e o Congresso de Violeros. E por que não falar na Micarande, as vaquejadas e o São João, considerado o maior do mundo.

* Temos O FUMUC (Fundo Municipal de Incentivo a Cultura de Campina Grande). Um dos poucos programas de financeiro para os artistas locais, a exemplo do FIC (Fundo de Incentivo a cultura Augusto dos Anjos). Do Governo Estadual.

* Temos ainda os problemáticos espaços como O Teatro Municipal, o Teatro Elba Ramalho, o Museu Assis Chateaubriand, o Museu Luiz Gonzaga, o Centro Cultural Lourdes Ramalho, o CUCA, O Sueli Carolini, o Museu do Algodão, o Café e Poesia, a Academia Campinense de Letras, o Museu Histórico e Geográfico de Campina Grande. Problemáticos justamente pelas qualidades dos usos destes espaços.

Fica a pergunta sobre as limitações de nossos artistas e dos espaços culturais existentes e a clara apatia de nossa população em relação às artes nos dias atuais. Seremos mesmo uma cidade sem vocação para arte? Ou tudo não passa de uma invenção da modernidade, uma tendência atual, que nos fazem sermos sujeitos que foge das matérias reflexivas?

BIBLIOGRÁFIA BÁSICA:

ARANHA, Gervácio Batista. Seduções do Moderno na Parahyba do Norte: Trem de Ferro, Luz Elétrica e Outras Conquistas materiais e simbólicas (1880-1925). IN: A Paraíba no Império e na Republica: estudos de História Social e Cultural. João Pessoa: Idéia, 2005.p.79-132.

BASÍLIO, Astier. A Poesia em Campina Grande. Revista Cordeletras. Ano 1, nº 1, junho de 2007.

BAUDALAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

BITTENCOURT, Machado. Revisão Crítica da Atividade Cultural em Campina Grande 1950-1975. In: Revista Campinense de Cultura, s/e, s/d.

GAUDÊNCIO, Bruno; BURITI, Catarina. A Crítica em Tempos de Repressão: movimento cineclubista em Campina Grande nos anos 60, 70 e 80. Cajazeiras, XIII ANPUH Paraíba, 2006.

GAUDÊNCIO, Bruno. Da Cinética á Arte Mídia. Breve História do cinema em Campina Grande. A Margem, Ano 1, nº. 1, Setembro de 2007.

GAUDÊNCIO, Bruno. O Reino das Cabeças pensantes: uma história do movimento cineclubista em Campina Grande. A Margem, Ano 1, nº.3. novembro de 2007.

PEREIRA JÚNIOR, Francisco; CÓRDULA FILHO, Raul. Os Anos 60: Revisão das Artes Plásticas da Paraíba. Campina Grande: Grafet /Nac –UFPB/ Funarte, 1979.

NASCIMENTO, João Luiz do. Museu de Arte Assis Chateaubriand. Monografia Apresentada para conclusão do curso em Licenciatura Plena em História, da Universidade Estadual da Paraíba, 2000.

SANTANA, Márcio. Garatuja: vida, morte e eternidade em seis edições. Revista Cordeletras. Ano 1, nº 6, Outubro de 2007.

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3 Comentários

  1. Mica, parabéns! said,

    Mica amigo, parabéns pelos esforços em divulgar e ampliar a cultura em Campina Grande! Esta cidade merece destaque pelas suas incursões no mundo da arte e dramaturgia e a Cordeletras deve sempre ganhar impulso na divulgação de seus talentos! Boa Sorte! Felicidades! Edileuza Franco Natal, 27.06.2010
    P.S mro em Natal e sou mossoroense, mas vivi toda uma vida em Campina Grande e minhalma pertence a esta cidade querida!

  2. brgaudencio said,

    Desculpe Edileuza, este texto na qual comentastes não é de Mica Guimaraes. E meu, Bruno Rafael de Albuquerque Gaudencio, Jornalista e Historiador. Infelizmente Mica não tem esta preucupação em historicizar a produção cultural de Campina Grande. Apesar de brilhante cronista, sua atividade se resume hoje apenas a beber cervejas e outras bebidas alcoolicas no Parque do Açude Novo.

  3. Clotilde Tavares said,

    Menino, que espetáculo esse post! Parabéns.Foi legal relembrar tanta coisa que já vivi e experimentei.

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