Um olhar sobre os outros: narrativas sociopolíticas de João Matias de Oliveira.

janeiro 13, 2008 at 5:54 pm (Ensaios)

livro-frente.jpg

 

 

“Noto certa indignação, uma revolta diante do quadro social, político e econômico no Brasil atual; que se revela em todo o discurso sensível e rebelde do ficcionista. Suas palavras são de ira, de fúria e de dor em um quadro de desigualdades e injustiças em nosso país.”

O livro Aos Olhos de Outro (Editora Agenda, 2007), do jovem escritor cearense João Matias de Oliveira é uma bela coletânea de contos e crônicas de forte teor político e social. Nascido em Juazeiro do Norte o estreante no mundo das letras é residente em Campina Grande já a cerca de dois anos, onde cursa Jornalismo e Ciências Sociais nas principais instituições universitárias da cidade, e já se insere como um dos mais destacados contistas da região, ao lado, por exemplo, do pernambucano Cristiano Aguiar.

O livro é dividido em três partes. São elas: Estórias de Aprendiz, Democratas por Decreto (intervalo Proso-político) e por ultimo Aprendiz de Estórias. As narrativas trazem um interessante caráter político e uma comovente preocupação social. Seus personagens, vivos em seu teor natural e espontâneo, são portadores de uma inegável critica social as instituições, sejam elas familiares, governamentais, entre outras, em uma lógica quase sempre de um questionamento ético das relações sociais no cotidiano. Os textos entendidos aqui como um conjunto único e dinâmico, apesar de trazerem dois gêneros diferentes, o conto e a crônica, proporcionam aos seus leitores um panorama significativo dos dilemas e conflitos da existência humana.

Há um teor levemente Foucaultiano nas narrativas do nosso autor, mesmo que inconsciente, – o que coloca os textos em uma escala extremamente atual de abordagem, devido principalmente as suas preocupações sociais e os seus objetivos humanísticos de reflexão. Estranho é perceber o caminho seguído por esse jovem escritor, em uma época de um ridículo descomprometimento político dentro do mundo literário. É interessante notarmos as escolhas realizadas por João Matias: o mendigo, o marginal, o louco, são os seus personagens principais, sendo sempre tratados em uma perspectiva lucidamente crítica e responsavelmente politizada.

Este teor Foucaultiano que me referi a cima esta relacionada às redes de instituições que nos domina dentro do organismo social; que nos reprime diante dos fatos e acontecimentos do dia a dia. São os abusos, entre elas, as agressões físicas e morais das lideranças e representantes do poder; o uso da força e da violência, que toca quase sempre no limiar da barbárie. Os protagonistas de João Matias são quase sempre caracterizados como ingénuos, e sujeitos a indignação perante as forças maléficas destas instituições citadas, que são corrompidas pela insensibilidade e o preconceito macabro de seus representantes. Há sempre vitimas, e estas são inegavelmente os pobres e os ditos marginais morais. Esta visão se aproxima muito do maniqueísmo Balzaquiano, pois a imensa maioria das histórias do escritor francês termina com a vitória dos maus, dos mais fortes e mais espertos, e a consequente derrota dos personagens bons e honestos. Noto em certo sentido esta tendência no jovem escritor cearense.

As temáticas são recorrentes: loucura, família, governo, igreja, partido político. Os ambientes são geralmente locais de luta, de conflito, entre os sujeitos sociais nos espaços dos micropoderes em uma lógica de divagações em sentidos espaciais urbanos. Os personagens passeiam límpidos por universos de conflitos. Noto certa indignação, uma revolta diante do quadro social, político e econômico no Brasil atual; que se revela em todo o discurso sensível e rebelde do ficcionista. Suas palavras são de ira, de fúria e de dor em um quadro de desigualdades e injustiças em nosso país.

Quanto à questão estética, a qualidade máxima de João Matias está contida inegavelmente em seus diálogos primorosos. O autor os utiliza deste recuso magistralmente, em uma polifonia bastante interessante em meios aos seus personagens. Destaque para a crônica O Senador Biônico e na conto A Sombra e o Sol. Há uma sensibilidade em cada corte do texto, o que demonstra a tendência para a ficção, ou melhor, para a curta ficção. Os desfechos são também muito bem construídos, mesmo reconhecendo quanto ao caráter formal certo tradicionalismo narrativo, que em nada toca no experimentalismo tão comum dos dias atuais. Os personagens são bem trabalhados, apesar do maniqueísmo já referido a cima, e trazem um fator interessante muitas vezes: há um enigma constituído na escolha dos nomes dos personagens. São exemplos: o personagem Sarmento (Sargento, devido o seu rigor na organização de sua família), no conto Entre a Sombra e o Sol, e Emergarda (Esmeralda, no sentido de beleza diante da marginalidade e da pobreza) no conto A Morte do Animal. Este aspecto é bastante comum na literatura brasileira, destaque para os ficcionistas José de Alencar e Guimarães Rosa. Quem não se lembra dos personagens Diva e Diadorim.

Algo que me chamou também muita atenção nos textos coletados, foi o numero significativo e excessivo de palavras pouco utilizadas no vocabulário, inclusive literário. São exemplos: enpenachada, sorumbático, enxotes, amainou, entre outros. Essa falha eu diria, faz parte daquilo que eu chamo de síndrome de Rui Barbosa, uma espécie de doença literária não tão comum, porém perceptível em alguns jovens escritores. O escritor dedica-se então extraordinariamente a leitura de vernáculos de dicionários influenciando assim seus escritos com muitos termos não muito comuns no dia a dia, e muitas vezes indiferentes às práticas literárias.

Uma reflexão interessante sobre a escrita de João Matias foi colocada na própria orelha do livro nas palavras da professora Robéria Nascimento: “Distanciadas de qualquer intenção de universalidade, as narrativas aqui registradas buscam um sentido atemporal e uma habilidade criativa que ultrapassam o “o profissionalismo” do ato de escrever, apontando a direção do novo e inventando desejos de não serem lidas como falsas ou vazias. O leitor perspicaz e atento perceberá uma vontade de coerência, um entusiasmo de vanguarda, um pensamento aberto, qualidades que formatam o perfil dos jornalistas do futuro que hoje se sonha construir”. As palavras da ilustre professora enfatizam justamente a clara humanidade do autor e o desejo utópico de através da literatura transformar os sentidos das relações sociais no cotidiano.

João Matias, sendo assim, com seu Aos Olhos de Outro, apesar de alguns erros, comuns naqueles estreantes no campo das letras, vislumbra as disparidades do caos do mundo através de seus personagens. Nada mais lindo do que o sonho de transformar, através da literatura o nosso universo tão complicado de relações conflituosas. E é isso que nos deixa de exemplo esse nosso jovem escritor, uma esperança de mudança, de humanidade sensível em nossas cabeças.

Anúncios

2 Comentários

  1. Crítica do livros Aos Olhos de Outro por Bruno Gaudêncio « JotaMatias . com said,

    […] Crítica do livros Aos Olhos de Outro por Bruno Gaudêncio Arquivado em: Arte e Cultura, Ensaios e resenhas — jotamatias @ 11:30 pm Um olhar sobre os outros: narrativas sociopolíticas de João Matias de Oliveira. […]

  2. jotamatias said,

    Profundamente grato pelas palavras que foram dirigidas ao meu rebento, queria dizer que concordo com as observações do caro colega. Não vou comentar a qualidade da obra, até porque sou mais que suspeito pra isso. Mas há erros não observados pelo dedicado crítico aí em cima: o livro é uma antologia, e não uma coletânea, como todo livro de contos de um autor ainda em exercício da prática devia ser. Isto é, não há um propósito na obra além de somente divulgar o que tenho escrito desde criança, com os devidos acréscimos e melhoramentos. Alguns contos, se comparados a outros dentro do mesmo livro, ficam deveras destacados por sua singularidade parcial ou totalmente distoante destes outros. Um erro para o qual eu próprio não atentei ao editar o livro e, talvez, comum em autores iniciantes. O certo é que perdi a virgindade, e hoje tenho exata noção de como fazer uma coletânea de escritos. Sem cabaço tudo flui mais facilmente.

    Obriagdo pela crítica, caro amigo. Que suas palavras ressoem neste blogue como cantilena de pardais numa igreja devotada aos louros fabulosos da arte literária.
    Um abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: