Entre a Agressão a fé e a crítica a um aspecto da nossa sociedade.

setembro 8, 2007 at 4:47 pm (Ensaios)

Por Bruno R. Gaudêncio

Campina Grande está em êxtase como poucas vezes se viu em relação às artes, tudo devido à exposição do artista plástico Jarrier Alves intitulada “A César o que é de César”. As vinte e três peças que constituem a amostra estão expostas no Museu Assis Chateubriand desde inicio deste mês e vem causando muita polemica devido ao radical  caráter anti-religioso das obras.

  

A concepção da amostra traz um nervo criador cuja essência é à pura critica aos princípios da religiosidade. As peças trazem um descontrole radicalismo critico as chamadas instituições e símbolos cristãos, em analogias simples ou comparações históricas. Tudo isso suscitou a incompreensão dos crentes e a hostilidade dos cristãos.

  

A Elaboração das peças do artista segue uma marcação de influência claramente nietzneana, cuja concepção demarca uma guerra sem tréguas aos signos religiosos, tocando naquilo que mais pode polemizar, as relações imagéticas e analógicas entre a sexualidade humana e a pureza divina.

  

As Composições não espontâneas, todavia conscientes de seu sensacionalismo, criaram uma atmosfera polêmica como poucas vezes se viu na cidade, – para muitos as obras são uma agressão a fé, para outros uma expressão artística que representa certo aspecto critico da nossa sociedade. Entendo que estas duas visões se combinam e se complementam.

  

A agressão à fé é visível nas concepções caracterizadas pelo artista em telas cuja Deus é comparado a genitálias humanas, na relação sexual entre Jesus e Maria Madalena (uma das pinturas mais belas do ponto de vista estético) e na comparação entre os representantes religiosos enquanto prostitutas. Estes quadros demonstram o quanto Jarrier radicaliza suas expressões se apropriando das simbologias (anti)cristãs. Cada peça é uma espécie de flecha no sentido óbvio de uma profanação consciente.

  

Quanto aqueles que veêm em suas obras um significado critico em relação a um aspecto da nossa sociedade atual (a religião enquanto instituição alienante, por exemplo), compreendo que algumas peças tem este intuito e simbolismo, porém deságuam infelizmente em um exagero de expressões e idéias que acabam decaído em uma pura critica pela critica, sem muito fundamento artístico e conceitual.

  

O conjunto da obra não nos traz nenhuma inovação do ponto de vista estético, os traços e as dimensões são muitas vezes propositariamente grosseiros, as cores confluem em uma atmosfera fálica e sombria, em uma alma emblemática que já se apresentavam em outras amostras e obras suas – principalmente no caráter artesanal e peculiar de sua técnica.

  

O aspecto promocional é o ponto principal daqueles que não veêm com bons olhos às obras expostas. Entendo que o autor Jarrier Alves tem plena consciência de suas posições e sofre as conseqüências de tais idéias assumidas. No sentido de escandalizar, de chocar tocando naquilo que mais as pessoas respeitam, gostam e se sustentam o artista fez de sua arte um púlpito expressionista de ideologias anti-cristas, causando uma autopromoção e ao mesmo tempo uma reflexão sobre a fé e os seus princípios ideologicos.

Temos que ter plena consciência que uma das funções da arte meus caros é tocar nas feridas de uma sociedade em ebulição e isso, mesmo de forma não muito inovadora fez o artistas plásticos Jarrier Alves.

  

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5 Comentários

  1. João Aguiar said,

    Não fui ao museu ver as obras. Cheguei, quando muito, a vê-las numa matéria jornalística. Não gostei, sobretudo, da conotação de heresia, ou mesmo profanadora da religião mensurada pela exposição, pelo contrário, aquele conjunto de “obras” – que valem sua variante lingüística pejorativa – passam longe disto. A meu ver, são frutos de uma mente, não doentia ou profana, contestadora ou crítica, mas, sim, de uma mente que sabe, muito bem, como vender um peixe – e diga-se de passagem – podre. Me chocou, isto sim, a grande leva de “cristãos” que saíram de suas casas para lançar pedras numa exposição que, volto a dizer, não tem caráter nenhum profano, visto ser, em toda sua extensão, fruto de um artista querendo promoção. Estes cristãos deveriam, isto sim, estarem desfrutando tempo precioso em coisas mais frutíferas. A indiferença “aquilo” que se apregoou como mostra artística, seria, no meu entender, mais coerente com o bojo das “obras” ali expostas. Mais uma vez os ditos “cristãos” caem na cilada e no engano de contestar coisas que deveriam permanecer no anonimato, no breu, no limbo, no ostracismo. Dando, por extensão, um enaltecimento que é, sem sombra de dúvidas, o efeito que o senhor Jarrier Alves desejava. Não odiei, nem tão pouco amei as obras, pra mim são fadadas ao esquecimento. Talvez lá, na escuridão de porões de nossa memória elas estejam melhor expostas…

  2. Jarrier Alves said,

    Nos ultimos dias tenho passado bom tempo lendo matérias e críticas sobre a Expo A César o que é de César, algumas desconsidero por falta completa de ética, outras me faz pensar sobre o que está escrito e refletir, esta de Bruno Gaudêncio me deixou muito instigado a escrever, primeiro para parabenizar a analise do material, acho inclusive que tem tanto sensacionalismo no texto quanto nas minhas obras.
    Porém antes de prosseguir falando sobre o texto devo lembrar que para comentar arte, é necessário conhecer, no que diz respeito a isso, é coerente e inteligente lembrar que analisar artes plásticas por fotos é no mínimo declaração de ignorância, por vários fatores que aconselho o nobre João Aguiar, dono do comentário bem escrito porém nada embasado, pesquisar e estudar arte. por tanto seu comentário só demonstra o que é perceptível em todos os outros…
    Quanto ao texto, parte realmente importante que me instigou a escrever aqui, devo reconhecer que tem fundamentos interessantes, principalmente lembrando a base em Nietzsche, é claro que ta inspirado nele, não só neste filosofo do qual me atrevo a declarar que sou fã, mas meu trabalho também se inspira em Russeau e Freud, essa coleção retrata passagens descritas nos temidos Evangelhos apócrifos e nos agraciados canônicos. Apenas alguns poucos trabalhos tem idéias particulares, isso devo lembrar ao nobre Bruno, que sempre deixei muito claro, logo qualquer intenção de fazer minha obra parecer perder seu ineditismo, é pelo menos neste exemplo em vão. Reconheço claro que algo assim teria sido retratado a meio milênio se as chamas da piedade cristã não exterminasse qualquer manifestação que fosse de encontro ao interesse cristão, isso é possível perceber por que alguns artistas como Botticelli e Da Vince deixaram marcas nesta intenção, em suas obras.
    Porém o que me instigou a escrever realmente, é o que mais tem me chamado a atenção nos comentários sobre os meus trabalhos, é a instigada intenção de todos que avaliam a obra de traçar um perfil psicológico ou no mínimo intencional sobre mim.
    Realmente, pode ser que estivesse tentando aparecer, mas será que não é realmente interesse de alguém dar um grito de revolta contra as mazelas religiosas?
    Será mesmo que a minha crítica não tem bases? Ou será que o observador, não foi capaz de discernir sobre todas as mensagens artísticas impressas no trabalho?
    Será que as influencias de uma educação cristã não estão afetando o discernimento do observador, que tenta ser imparcial, mas sabemos bem que a imparcialidade é igual a perfeição divina?
    Será que não existe uma tremenda dor de cotovelo, por ver um artista local com uma projeção tão grande?
    Responda quem achar que pode, eu me reservo a plagiar o filosofo e dizer que “tudo que sei é que nada sei”.
    Agora para finalizar só quero mais uma vez repetir um argumento tantas vezes pronunciado, mas que me parece não ter sido abstraído, COM O MESMO DIREITO QUE ALGUEM PREGA UMA VERDADE eu as questiono. Logo o argumento de falta de respeito deve ser repensado, por que o que eu chamo de falta de respeito, é líder religioso abusar sexualmente de crianças, é líder religioso ofender outros lideres de uma fé diferente da sua, é movimento contra homossexuais, falta de respeito é uma instituição que prega amor ao próximo, mas fez sua história na ponta de uma espada, exterminando os diferentes, eu poderia encher um livro citando as monstruosidades desrespeitosas de mais de dois milênios. Mas quero simplesmente dizer que falta de respeito é arte ser censurada por que Jesus é o de Filipe e não o de Mateus.
    ps.: para os questionadores quero apenas informar que em dois anos virá a parte final desta história “A DEUS O QUE É DE DEUS”.

  3. jotamatias said,

    Fui um dos primeiros a conferir a mostra do Jarrier Alves. De início, vi nelas a expressiva ousadia de um artista local em atacar instituições tão lapidadas em nossas mentes, seja pela mídia, seja pelo legado cultural, quanto nossos próprios conceitos de certo e errado. Durante as oficinas do Comunicurtas, depois de já ter entrado naquele ambiente, visto tudo e até depositado 10 centavos no porquinho aparecido, só entrava mesmo para ver os comentários que as pessoas deixavam ao passar por ali.

    Coisas como “Deus é mais” ou “Jesus tenha dó de ti” só me provocavam o ânimo de continuar olhando a bíblia feita de caderno de notas.

    A proposta não é mesmo inovadora, os traços são grosseiros e a intenção é explícitamente de ofender a quem for cristão e passar por aquelas telas. Caso o autor das telas dispusesse de mais sutileza nas críticas, talvez as telas ganhassem em beleza e reflexão. Porém, nessa mostra, o efeito que a arte do Jarrier produz em quem realmente admira as artes pláticas é o mesmo que conseguir na Internet um Jesus Cristo vestido de guerreiro Jedi. Isto é, a arte só está lá pela polêmica ante os cristãos despidos de apreciação artística, não pela estética nem pela proposta. Ofensa por ofensa, nem Maomé escapou da sua nos jornais dinamarqueses.

    A arte polemizadora do Jesus trepando com Madalena não é mais que programa do ratinho para os desinformados que comentam na bíblia de escritos profanos.

    Abraços, Bruno.
    Grande texto.

  4. Tomires said,

    Não penso em críticar as obras de Jarrier, nem tão pouco em seu pensamento.Mas agredito que sim seu intuito ou seu(s) objetivo(s).Não sou religiosa,nem muito menos pertenço a um tipo de instituição religiosa.Sabemos,sim que a(s) Igreja(s) foram e estão sempre imbuindo nas mentalidades de muitas pessoas e as transformando de maneira à não critica ou no esquecimento das grandes carnificinas organizadas “financiadas” por ela(s).A grande questão é, não é preciso ser um critico de arte para poder chegar a conclusão que a intenção do artista, era apenas de autopromoção, ou melhor chamar a tenção da sociedade da maneira mais “pobre” para um artista.Sabemos que aqui na nossa cidade os artistas, isso seja pintor, cantor,etc…etc….não tem muito lugar.Digo isso porque sofro na pele,mas que nem por isso tento agredir de maneira iconografica a sociedade em si.Como o pintor a sociedade tem sim o direito de contestar a agressão e o repudio as suas obras como ele mesmo faz com a biblia. Boticelli, Da Vinci entre outros, para se tornarem pintores “famosos”, não precisou chamar a atenção desta maneira, mas em se falando de Da Vinci por exemplo, ele foi sutiu,pois sabia que seu dom era maior do que qualquer coisa, ele apenas colocou seus indicios nas suas maravilhosas pinturas, apenas e só indicios…isso fez com que ele se tornasse um dos maiores pintores do mundo. Em fim respeito as suas obras, e até mesmo gostei de muitas, mas acho que o que ele fez foi apenas uma ato de atrair apenas atenção e de tentar ser reconhecido. Não foi na tentativa de “abrir os olhos”… “informar”…a população. Se não ele tinha feitos por outros meios.

  5. Sandra said,

    Olá, jarrier! Adooorrreeeiii sua exposição apesar de não tê-la visto, sou de São Paulo capital. Mas concordo com você a religião ou a igreja muitas vezes é um comércio sim. Sobre as pessoas se sentirem ofendidas com as imagens e esculturas da exposição é ao meu ver que suas obras são tão expressivas que causa até revolta e isso na minha opinião é arte. A arte contemporânea existe para mostrar as verdades, mentiras, revoltas, calúnias, falta de respeito e muito mais…. e também para mostrar a beleza, a sutileza, a generosidade, a paz, enfim a arte é tudo. Também li aqui que os cristãos deveriam fazer coisas mais “frutíferas”, ora e ir à uma exposição de artes é frutífero, pois as pessoas aprendem com isso, mesmo que sejam ou tenham idéias contrárias às expostas.
    Bom Jarrier fico por aqui, adoraria te conhecer, sou também artista e pretendo terminar (ainda) meus estudos em educação artística. Gostaria de obter seu e-mail para contato o meu é sancunha@hotmail.com
    Abraços.

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