METABIOGRAFIA: UMA ALTERNATIVA DE CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA.

outubro 21, 2007 at 10:54 pm (Ensaios)

Por Bruno Gaudêncio.

Biografias: uma critica por parte dos historiadores.

A biografia pode ser definida como sendo uma narração de fatos particulares das várias fases da vida de uma pessoa ou personagem, podendo ser construída em diversas linguagens, como livros (as mais comuns), filmes, peças teatrais, entre outros. Gênero hibrido por natureza, que combina uma serie de recursos e conceitos de vários campos do conhecimento social e humano, como a literária, a histórica, a jornalística, a psicológica, entre outros, foi durante muitos anos ele alvo de várias críticas por parte de estudiosos, que a consideravam um gênero menor. Estas criticas vieram principalmente por parte dos historiadores.

 

Mas que motivações estão contidas nestas criticas por parte dos historiadores? Segundo Vavy Borges em seu ensaio Grandezas e Misérias da Biografia a biografia seria uma pratica exercita por um conjunto de indivíduos preocupados principalmente com o endeusamento de certos personagens e fatos históricos. Assim ela se refere sobre o assunto: “… a maioria das biografias realizadas não parece satisfazer os historiadores, por oscilar entre uma idealização simplista do personagem e falsas polêmicas a em torno de pessoas famosas, visando a uma grande vendagem; além disso, muitas se comprazem no anedótico, não no essencial”. (Borges).

 

Atualmente este gênero vem passando por intensas transformações. Houve uma contribuição para isso essencial do conhecimento literário, jornalístico, como também do histórico, quanto às praticas de captação de informação, e principalmente quanto à construção da narrativa, que agora tem uma preocupação clara e maior quanto aos fundamentos estilísticos e estéticos.

 

A trajetória de mudança de visão do historiador em relação à biografia pode ser sentida através do discurso de um dos mais importantes historiadores do século XX, o francês Jacques Lê Goff, em 1989 ele afirmou: “a biografia é um complemento indispensável da análise das estruturas sociais e dos comportamentos coletivos. Dez anos depois, em 1999, vai mais longe: ‘ A biografia é o ápice do trabalho do historiador” (Borges). Já Philippe Levillain destaca em seu ensaio: Os Protagonistas: da Biografia o florescimento da Biografia na França no fim das décadas de 1970, tanto no campo cientifico como também no campo editorial. No Brasil o olhar do historiador para a Biografia se intensifica no final da década de 1980.

 

O próprio Levillain nos relata em seu trabalho que A biografia e a história durante muito tempo mantiveram relações de alternativa e não de hierarquia ou de complementaridade. Ou seja, havia uma separação devida há uma herança da historiografia grega, que “situava a história do lado dos acontecimentos coletivos e colocava a biografia á parte, como uma análise dos fatos e gestos de um individuo cujo sentido era sugerido pelo autor.”

 

Theidore Zeldin nos afirma que a biografia acumulou ao longo do tempo um conjunto de características que valeram à qualificação de “gênero” no século XIX. Os positivistas vão ser os maiores produtores deste tipo de gênero. Haverá uma espécie de repulsa por todos os outros paradigmas historiográficos, mas com alguns porens. São exemplos destas exceções: Lucien Febvré e o Carlo Ginzburg. Ou seja, a própria escola dos Analles com alguns de seus principais representantes tentou rever os implicações de como se trabalhar com este tipo de escrita sem cair nas armadilhas tradicionais de sua construção.

 

Voltando um pouco as implicações essenciais de sua construção narrativa e suas relações com o conhecimento histórico um pensador moderno é considerado o principal critico deste tipo de gênero. Foi o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Segundo ele, em seu pequeno ensaio denominado “Ilusão Biográfica”, existe a crença da ordenação dos acontecimentos de uma vida como uma história com começo, meio e fim, formando um conjunto estável e coerente de questões quanta a sua construção. Ou seja, as biografias sejam elas quais forem tem uma preocupação narrativa no sentido de linearidade, de trajetória sem rupturas, algo impensável na narrativa histórica moderna.

 

E é nesta perspectiva que proponhamos uma alternativa de construção biográfica para os historiadores, chamada de metabiografia, uma forma, diríamos que se aproxima das chamadas metanarrativas, escritos da moda na obra historiográfica conteporranea. Suas características serão descritas nos parágrafos seguintes.

 

Metabiografia: pequenos fundamentos estéticos.

 

Idealizada pelo comunicólogo Sergio Vilas Boas, autor de uma recente tese de doutorado sobre o tema, apresentada na Universidade de São Paulo, o termo metabiografia é um tipo especifico de biografia. Podemos defini-la como uma “história de vida extensa na qual o biografo explícita os impasses inerentes o processo de biografar”. Também chamada de Biografia auto-reflexiva, para Vilas Boas, autor de muitos textos sobre o gênero, a metabiografia é um experimento em curso, uma arte inconclusa, pois sua construção envolve certas referencias epistemológicas que ainda estão sendo construídos continuamente.

 

Na metabiografia o autor (Biografo) se posiciona diante das soluções e impasses inerentes ao seu trabalho e explicitá-os. Expõe as opções e os conflitos decorrentes da relação biografado-biográfo. Com os documentos, com as dificuldades da memória das pessoas que conviveram com o personagem, indicando as possíveis lacunas de sua produção. Há neste conceito uma noção clara de que a biografia é uma construção simbólica. Há certo repudio a objetividade, bem como também há uma tentativa de fugir da função das chamadas ações seqüenciais cronológicas, na qual nos referimos a Bourdieu anteriormente em sua Ilusão Biográfica.

 

O personagem biografado é visto de maneira semelhante áquela utilizada pelo o esteta para interpretar uma obra de arte. “Há uma jornada rumo á essência da construção biográfica e a essência do personagem em foco”. Cada fato é interpretado como um enigma estético, cuja psicologia do personagem deve ser compreendida da forma caótica e desordenada da memória e dos acontecimentos.

 

E é desta maneira que a Metabiografia pode e deve ser uma boa possibilidade de construção biográfica para os historiadores, pois sua construção é jogo de estratégias narrativas que significam e fogem de velhos princípios de escrita tradicional e ineficiente. Sua essência toca no limiar da subjetividade, desaproxima de certos aspectos meramente científicos, visto que o autor (biografo), tem plena(ou deve ter) consciência de que esta construindo um personagem.

Bibliografia Básica:

BOURDIEU, Pierre. A Ilusão Biográfica. IN: FERREIRA, Marieta; AMADO, Janaina (orgs). Usos e abusos da história Oral. Rio de janeiro: editora FGV, 1996. P. 183-191.

BORGES, Vavy Pacheco. Grandezas e Misérias da Biografia. In: PINSKY, Carla Bassanezi. Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. P. 203-233.

LEVILLAIN, Phillippe. Os protagonistas: da biografia. IN: REMOND, René. Por uma Historia Política. Rio de janeiro: Editora FGV, 2003. p. 141-184.

VILAS BOAS, Sergio. Metabiografia e Arte: um problema de aproximação. In: Revista Comunicarte. São Paulo: s/d. P.73-89.

About these ads

2 Comentários

  1. João Matias said,

    Muito foda. Aguarde um comentário meu mais completo.
    =***

  2. Profanomedievo said,

    Olá amigo, é a primeira vez que entro no seu blogue. Estava procurando no Google um artigo sobre a ilusão biográfica para linkear direto do meu blogue e encontrei o seu, que por sinal está muito bem escrito e embasado, apesar de ser indiretamente ligado ao tema que procuro. Como dica, para que você saiba quantos outros blogs tem links direcionados ao seu, entre nesse endereço http://www.technorati.com e faça seu cadastro, é grátis, e, depois, coloque o widget do Technorati no seu blog para que outros saibam que é “sindicalizado” neste sistema e para que você consiga divulgar mais os posts interessantes que você escreve, assim mais pessoas frequentaram o seu blog. Tenho um blog sobre vídeos de história e o link para o seu artigo se encontra nesse endereço http://thehistorymovies.blogspot.com/2008/06/hasta-la-victoria-siempre-parte-1.html. Um grande abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: