A Palavra Feto

julho 6, 2007 at 5:20 pm (Escritos Errantes)

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Palavra Feto

 Eis a vida trancada/por chaves que não vejo. Carlos Nejar. 

Não sei esquecer de mim. Já cansei de ser velho. Hoje luto desesperadamente por não existir. Simples é querer esquecer que um dia não se viveu. As fotos não deixam almas perdidas. É claro o escuro das minhas memórias. A velha infância foi embora, mas implora certas verdades. Odeio existir, odeio principalmente sobreviver, pois atualmente viver é um mero sobreviver descontinuo. 

Estou lúcido de tantas loucuras. O espelho pertuba demais com suas respostas delimitadoras e estranhas. Prefiro os filmes de Fellini e os poemas calmos de Maiakovski. Já fui velho, e hoje cansei de ser velho. Minha alma é jovem como o vento. A impresão é que estou por nascer e não consigo. Criei-me abortado. Não é fácil ser velho.

 Sou um coração batendo no mundo. Freud e eu brigamos muito, sabe. Jung é meio doido, e não me dá muita atenção. Já disse que cansei de ser velho. O tempo esqueceu de mim. As palavras são minhas amantes. As metáforas me deixam azuis como o céu. Vivo aberto. Já fui velho demais, receio não existir. Sou útero do mundo com minha palavra feto. 

A palavra feto. A palavra afeto. Já fui velho demais. Herói do tempo. Viver é perigoso, disse um Rosa das letras, mas viver é muito mais do que perigoso. Para se viver antes de tudo é necessário não existir eternamente. É necessário se arrepender de um dia ter se arrependido. Por isso cansei de ser velho. Minha alma é jovem como o vento. 

Quero sempre esquecer de mim, mas minhas metáforas internas não deixam. Chamo de Deus estas figuras de linguagem que habitam meu peito e espírito. Minhas desequilibradas palavras são luxos de meu silêncio. Já cansei de ser velho. Hoje luto desesperadamente por não existir. Simples é querer esquecer que um dia não se viveu. Sou útero do mundo com minha palavra feto. Já cansei de ser velho… 

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2 Comentários

  1. flavio said,

    Bruno, queria primeiro te parabenizar pela iniciativa de publicizar uma parte (volátil)
    de si. Contudo, não passaremos a conhecer apenas mas um bocadinho de vc, tentando interpretar o “seu mundo”, vamos a partir de agora consumi-lo, degustá-lo, partilhá-lo ao que nos convém. Obrigado por nos possibilitar isso…

    De fato agora cada visita é um convite à reflexão, da qual já me ponho prontamente a praticar:
    “A divinvidade está em ti, não em idéias e livros”,
    eis um centramento que nos liberta!!!

  2. brgaudencio said,

    Obrigado professor
    espero que sempre apareça com os seus comentários
    abração daquele que te instima…

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