Saber Noturno, Vidas Errantes.

janeiro 20, 2008 at 2:39 pm (Ensaios)

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“Saber noturno: uma Antologia de Vidas Errantes” é uma Tese de Doutorado apresentado em 2004 na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), pelo historiador paranaense Tony Hara¹. A pesquisa, que teve como orientadora a professora Doutora Margareth Rago, é uma narrativa histórica enredada em torno de seis personagens que se rebelaram em diferentes épocas e lugares contra a lógica do pensamento sistemático – pensamento este, que separou as noções de arte, vida e conhecimento. São estes os personagens : os filósofos Frederich Nietzsche e Walter Benjamim, os poetas Charles Baudalaire, Cruz e Sousa e Paulo Leminski, além do cronista João do Rio.

Segundo Tony Hara estes personagens conheceram o subterrâneo, o lado terrível e noturno da vida, recalcado pelos ideais iluministas, e elaboraram novas possibilidades de existência.

O texto foi constituído em torno de varias definições que foram minuciosamente camuflados em uma narrativa histórica, que se assemelha muitas vezes a uma narrativa literária. E é por esta razão que a finalidade deste artigo é compreender os principais conceitos utilizados por Tony Hara, bem como indica a sustentação teórica e metodológica da pesquisa.

Tony Hara desenvolve uma narrativa cujo os personagens são apresentados através dos dados biográficos e seus respectivos pensamentos filosóficos e artísticos. O autor da pesquisa descreve e interpreta as idéias de cada pensador selecionado, e os definiu como sendo-os Pensadores noturnos. Seres “que estimulam um pensamento bêbado (…), que solicitam as vertigens e repudiam o terreno seguro das verdades instituídas e celebradas pela tradição religiosa ou por racionalidade mórbida guiada pela flecha do progresso.”²

Nietzsche, Benjamim, Baudelaire, Cruz e Sousa, Paulo Leminski e João do Rio, são personagens noturnos por praticarem um estilo de vida que foge da normalidade. Por pensarem e defenderem modelos alternativos de existência. A noite representaria este modelo, esta nova possibilidade de existência. Para estes pensadores “todo ser vivo precisa não de luz para ver, como também da escuridão para sonhar”³

A noite é o lugar dos vícios; é o território do difuso, dos contornos imprecisos, dos sentidos inquietos e aguçados. A noite foi a arma necessária para os espíritos e para os corpos destas vidas errantes. Errantes, por acreditarem que a vida deve ser sentida intensamente; errantes por acreditarem que o erro é uma necessidade sempre presente a existência. E é justamente na noite, palco para as existências errantes, que estes pensadores noturnos desenvolveram o que Tony Hara chama de Saber Noturno.

O saber Noturno é caracterizado como sendo um saber que não tenta romper os vínculos entre arte, a vida e o conhecimento, e aproxima a noção de ciência, com a noção de poesia. Ou seja, o “sábio noturno” é justamente aquele que não ver limites entre o conhecimento cientifico e a arte, e que confunde a sua própria vida, com sua obra intelectual artística.

É importante pensarmos que estas junções vão de encontro com as imposições do chamado sistemático da modernidade. Um pensamento racional, organizado, cientifico que entende que há limites entre a arte e a ciência. Os pensadores noturnos são aqueles que se rebelaram contra esta lógica, tão insensível e de certo modo desumano. Para eles a existência só se justifica como fenômenos estéticos.

Segundo o filosofo francês Alain Touraine “a concepção clássica da modernidade é antes de tudo a construção de uma imagem racionalista do mundo”4 cujo “o ser humano não é mais uma criatura feita por Deus à sua imagem, mas um ator social definido por papeis, isto é, pelas condutas ligadas a status e que devem contribuir para o bm funcionamento do sistema social”5

De acordo com Tony Hara o saber noturno é característico de um corpo que sofre porque quer se expandir; um corpo que luta em sua individualidade contra o poder disciplinar, que aprisiona e constitui os sujeitos. Nesta ótica, percebemos claramente a influencia foucaultiana na obra.

Para Foucault “o corpo esta no centro do dispositivo do poder” e é efeito “a peça principal do cerimonial do castigo público”6 ao longo da história. O pensador noturno é um corpo que se expande,e que sofre, ano pelas punições do Estado, mas pela angustia em ver o mundo constituído de seres de “corpos dóceis” ou seja, sujeitos economicamente produtivos, mas politicamente submissos.

O pensador noturno experimenta seus corpos no arrebatamento da embriaguez. Daí a famosa frase de Baudelaire: “embriagar-se, sem cessar é preciso, mas de quê?”7 Para compreender esta visão Hedonista construída nestes seis pensadores, o autor da tese, Tony Hara, foi buscar nas reflexões do filosofo francês Michel Onfray, que formulou na década de 1990, no século XX, a sua famosa Teoria do Hedonismo ético, em que ele defende o direito do ser humano ao prazer.

O prazer é a busca do poeta, do filosofo, do pensador, que se sente feliz em interagir com os desejos da noite e os seus seres marginais, ou simplesmente sozinho refletindo sobre a vida e sobre si mesmo.

Portanto, o que compreendemos desta pesquisa é que ela é uma narrativa histórica enquadrada no campo da nova história cultural, pois de acordo com Peter Burke “o terreno comum dos historiadores culturais pode ser descrito como a preocupação com o símbolo e suas interpretações”8. E é justamente o que busca Tony Hara ao lançar-se em analogias com as “formas de pensar” o mundo de determinados pensadores–artistas, uma simbologia do pensamento moderno, de uma filosofia anti-iluminista.

O que Tony Hara realiza em sua tese de Doutorado é na verdade uma história do pensamento alternativo, o que ele chamou de “saber noturno”, se apropriando de conceitos e discursos de muitos pensadores. Principalmente dos filósofos franceses Michel de Foucault (formas de exclusão, usos do corpo) e Michel Onfray (Hedonismo e rebeldia), além dos seus personagens enredados, com destaque para Nietzsche Benjamim.

 

 

Referencias Bibliográficas

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Florianópolis; Ed. Da UFSC, 1988.

BURKE, Peter. O que é História cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

DOSSE, François. Foucault e a desconstrução da história. In.: História do Estruturalismo. Volume 2; O canto do cisne de 1967 aos nossos dias. São Paulo: UNICAMP, 1994.

HARA, Tony. Saber noturno: Uma antologia de vidas errantes. Campinas. Tese de Doutorado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, 2004.

TOURAINE, Alain, critica da modernidade. Rio de Janeiro: vozes, 1997.

 

Notas:

1 Professor titular da Universidade Estadual de Londrina (UEL)

2 HARA, Tony. Saber noturno: Uma antologia de vidas errantes. Campinas. Tese de Doutorado em História. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, 2004. (p. 12)

4 TOURAINE, Alain, critica da modernidade. Rio de Janeiro: vozes, 1997.

3 Idem (p. 23)

5 Idem

6 DOSSE, François. Foucault e a desconstrução da história. In.: História do Estruturalismo. Volume 2; O canto do cisne de 1967 aos nossos dias. São Paulo: UNICAMP, 1994. (p. 286)

7 BAUDELAIRE. Charles. Pequenos poemas em prosa. Florianópolis; Ed. Da UFSC, 1988. (p. 37)

8 BURKE, Peter. O que é História cultural? Rio de Janeiro: Zahar, 2005. (p. 10)

 

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3 Comentários

  1. brgaudencio said,

    Este pequeno texto foi Escrito com o objetivo de conquistar minha ultima nota da cadeira Teoria da História, do professor Júnior Flôr. Não ficou bom, mas por algum motivo eu decidi colocar aqui no meu blog. Estaí imperfeito.

  2. brgaudencio said,

    sim…o texto é do ano de 2006.

  3. Moacy said,

    Seu blogue faz PENSAR. Aliás, no momento ‘A Gaia Ciência’ é uma das minhas releituras preferidas. Como não leio alemão, recorro a traduções diferentes e tenho encontrado alguns problemas interessantes entre elas. Pretendo, no futuro (próximo, assim espero), escrever algo a respeito. Um abraço.

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