A Literatura de Cordel no Cinema de Glauber Rocha.

julho 22, 2007 at 6:01 pm (Ensaios)

deus-e-diabo.jpg

DEDICADO A Ramon Porto Mota.

Um dos aspectos marcantes da filmografia de Glauber Rocha é a apropriação de certas convenções imagéticas e enunciativas ligadas ou inspiradas na literatura popular nordestina, tais como a seca, o misticismo, o cangaço, entre outras representações. Em  filmes como Deus e o Diabo na terra do sol, de 1964 e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de 1969, a poesia sertaneja é trabalhada em uma linguagem diferente do seu original, buscando construir um universo realístico e também místico do Nordeste.

  

O movimento Cinema Novo, cuja Glauber Rocha foi o seu principal representante, buscava na década de 1960, representar a realidade Brasileira em sua essência, limitando o trabalho com uma linguagem à busca de formas de maior capacidade de impacto, do choque junto ao publico. Glauber busca no Nordeste as raízes primitivas de nossa nacionalidade e de nosso povo, e mais do que isso, busca reaver o nosso inconsciente de revolta com a dominação, com a opressão e com a colonização. O cordel neste sentido não é apenas o mero inspirador de imagens, mais também uma forma de expressar certos representações resignificados e modernos.

A questão de reinvenção da tradição passa nos dois filmes pelo tipo de composição que apresentam: as canções de “Deus e o Diabo” (que formam em seu conjunto um romance como os narradores de folhetos de cordel) assim como as falas de “O dragão da maldade” (que lembram os desafios repentistas), foram feitas por artistas da tradição letrada brasileira, como o próprio Glauber Rocha que escreveu as respectivas letras e Sergio Ricardo que as musicou e as interpretou.

O tratamento dado pelo cineasta à temática sertaneja não consegue romper com as imagens do regional, com suas fronteiras, porque termina por atualizar os mitos, os temas, os enunciados e as imagens que constroem a região, resignificando-as, subordinando-a a outra estratégia política, a de servir como espaço – denuncia, espaço – vitima da sociedade capitalista e da alienação burguesa. O cordel, desta forma é utilizado como um artefato lingüístico e formal identificado com a critica social e o misticismo do Nordeste Brasileiro.

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2 Comentários

  1. ramon said,

    Salve bruno,

    assino em baixo do que vc escreveu ate o penultimo paragrafo.
    discordo dessa frase: “O tratamento dado pelo cineasta à temática sertaneja não consegue romper com as imagens do regional, com suas fronteiras, porque termina por atualizar os mitos…”. acredito que glauber subverta os mitos a sua estratagia politica e assim termina por romper com a imagem do regional, mesmo que essa subversao respeite tremendamente os mitos, o sertao, etc.
    agente tem que lembrar que o grande fator estetico do cinema do glauber em deus e o diabo é casamento das escolas neo-realista e construtivista russa, é a partir dai que se da a tonica da relacao entre a tematica, o mito e a proposta politica. esse casamento denota a cada cena do filme um sginificado proprio que fundem-se no todo, portanto existe tanto cenas que documentam a reliadade como cenas que subvertem a realidade que é apresentada no filme.
    ja no dragao da maldade a tonica do filme é o bom e velho faroeste subvertido pelo sertao, aqui o mocinho e o bandido se esfacelam diante de uma realidade complexa e dialetica.

    por fim acredito que o elemento principal que contorna ambos os filmes de glauber citados é a dialetica. a subversao e o respeito da tradicao terminam por caminhar de bracos dados, assim como o neo-realismo e o construtivismo russo, duas escolas cinematografica opostas.

    ramon
    xero

    ps: temos que levar um lero depois sobre assunto

  2. ramon said,

    e sim! muito obrigado pela dedicatoria, fiquei lisonjeado!

    =***

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